O iniciante em alta fidelidade em geral fica confuso com a grande variedade de
componentes que tem a sua escolha. E freqüentemente recorre a um
?especialista? para ajudá-lo a montar o equipamento dos seus sonhos. Pode
ser um revendedor, um consultor, um instalador, ou até alguém que escreva numa
revista na qual o tal iniciante confia como fonte de informação. Mas, se for
inteligente, esse candidato a consumidor de alta fidelidade irá ouvir apenas
?um? especialista: quanto mais opiniões ele pedir, mais confuso irá ficar.
Porque a opinião de cada expert será sempre diferente da opinião dos demais.
A única unanimidade entre os especialistas é que o conceito de alta
fidelidade significa ?reprodução realista do som?. Eles podem até
concordar sobre este ou aquele aparelho, mas comece a questioná-los sobre
detalhes das gravações, amplificação, tuners ou principalmente caixas acústicas,
e você verá que a preferência de um é exatamente aquilo que o outro rejeita.
Claro, qualquer expert poderá lhe dizer por que há tanto
desentendimento entre eles. O mais provável é que cada um deles diga: ?Bem,
os outros? São caras legais, mas não entendem nada do assunto?. Ou então:
?Conhecem um pouco tecnicamente, mas não têm a sensibilidade auditiva necessária
a uma avaliação realmente válida da reprodução musical?.
É aí que está o ponto. As medições podem ajudar a descrever a
performance de um equipamento, mas o critério final para julgar a fidelidade de
uma reprodução sempre foi e sempre será o ouvido. Quando se cai em
julgamentos subjetivos, sempre surge uma diversidade de opiniões. E não é
simplesmente porque, como se diz, ?pessoas diferentes ouvem as coisas de forma
diferente?. Toda pessoa que ouve está respondendo a um conjunto variado de
pressões vindas do espaço em volta. E se essas pressões na sala de estar são
iguais às de uma sala de concertos, então cada pessoa irá ouvir uma réplica
absolutamente realista dos sons originais, independente de seus eventuais hábitos
de audição.
Os ouvidos dessa pessoa podem apresentar alguns ?picos? de resposta,
ou nenhuma resposta acima de 4.000Hz, por exemplo, mas essas variações existirão
sempre, seja ouvindo um som original ou uma reprodução. Esse aspecto,
portanto, não deveria influenciar a avaliação da pessoa sobre o som
reproduzido. Há apenas uma exceção: a pessoa que não consegue ouvir acima de
4.000Hz será igualmente surda a qualquer irregularidade que exista a partir
dessa freqüência.
As gravações sonoras podem até no futuro se transformar numa arte,
produzindo
música que não tenha qualquer relação com sons naturais. Na verdade,
alguns gêneros ? como a chamada ?música eletrônica? ? já caminham
nessa direção. Mas isso não é alta fidelidade, e não adianta querer fingir
que é.
Se estamos mesmo preocupados com a reprodução realista do som, o
principal critério de julgamento deve ser o som original. A maioria dos experts
em hi-fi concordam nisso. O problema reside em definir ?qual? som original
deve ser duplicado. O ouvido humano difere em tolerância à distorção, entre
uma pessoa e outra. Obviamente, alguém com grandes perdas nas altas freqüências
não perceberá distorções que estejam limitadas a essa faixa. Mas mesmo
pessoas com acuidade auditiva idêntica têm sensibilidade distinta em relação
a pequenas distorções.
Uma pessoa pode treinar seus ouvidos para separar todo tipo de detalhe
contido no som reproduzido ? picos, variações de fase, colorações etc. ?
mas muitos desses ouvidos treinados nunca ouviram uma orquestra ao vivo.
Portanto, não estão qualificados para dizer o que é e o que não é realista.
Da mesma forma, se nunca ouviram um sistema com distorção realmente baixa, ou
com resposta realmente plana (e muitos experts nunca ouviram), essas pessoas
também não conseguirão perceber pequenas sutilezas sonoras que são evidentes
para quem está acostumado a um sistema de alta qualidade.
Pessoas
com idêntica acuidade auditiva e idênticos padrões de julgamento podem ser críticas
em relação a aspectos diferentes da performance de um sistema. O especialista
A pode questionar muito o que acontece na faixa de agudos altos, enquanto o
especialista B irá criticar mais os graves e o especialista C comentará a
?coloração? dos médios.
