
Paulo Chachamovich
Hi-fi, mid-fi, hi-end, low-end: como saber a que categoria pertence seu equipamento.
A busca da perfeição na reprodução sonora somente teve efeito após a 2ª Guerra Mundial. Houve uma explosão tecnológica, que proporcionou equipamentos de áudio capazes de reproduzir música muito perto da realidade. Até hoje os projetistas sempre dizem ter conseguido o "equipamento definitivo", porém cada vez se chega mais próximo do ideal de reproduzir a música da forma mais parecida possível com a realidade. Nesta aproximação, se faz necessário definir a composição de fatores importantes para ter um sistema
high-end.
Com o contínuo aperfeiçoamento tecnológico, o high-end está sendo constantemente redefinido. Equipamentos apontados como "a escolha do ano" pelas publicações especializada estrangeiras são considerados high-end, ano a ano. Então, o que é exatamente high-end? Tecnologia define high-end? Não, high-end não significa alta tecnologia. High-end é a área da reprodução sonora que tem como meta principal trazer o máximo de realismo à sala de audição, home theater, etc. Será que esta meta é possível? Não, mas com o advento das tecnologias digitais e com as contínuas melhoras nos projetos dos equipamentos, a realidade está cada vez mais próxima.
Gosto sempre de colocar: inserindo algum componente no elo de reprodução sonora, com um fim específico, pode-se produzir outros efeitos. Por exemplo, para melhorar a reprodução dos graves, tornando-os mais rápidos e duros, perde-se em profundidade sonora. Isto chama-se perda de inserção. Tendo-se em conta que o ideal não pode ser alcançado, quais são as prioridades para definir o que é high-end. O casamento destas prioridades é que determina o que é um bom sistema de áudio.
Quando se escuta um sistema de áudio, a soma de influências de cada equipamento envolvido na cadeia de reprodução conta no resultado final. Uma característica excepcional não consegue mascarar as deficiências. Um pico em altas freqüências não pode ser compensado com uma resposta firme de graves. O que basicamente determina o high-end é o grau de satisfação musical. Se em uma primeira audição alguma coisa lhe chama muita atenção, é sinal que no futuro estará incomodando. Exemplo: você pode dizer a si mesmo "que agudo cristalino, realmente chama minha atenção". Esta característica sempre lhe chamará a atenção - e no futuro de forma negativa. Isto é, o "cristalino" não será mais cristalino, e sim seco e irritante. Nota-se que avaliar um sistema de áudio exige um longo período de audições.
Um sistema pode ser simples, consistindo de CD player, amplificador e um par de caixas acústicas interligados com alguns cabos; ou ser mais complexo, acrescentando toca-discos analógico e unidade de fita DAT, alimentando um pré-amplificador, conectado a um grupo de amplificadores dedicados, ligados a vários conjuntos de alto-falantes, interligados com uma infinidade de cabos. Quando se escolhe estas partes deve-se ter em mente que a característica individual de cada equipamento que compõe o sistema é importante, mas também que o conjunto dos equipamentos deve soar bem.
Na comunidade audiófila, tem-se a premissa de que a sinergia entre os componentes do sistema deve-se comportar como se fosse um só equipamento. Não adianta comprar os equipamentos mais caros e sofisticados, mas sim comprar os que melhor interajam musicalmente. Quando se escolhe um equipamento, não se deve somente ater às especificações técnicas e números, nem ouvi-lo em um ambiente que não é familiar. Para escolher um bom sistema sonoro, ele deve ser avaliado em sua sala de audição Ou então numa outra bem parecida).
Em um sistema, nenhuma interação é mais importante que outra. Certamente é impossível ouvir todos os equipamentos que estão no mercado, para isso é que existem as revistas especializadas e os profissionais. Revistas são importantes, assim como um bom dealer pode fornecer informações e opiniões valiosas, sobre uma grande variedade de produtos de áudio. Entretanto, somente seus ouvidos são os juízes.
