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Alta Fidelidade: para quê e para quem?
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Atualizado em 07/08/2008



O iniciante em alta fidelidade em geral fica confuso com a grande variedade de componentes que tem a sua escolha. E freqüentemente recorre a um ?especialista? para ajudá-lo a montar o equipamento dos seus sonhos. Pode ser um revendedor, um consultor, um instalador, ou até alguém que escreva numa revista na qual o tal iniciante confia como fonte de informação. Mas, se for inteligente, esse candidato a consumidor de alta fidelidade irá ouvir apenas ?um? especialista: quanto mais opiniões ele pedir, mais confuso irá ficar. Porque a opinião de cada expert será sempre diferente da opinião dos demais.

A única unanimidade entre os especialistas é que o conceito de alta fidelidade significa ?reprodução realista do som?. Eles podem até concordar sobre este ou aquele aparelho, mas comece a questioná-los sobre detalhes das gravações, amplificação, tuners ou principalmente caixas acústicas, e você verá que a preferência de um é exatamente aquilo que o outro rejeita.

Claro, qualquer expert poderá lhe dizer por que há tanto desentendimento entre eles. O mais provável é que cada um deles diga: ?Bem, os outros? São caras legais, mas não entendem nada do assunto?. Ou então: ?Conhecem um pouco tecnicamente, mas não têm a sensibilidade auditiva necessária a uma avaliação realmente válida da reprodução musical?.

É aí que está o ponto. As medições podem ajudar a descrever a performance de um equipamento, mas o critério final para julgar a fidelidade de uma reprodução sempre foi e sempre será o ouvido. Quando se cai em julgamentos subjetivos, sempre surge uma diversidade de opiniões. E não é simplesmente porque, como se diz, ?pessoas diferentes ouvem as coisas de forma diferente?. Toda pessoa que ouve está respondendo a um conjunto variado de pressões vindas do espaço em volta. E se essas pressões na sala de estar são iguais às de uma sala de concertos, então cada pessoa irá ouvir uma réplica absolutamente realista dos sons originais, independente de seus eventuais hábitos de audição.

Os ouvidos dessa pessoa podem apresentar alguns ?picos? de resposta, ou nenhuma resposta acima de 4.000Hz, por exemplo, mas essas variações existirão sempre, seja ouvindo um som original ou uma reprodução. Esse aspecto, portanto, não deveria influenciar a avaliação da pessoa sobre o som reproduzido. Há apenas uma exceção: a pessoa que não consegue ouvir acima de 4.000Hz será igualmente surda a qualquer irregularidade que exista a partir dessa freqüência.

As gravações sonoras podem até no futuro se transformar numa arte, produzindo música que não tenha qualquer relação com sons naturais. Na verdade, alguns gêneros ? como a chamada ?música eletrônica? ? já caminham nessa direção. Mas isso não é alta fidelidade, e não adianta querer fingir que é.

Se estamos mesmo preocupados com a reprodução realista do som, o principal critério de julgamento deve ser o som original. A maioria dos experts em hi-fi concordam nisso. O problema reside em definir ?qual? som original deve ser duplicado. O ouvido humano difere em tolerância à distorção, entre uma pessoa e outra. Obviamente, alguém com grandes perdas nas altas freqüências não perceberá distorções que estejam limitadas a essa faixa. Mas mesmo pessoas com acuidade auditiva idêntica têm sensibilidade distinta em relação a pequenas distorções.

Uma pessoa pode treinar seus ouvidos para separar todo tipo de detalhe contido no som reproduzido ? picos, variações de fase, colorações etc. ? mas muitos desses ouvidos treinados nunca ouviram uma orquestra ao vivo. Portanto, não estão qualificados para dizer o que é e o que não é realista. Da mesma forma, se nunca ouviram um sistema com distorção realmente baixa, ou com resposta realmente plana (e muitos experts nunca ouviram), essas pessoas também não conseguirão perceber pequenas sutilezas sonoras que são evidentes para quem está acostumado a um sistema de alta qualidade.