Pode-se ver então como tudo isso influencia o julgamento, por exemplo,
de um sistema de caixas acústicas. Se for mais áspero na faixa de altas freqüências,
suave nos médios e tímido nos graves, o especialista A não irá gostar, pois
isso irá ofender seu ouvido tão sensível aos agudos! O especialista C também
não ficará muito contente, mas o especialista B, mesmo admitindo que os agudos
não são ?tão agradáveis como já ouvi em outros equipamentos?, e que
?os graves deixam um pouco a desejar?, provavelmente irá definir o conjunto
como ?um dos que têm sonoridade mais natural? entre os tantos que já
testou...
Todos eles conseguem ouvir as falhas das caixas acústicas, pois picos de
agudos e timidez dos graves são facilmente registrados em seus mecanismos
auditivos. Mas cada um irá ressaltar aquele aspecto da performance que mais o
incomoda, tendendo a julgar com base apenas nesse aspecto.
Nenhum crítico de equipamentos que mereça este nome pode julgar um
aparelho baseado apenas num critério. Mas não é tão raro assim vermos um
desses experts exagerar sua avaliação com base em algumas poucas coisas que
ele considera importantes. De fato, é quase impossível para essa pessoa evitar
isso. Alta fidelidade pode ser uma ciência, mas não uma ciência exata.
Existem muitas coisas sobre ela que ainda não são compreendidas. Esse, na
verdade, é um campo em que a opinião de um homem ?nunca? é melhor do que
a de outro.
Muitos que já escreveram livros e artigos sobre alta fidelidade orientam
as pessoas a comprar simplesmente aquilo que lhes soa bem. Claro, não faz
sentido alguém escolher um sistema de que não goste! Mas, num setor em que há
padrões definidos de qualidade, gostar de uma coisa não significa
necessariamente que essa coisa é boa. Por exemplo, uma pessoa que goste de arte
abstrata pode julgar um quadro por qualquer critério, mas certamente a semelhança
com a imagem original não está entre eles. Se fosse para avaliar com base na
?fidelidade?, seria considerado um péssimo quadro. Igualmente, um ouvinte
que prefere música estridente e metálica tem todo direito a essa preferência,
mas jamais poderá dizer que escolhe um sistema por causa da fidelidade.
Isso levanta a questão: será que a alta fidelidade pode, ou deve, ser
melhor do que o som ao vivo? Certamente, ela pode ser trabalhada para ser mais
rica, mais forte, ou até mais detalhada numa gravação do que na sala de
concerto. E o resultado final pode até ser mais agradável! Os recursos de
gravação, é verdade, podem às vezes servir melhor à música do que a
performance ao vivo. Mas se a reprodução for melhor ou pior do que o original,
não se está falando de fidelidade ? e, portanto, não se trata de alta
fidelidade (high fidelity).
Vamos dar um exemplo. Entre numa sala de concertos onde irá se
apresentar uma orquestra sinfônica e tente ouvi-la em três posições
diferentes: a) na fileira da frente; b) na 20ª fileira; e c) na
quarta fileira do balcão superior. Em cada lugar desses, a orquestra irá soar
diferente. Então, cabe a pergunta: qual desses sons representa melhor o que a
orquestra está tocando? Obviamente, o som que se ouve quando se está no melhor
lugar da sala é a melhor representação da orquestra. Mas quem pode alegar que
sua escolha por este ou aquele assento é a única preferência válida e que
qualquer um que prefira sentar em outro lugar estará fazendo um mau julgamento?
Você pode até preferir um lugar mais próximo, porque ali se ouvem mais
detalhes sonoros. Outra pessoa pode preferir um local mais distante, porque o
som interage melhor no fundo da sala. Outra ainda pode ficar no balcão porque,
naquela sala em particular, as cordas, os metais ou os sopros soam mais claros e
mais ricos quando ouvidos de um ponto mais alto. Em outras palavras, o melhor
lugar é o melhor para você, não necessariamente para os outros.