Existe forte correlação entre o preços dos equipamentos high-end e sua qualidade de reprodução. Quanto mais for investido em equipamentos, mais próximo se está do topo da reprodução musical. Porém, colocar montanhas de dinheiro em equipamentos não significa obter o melhor sistema, mas sim uma aproximação. Pessoalmente, já escutei equipamentos caríssimos que não soam bem. A principal correlação entre preço e qualidade sonora é que os equipamentos mais caros geralmente utilizam componentes alta qualidade e tendem a ter projetos mais elaborados que os mais modestos, chamados de mid-fi, ou sua variante mais pobre, os
low-end.
Isto, porém, não significa que um bom equipamento não possa custar uma pechincha ou ter um projeto simples. Pode e acontece. Muitos equipamentos de boa sonoridade são simples e baratos. Quando digo "simples", não estou me referindo a uma manufatura rudimentar, e sim a equipamentos que utilizam um número menor de componentes, custam menos e por isso são "simples". Repare: uma boa qualidade de reprodução pode ser obtida com equipamentos de baixo preço, mas a TENDÊNCIA é dos bons equipamentos custarem mais.
O que define um bom sistema é sua capacidade de proporcionar musicalidade e um amplo e apurado senso de espaço. Musicalidade significa que o som deve ser suave, dinâmico e não irritante. Você deve ser capaz de adormecer escutando um bom sistema! Em minha opinião, a ordem de prioridades na escolha de um sistema é: maciez, suavidade nos agudos, dinâmica, graves fortes, qualidade nos médios, tamanho do palco e imagem. Esta opinião é pessoal e pode diferir da opinião de outros audiófilos. Mas é o que tenho em mente quando vou montar ou julgar um sistema de áudio. Em alguns casos até posso alterar minhas preferências em vista da excelência de um sistema.
A escolha de um sistema é um processo longo e complicado. Com muitas tentativas, erros e casamento de componentes. Não há muita ciência envolvida. No entanto, existem alguns princípios básicos a serem observados e ouvidos. Quando se observa um sistema, sempre alguns pontos positivos chamam a atenção. Certas pessoas gostam de agudos metálicos, outros gostam de sons equilibrados. Entre os audiófilos existe um conceito para equipamentos high-end: agudos vivos e metálicos prejudicam a qualidade da reprodução. Nessa categoria não entram, por exemplo, os equipamentos mid-fi, que oferecem o "tudo-em-um": controle remoto, muitas luzes e outros enfeites irrelevantes para a boa reprodução sonora.
Em high-end, os componentes são robustos, grandes, fortes, pesados (principalmente pelo uso de metais), bem construídos, utilizando somente o essencial. Amplificadores geralmente possuem somente uma chave liga/desliga. Pré-amplificadores têm só os controles necessários. Mesmo os fabricantes japoneses, que gostam de utilizar muitas luzes e chaves, poupam nos equipamentos high-end. Esta falta de enfeites existe por razões práticas. Quando se acrescentam campainhas, luzes, etc, cria-se maior possibilidade de panes e mau funcionamento. Conforto não é a palavra de ordem em high-end. Quando se complica o projeto eletrônico, adicionando componentes eletrônicos "desnecessários" à boa reprodução sonora, adicionam-se áreas geradoras de ruídos, que são incorporados ao programa musical. Em qualquer sistema de áudio, ruído é ruim. Quando o nível de ruídos é alto, limita-se a dinâmica musical.
Pode-se observar fatos relevantes sobre a qualidade de um equipamento tocando-o, levantando-o ou somente olhando-o. Equipamentos que utilizam materiais nobres e exibem bom acabamento geralmente têm boa sonoridade. Equipamentos feitos com economia de materiais, construídos com chapas finas de metais com poucas soldas ou parafusos, geralmente não apresentam bom som. Amplificadores com fiação desordenada e alto-falantes com cola saindo pelos lados de suas junções, esqueça. Tais observações só comprovam quão pouco cuidado foi despendido no projeto e manufatura destes componentes.
