
No dia 1º de abril de 1976, na ensolarada Palo Alto, Califórnia, dois jovens Steves, um Jobs outro Wozniak, apresentavam ao mundo uma máquina produzida por eles próprios na garagem do primeiro Steve que representava a visão que compartilhavam sobre o futuro. Na época, ninguém levou muito a sério aquela dupla de nerds-meio-hippies que traziam debaixo do braço caixas e mais caixas recheadas com placas de circuito impresso (PCIs) feitas à mão por Wozniak. Peças que eram os cérebros do que foi o primeiro computador pessoal com preço (relativamente) acessível já produzido: o Apple I.
Reza a lenda que de tanto Jobs insistir na idéia de que aquele produto seria vendido como água, seu parceiro não teve outra alternativa a não ser confeccionar artesanalmente 500 PCIs para serem vendidas pelo preço de US$ 666,66. A definição do custo do Apple I por meio desse número cabalístico (para dizer o mínimo) foi uma das primeiras de milhões de outras idéias marketeiras que Jobs lançaria mão em sua carreira.
Mesmo tendo sido um fracasso de vendas, o Apple I foi o primeiro passo da longa caminhada empreendida pela Apple Computer em 30 anos de vida, período em que sedimentou a imagem de ser uma das empresas mais visionárias, respeitadas e controversas da indústria eletrônica mundial. Antecipadora de tendências, ela foi a primeira a apostar em segmentos de produtos até então desconhecidos, ou simplesmente ignorados, por boa parte da indústria, como a portabilidade (ela é inventora do PDA e do tablet) e aplicativos de tratamento de imagens (já presentes no Apple II).
Alto
Outra inovação da Apple, decisiva para o sucesso dos computadores pessoais, foi a adoção da interface gráfica de usuário, a famosa Graphic User Interface (GUI). Inventada pela Xerox para ser utilizada no que se considera hoje o primeiro PC já produzido, o Alto, nome dado em homenagem ao centro de pesquisas da empresa, o Palo Alto Research Center (PARC).
Apresentado em 1973 (ano em que a também inventora das copiadoras lançou a primeira impressora a laser da história), o Alto era, como se chama hoje, uma "prova de conceito", ou seja, um produto que servia para indicar uma tendência industrial, sem a pretensão de ser um produto comercialmente viável. Ele foi o primeiro microcomputador a ter a configuração dos PCs atuais: monitor, mouse (outro invento da Xerox), teclado e CPU (que pesava nada menos do que 70 quilos), tudo isso coordenado por um até então inédito sistema operacional que oferecia ao usuário o mais importante invento de todos quando se fala em computador pessoal: o ícone, peça fundamental de qualquer GUI que se preze.
Até então, para se r
ealizar qualquer função, por mais simples que fosse, como transferir um arquivo de uma pasta para outra, em uma máquina dessas era preciso ser engenheiro e conhecer profundamente linhas de comando altamente complexas, dado que ainda não existia o conceito de "pasta" no sistema dos antigos computadores. A simplicidade do ícone foi o que permitiu aos seres humanos se relacionarem melhor com essas máquinas.
A Xerox, que na época era tão grande quanto a IBM (hoje em dia, nem tanto), não foi capaz de encontrar aplicações para esses inventos. Sorte dos dois Steves e também de um certo rapaz de Redmond, cidade do frio estado de Washington, que também foi à essa exposição da Xerox e compartilhou do mesmo encantamento dos californianos diante daquelas maravilhas tecnológicas. Esse então jovem e obscuro empresário se chamava William Henry Gates III, mais conhecido hoje em dia simplesmente por Bill Gates, fundador e atual dono da Microsoft, suposta arqui-inimiga da Apple.
Balzaquiana enxuta
Passada quase uma centena de lançamentos e quase o mesmo número de tropeços, a Apple chega aos 30 anos mais enxuta do que nunca. Renovada pelo banho de humildade que foi obrigada a tomar por conta de sua quase falência no final dos anos 80, época em que decidiu "imitar" a concorrência e lançar computadores com "cara de PC" (quem não se lembra da linha Performa?). Essa estratégia, que tinha como objetivo recuperar sua liderança no mercado de desktops que havia sido usurpada pelos computadores baseados no padrão de hardware aberto x86, acabou saindo como um tiro pela culatra.