Pessoas com idêntica acuidade auditiva e idênticos padrões de julgamento podem ser críticas em relação a aspectos diferentes da performance de um sistema. O especialista A pode questionar muito o que acontece na faixa de agudos altos, enquanto o especialista B irá criticar mais os graves e o especialista C comentará a ?coloração? dos médios.

Pode-se ver então como tudo isso influencia o julgamento, por exemplo, de um sistema de caixas acústicas. Se for mais áspero na faixa de altas freqüências, suave nos médios e tímido nos graves, o especialista A não irá gostar, pois isso irá ofender seu ouvido tão sensível aos agudos! O especialista C também não ficará muito contente, mas o especialista B, mesmo admitindo que os agudos não são ?tão agradáveis como já ouvi em outros equipamentos?, e que ?os graves deixam um pouco a desejar?, provavelmente irá definir o conjunto como ?um dos que têm sonoridade mais natural? entre os tantos que já testou...

Todos eles conseguem ouvir as falhas das caixas acústicas, pois picos de agudos e timidez dos graves são facilmente registrados em seus mecanismos auditivos. Mas cada um irá ressaltar aquele aspecto da performance que mais o incomoda, tendendo a julgar com base apenas nesse aspecto.

Nenhum crítico de equipamentos que mereça este nome pode julgar um aparelho baseado apenas num critério. Mas não é tão raro assim vermos um desses experts exagerar sua avaliação com base em algumas poucas coisas que ele considera importantes. De fato, é quase impossível para essa pessoa evitar isso. Alta fidelidade pode ser uma ciência, mas não uma ciência exata. Existem muitas coisas sobre ela que ainda não são compreendidas. Esse, na verdade, é um campo em que a opinião de um homem ?nunca? é melhor do que a de outro.

Muitos que já escreveram livros e artigos sobre alta fidelidade orientam as pessoas a comprar simplesmente aquilo que lhes soa bem. Claro, não faz sentido alguém escolher um sistema de que não goste! Mas, num setor em que há padrões definidos de qualidade, gostar de uma coisa não significa necessariamente que essa coisa é boa. Por exemplo, uma pessoa que goste de arte abstrata pode julgar um quadro por qualquer critério, mas certamente a semelhança com a imagem original não está entre eles. Se fosse para avaliar com base na ?fidelidade?, seria considerado um péssimo quadro. Igualmente, um ouvinte que prefere música estridente e metálica tem todo direito a essa preferência, mas jamais poderá dizer que escolhe um sistema por causa da fidelidade.

Isso levanta a questão: será que a alta fidelidade pode, ou deve, ser melhor do que o som ao vivo? Certamente, ela pode ser trabalhada para ser mais rica, mais forte, ou até mais detalhada numa gravação do que na sala de concerto. E o resultado final pode até ser mais agradável! Os recursos de gravação, é verdade, podem às vezes servir melhor à música do que a performance ao vivo. Mas se a reprodução for melhor ou pior do que o original, não se está falando de fidelidade ? e, portanto, não se trata de alta fidelidade (high fidelity).

Vamos dar um exemplo. Entre numa sala de concertos onde irá se apresentar uma orquestra sinfônica e tente ouvi-la em três posições diferentes: a) na fileira da frente; b) na 20ª fileira; e c) na quarta fileira do balcão superior. Em cada lugar desses, a orquestra irá soar diferente. Então, cabe a pergunta: qual desses sons representa melhor o que a orquestra está tocando? Obviamente, o som que se ouve quando se está no melhor lugar da sala é a melhor representação da orquestra. Mas quem pode alegar que sua escolha por este ou aquele assento é a única preferência válida e que qualquer um que prefira sentar em outro lugar estará fazendo um mau julgamento?

Você pode até preferir um lugar mais próximo, porque ali se ouvem mais detalhes sonoros. Outra pessoa pode preferir um local mais distante, porque o som interage melhor no fundo da sala. Outra ainda pode ficar no balcão porque, naquela sala em particular, as cordas, os metais ou os sopros soam mais claros e mais ricos quando ouvidos de um ponto mais alto. Em outras palavras, o melhor lugar é o melhor para você, não necessariamente para os outros.