Quando se abre um equipamento de áudio, observa-se a ordenação do cabeamento. O mesmo deve ser limpo e com os fios cortados e soldados de forma coerente. Isto mostra cuidado na produção do equipamento. É desejável também que um equipamento seja pesado e robusto, porque vibrações oriundas são ruins e desagradáveis em áudio. Daí a razão dos bons equipamentos de áudio serem pesados e fazerem uso de massas de amortecimento, para eliminar vibrações que possam degradar a reprodução musical. Os melhores amplificadores são geralmente muito pesados e fazem uso de muito metal. Alguns chegam a pesar mais de 50kg!
Quando se avalia um equipamento, somente deve-se fazer o juízo final se o mesmo estiver sob as mesmas influências de sua sala de audição. Em um ambiente estranho, só se pode ter uma indicação de como o aparelho irá soar, não necessariamente como vai reproduzir um programa musical. Ouvir na sua sala de som é fundamental, porque um sistema de reprodução sonora não é composto de um único equipamento, mas sim de um conjunto de equipamentos que interagem.
Por isso também, é muito importante manter uma boa relação de confiança com seus revendedores, de forma que se possa ouvir os equipamentos em sua sala antes de adquiri-los. Igualmente importante é escutar os equipamentos nas lojas. Isso dá uma idéia, mesmo que grosseira, de como o equipamento soa, permitindo uma preleção do que vale a pena experimentar em casa. Quando fizer desta forma tente montar no seu dealer um sistema o mais próximo do que usa em casa, utilizando características de potência, projeto e status da indústria, entre outros.
Escutar os mais diversos tipos de equipamento em várias lojas diferentes também ajuda muito. Ganha-se conhecimento sobre as características de vários sistemas diferentes e aprende-se quais características se gostaria de incorporar ao nosso sistema e quais não. Pode-se assim aproveitar o que de melhor cada equipamento pode proporcionar e minimizar as características que não se aprecia. Suponhamos que se escute um CD player e que este soe áspero e agressivo. Após a audição de um programa musical variado, pode-se concluir que este player não soará bem em um sistema que seja exatamente áspero e agressivo. Então, procura-se um outro, mais suave e menos agressivo, para compensar, fazendo o sistema soar mais neutro. Este casamento vem da experiência adquirida no passado e é de fundamental importância para se compor um sistema que se possa chamar de
high-end.
COMO CLASSIFICAR OS EQUIPAMENTOS
High-end - Nome dado a amplificadores, prés, processadores, CD players e caixas acústicas de alto padrão, que utilizam componentes nobres e projetos de construção elaborados. Certas marcas são famosas por só fabricarem produtos dessa categoria, como Krell, Mark Levinson, Meridian e Jeff Rowland, entre outras.
Hi-fi - Categoria intermediária, que inclui os mesmos tipos de aparelhos mas sem os mesmos requintes. São, em geral, um pouco mais baratos que os high-end e de desempenho bem acima da média. Exemplos de marcas
hi-fi: Rotel, Sunfire, Proceed, etc.
Mid-fi - Classificação que inclui a maioria dos equipamentos para home theater. Fazem parte, por exemplo, os receivers mais sofisticados e de maior potência, como Denon, Onkyo, alguns modelos Yamaha e Marantz e a linha Elite da
Pioneer.
Low-end - Entram nesta categoria todos os produtos "populares", como receivers mais simples, minisystems e caixas acústicas compactas. Sua principal característica: são produtos baratos, fáceis de instalar e operar, e produzidos com componentes menos elaborados.
Bibliografia:
- Barber, W. Alfred - Handbook of HiFI/Audio Systems and Projects, 1981
- Sands, leo G. and Shunamam, Fred - 101 Questions & Answers about HIFI &Stereo, 1973
- Pioneer - Understanding High Fidelity, 1972
- Mak, Alan - Considerations & Methods in Chosing High Fidelity Audio Systems, 1995
- Alguns artigos da Stereophile
* Russ Hershelmann é um dos mais respeitados projetistas de home theater dos EUA.
Texto originalmente escrito para STEREOPHILE GUIDE TO HOME THEATER.
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