Além de não ter sido bem sucedida por si só, essa estratégia gerou a fúria dos macmaníacos, que sentiram traídos pela empresa que tanto cultuavam. A situação ficou tão crítica que Steve Jobs, "gentilmente" afastado da mesa diretora da Apple por conta de suas idéias puristas e sua posição radicalmente contra a essas mudança, acabou sendo chamado de volta ao comando da empresa para apagar o incêndio causado por John Sculley, o então CEO da Apple que apostava tanto na diversificação do catálogo da empresa que chegou a colocar o logo da maçã em scanners, câmeras fotográficas e no Newton, o primeiro PDA da história (por outro lado, ele também foi responsável pela "brilhante" idéia de licenciar o hardware da Apple
para que outras fabricassem os infames "clones de Mac", o que quase levou a empresa para o buraco).
O exílio forçado de Jobs acabou confirmando o batidíssimo clichê "há males que vêm para bem". A empresa de software que Jobs abriu quando esteve fora do comando da Apple, a NexT, desenvolveu o atual sistema operacional dos computadores Macintosh, o Mac OS X. O resultado é que a NexT acabou sendo comprada pela Apple e, numa manobra surpreendente, fez com que o tio Jobs novamente retomasse o controle da companhia.
Coincidência ou não, isso se repetiu na compra da Pixar (estúdio de animação digital comprado por Jobs dos estúdios Zoetrope, de Francis Ford Coppola, que se encontrava em dificuldades financeiras e não sabia o que fazer com ela) pelos estúdios Disney. Hoje, ele é o maior acionista individual deste que é um dos maiores conglomerados de entretenimento do planeta. Entretanto, essa postura ortodoxa causou diversas baixas no catálogo da Apple, já que Jobs queria colocar a Apple de volta ao que melhor sabia fazer, Macs. A vítima que mais chamava a atenção foi justamente o Newton, um produto considerado inovador demais até por Jobs. Por conta desse "despreendimento", uma outra empresa acabou surgindo - a Palm - e praticamente monopolizou o mercado que a Apple criou.
iMac e iPod
Voltando à vaca fria, depois de estabelecer sólida hegemonia no setor de sistemas profissionais, principalmente nas áreas de manipulação digital de imagens e de editoração gráfica, Steve Jobs não se deitou em berço explêndido e soube redirecionar - agora sim - com rara maestria, a empresa que ajudou a fundar em direção ao usuário final, ou seja, todos nós, meros mortais. Há mais ou menos 10 anos, a Apple já dava pinta que iria tomar esse rumo, logicamente sem abrir mão de seu prestígio junto aos profissionais, com o lançamento da linha iMac, a primeira a oferecer preços mais acessíveis.
O sucesso do "Mac bolinha" foi a prova que tio Jobs precisava para se manter firme nessa estratégia. Tanto que não demorou muito para que lançasse mão de sua cartada mais ousada e, paradoxalmente, mais bem sucedida de todas: o lançamento do iPod no dia 23 de outubro de 2001. Sob o slogan "carregue todas suas músicas no bolso", o primeiro iPod tinha um display monocromático e disco rígido de 5 GB, o que permitia o armazenamento de 1 mil músicas com qualidade de CD.
Hoje, tudo isso soa engraçado (como ocorre com tantas outras invenções antigas) quando se vê a quinta geração do tocador, cujo modelo top conta com 60 GB de espaço e capacidade para tocar vídeo. "Com o iPod, o ato de ouvir músicas nunca mais será o mesmo", dizia "o-sempre-entusiasmado-em-suas-apresentações" Steve Jobs. Não importa se ele suspeitava ou não, esse aparelhinho se tornaria o pivô de uma legítima revolução no mercado fonográfico (para o bem e para o mal, diga-se). Afinal, seu modelo de negócio se baseava na venda único e exclusivam
ente de músicas, o que decretava a morte dos discos de vinil, fitas magnéticas ou CDs. À revelia da indústria de entretenimento, que até hoje luta para se recompor, às vezes com certo sucesso, um admirável mercado novo se abriu.
O início de século 21 indica que esse caminho deve-se manter indefinidadmente. Com a chegada dos desktops Macintosh com processador Intel, acompanhados de acessórios como controle remoto, câmera embutida e softwares multimídia como o Front Row, a Apple demonstra que pretende continuar a investir no segmento low end (usuário final), agora com a ajuda do conceito de central de mídia doméstica. Os computadores pessoais, até então restringidos a serem instalados sobre sisudas mesas de escritório, começam a invadir outros ambientes. Depois de trabalhar tanto nas mais diversas áreas, os bons e velhos Macintosh ganharam lugar de destaque no lugar mais aprazível da casa: a estante da sala de estar.