Se um sistema reproduz uma gravação do jeito que ela foi pensada ? quer dizer, se os microfones próximos realmente soam próximos, e os distantes soam distantes ? então justifica-se dizer que o sistema está reproduzindo esse aspecto da gravação com fidelidade. Se os outros aspectos (gama de freqüências, timbres dos instrumentos etc.) são ouvidos exatamente como foram gravados, então pode-se afirmar que se trata de alta fidelidade.

Chegamos então à conclusão de que o importante, mesmo, é a fidelidade à gravação, e não a fidelidade ao som original. Para julgar se a performance de um sistema é acurada, é preciso saber precisamente como a gravação foi feita e como os microfones afetaram o som (o que sempre acontece de alguma maneira). E isso é quase impossível de saber quando se trata de gravações comerciais. Por isso é que os especialistas realmente sérios fazem suas próprias gravações, usando os melhores microfones e gravadores, e usam essas gravações para julgar o nível de reprodução dos sistemas que testam.

Uma fita gravada com microfones cujas características sejam conhecidas, e reproduzida num player devidamente calibrado e ajustado, oferece o sinal de áudio mais confiável para testes de audição. A reprodução jamais irá soar exatamente igual ao original, porque nenhuma sala de estar tem a mesma acústica de uma sala de concerto. Mas os timbres de uma orquestra devem soar naturais, toda a faixa de freqüências atingida pelos instrumentos deve aparecer claramente, com o balanceamento apropriado, de tal maneira que o som seja reproduzido nitidamente num sistema sem distorções.

Discos produzidos a partir de fitas como essas, sob condições cuidadosamente controladas, são ótimos para testes de toca-discos e pré-amplificadores, embora não se possa ter a mesma certeza em relação aos testes dos discos propriamente ditos, já que muitas variáveis ? como o tipo de processamento e o estilo de reprodução ? pode interferir na reprodução.

Sim, é perfeitamente possível montar um sistema de som de alto padrão a partir de componentes de segunda linha. É preciso compensar as colorações de um aparelho com as dos demais, mas se você trocar esse mesmo aparelho por outro de qualidade superior ? digo, com menos coloração ? não significa que o resultado final será melhor. O mesmo pode acontecer se uma caixa acústica medíocre, que estava mascarando a distorção recebida de seu amplificador, for substituída por outra com resposta mais ampla e melhor definição dos transientes. A caixa melhor, revelando todas as falhas sônicas que a outra obscurecia, irá soar ?pior? do que aquela medíocre.

Isso é que às vezes deixa os especialistas confusos. Eles montam componentes que compensam as deficiências de outros, e como resultado acontece que cada vez que substituem um novo componente para comparação sua avaliação só é válida naquele caso específico: com o aparelho ligado àquele sistema em particular.

A melhor fonte de informação sobre equipamentos de áudio é alguém que: 1) assista regularmente a bons concertos ao vivo; 2) use boas fitas master para seus testes de audição; 3) tenha o equipamento e o know-how para checar as medições, relacionando-as às reações subjetivas; 4) tenha acesso freqüente a novos equipamentos, inclusive nos laboratórios; e 5) tenha o bom senso de saber que seu gosto pessoal pode não ser o mesmo das outras pessoas.

O melhor que qualquer expert pode fazer por um consumidor é indicar-lhe produtos intrinsicamente excelentes. Mesmo assim, o tal consumidor terá que usar a própria cabeça para analisar questões como orçamento, aparência e flexibilidade do aparelho recomendado, além de fazer seus próprios testes na sua sala. O especialista não pode ? e se for honesto não fará isso ? escolher os componentes para você, porque seus ouvidos têm sempre a última palavra. Se nenhuma das combinações de bons aparelhos sugeridas lhe satisfaz, então provavelmente você não está querendo mesmo alta fidelidade. Pode esquecer a opinião dos especialistas. Afinal, eles nunca concordam, não é mesmo?



* O texto acima, publicado na última edição da revista AUDIO PLUS, foi condensado a partir de um artigo de J. Gordon Holt, ex-editor da revista norte-americana Stereophile, em 1963. Mostrar que os conceitos válidos sobre alta fidelidade naquela época continuam sendo referência hoje.









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