Se um sistema reproduz uma gravação do jeito que ela foi pensada ?
quer dizer, se os microfones próximos realmente soam próximos, e os distantes
soam distantes ? então justifica-se dizer que o sistema está reproduzindo
esse aspecto da gravação com fidelidade. Se os outros aspectos (gama de freqüências,
timbres dos instrumentos etc.) são ouvidos exatamente como foram gravados, então
pode-se afirmar que se trata de alta fidelidade.
Chegamos então à conclusão de que o importante, mesmo, é a fidelidade
à gravação, e não a fidelidade ao som original. Para julgar se a performance
de um sistema é acurada, é preciso saber precisamente como a gravação foi
feita e como os microfones afetaram o som (o que sempre acontece de alguma
maneira). E isso é quase impossível de saber quando se trata de gravações
comerciais. Por isso é que os especialistas realmente sérios fazem suas próprias
gravações, usando os melhores microfones e gravadores, e usam essas gravações
para julgar o nível de reprodução dos sistemas que testam.
Uma fita gravada com microfones cujas características sejam conhecidas,
e reproduzida num player devidamente calibrado e ajustado, oferece o sinal de áudio
mais confiável para testes de audição. A reprodução jamais irá soar
exatamente igual ao original, porque nenhuma sala de estar tem a mesma acústica
de uma sala de concerto. Mas os timbres de uma orquestra devem soar naturais,
toda a faixa de freqüências atingida pelos instrumentos deve aparecer
claramente, com o balanceamento apropriado, de tal maneira que o som seja
reproduzido nitidamente num sistema sem distorções.
Discos produzidos a partir de fitas como essas, sob condições
cuidadosamente controladas, são ótimos para testes de toca-discos e pré-amplificadores,
embora não se possa ter a mesma certeza em relação aos testes dos discos
propriamente ditos, já que muitas variáveis ? como o tipo de processamento e
o estilo de reprodução ? pode interferir na reprodução.
Sim, é perfeitamente possível montar um sistema de som de alto padrão
a partir de componentes de segunda linha.
É preciso compensar as colorações de um aparelho com as dos demais,
mas se você trocar esse mesmo aparelho por outro de qualidade superior ?
digo, com menos coloração ? não significa que o resultado final será
melhor. O mesmo pode acontecer se uma caixa acústica medíocre, que estava
mascarando a distorção recebida de seu amplificador, for substituída por
outra com resposta mais ampla e melhor definição dos transientes. A caixa
melhor, revelando todas as falhas sônicas que a outra obscurecia, irá soar
?pior? do que aquela medíocre.
Isso é que às vezes deixa os especialistas confusos. Eles montam
componentes que compensam as deficiências de outros, e como resultado acontece
que cada vez que substituem um novo componente para comparação sua avaliação
só é válida naquele caso específico: com o aparelho ligado àquele sistema
em particular.
A melhor fonte de informação sobre equipamentos de áudio é alguém
que: 1) assista regularmente a bons concertos ao vivo; 2) use boas fitas master
para seus testes de audição; 3) tenha o equipamento e o know-how para checar
as medições, relacionando-as às reações subjetivas; 4) tenha acesso freqüente
a novos equipamentos, inclusive nos laboratórios; e 5) tenha o bom senso de
saber que seu gosto pessoal pode não ser o mesmo das outras pessoas.
O melhor que qualquer expert pode fazer por um consumidor é indicar-lhe
produtos intrinsicamente excelentes. Mesmo assim, o tal consumidor terá que
usar a própria cabeça para analisar questões como orçamento, aparência e
flexibilidade do aparelho recomendado, além de fazer seus próprios testes na
sua sala. O especialista não pode ? e se for honesto não fará isso ?
escolher os componentes para você, porque seus ouvidos têm sempre a última
palavra. Se nenhuma das combinações de bons aparelhos sugeridas lhe satisfaz,
então provavelmente você não está querendo mesmo alta fidelidade. Pode
esquecer a opinião dos especialistas. Afinal, eles nunca concordam, não é
mesmo?
* O texto acima,
publicado na última edição da revista AUDIO PLUS, foi condensado a partir de
um artigo de J. Gordon Holt, ex-editor da revista norte-americana Stereophile,
em 1963. Mostrar que os conceitos válidos sobre alta fidelidade naquela época
continuam sendo referência hoje.
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