Ato de brincar começa ao nascer
Dois autores de livros sobre a arte do brincar, Cristina Von ("A História do Brinquedo") e Gildo Volpato ("Jogo, Brincadeira e Brinquedo"), comentam em suas obras que desde o nascimento a criança estabelece uma forma lúdica de interagir com o mundo, que vai se transformando de acordo com a faixa etária. Quando bebê, é o corpo da mãe que assume a função de um brinquedo. Já nos primeiros anos de vida o objetivo é imitar os adultos; é, por exemplo, quando pega a colher e faz o movimento de levar a comida à boca.
Depois, vem a fase de transformar a função dos objetos: a colher vira caminhão, a caneta vira trem, a caixinha vira casa etc. Quando amplia as relações sociais (vai à escola, ao supermercado etc.), a criança envolve outras crianças (ou cria amigos imaginários) para reproduzir esse universo social. Segue-se, então, a fase em que passa a discutir papéis: um será o bombeiro, o outro, o piloto de helicóptero, a outra médica ou professora e por aí vai. Então, surgem as regras.
UTI de brinquedo
Quem guarda um brinquedo por anos a fio sabe o quanto dói ter que descartá-lo. Aí entram as mãos de artesão de Marcos Lanzelotti, um consertador de brinquedos, que tenta sempre salvar a "jóia preciosa". "Nem sempre é possível achar peça para reposição, aí a gente tem que improvisar", conta. Muitas senhoras o procuram para consertar olhos, braços ou lavar os cabelos da "Amiguinha" (uma enorme boneca de plástico que fez a alegria das meninas nas décadas de 60 e 70). Para conservar os cabelos ele ensina a técnica de lavagem: enrole uma toalha no pescoço da boneca, para proteger o corpo, passe shampoo, enxágüe, em seguida condicionador e penteie sem enxugar, deixando secar na sombra. Trabalhando como autorizado de vários fabricantes, Lanzelotti recomenda cautela na hora da compra dos novos brinquedos eletrônicos: "há muitos de qualidade, depende do importador e do fabricante. Mas há peças que não valem o conserto, podem ser comprados quase pelo mesmo preço no camelô". Outro item que merece atenção: compre o brinquedo certo para a faixa etária da criança, "parece óbvio, mas tem pai que compra um brinquedo para uma faixa maior e depois reclama que quebrou logo".
Na mira dos colecionadores
Mas o mundo dos brinquedos seduz outro público mais seletivo: o dos colecionadores de antiguidades e de peças não mais fabricadas. Trata-se de um mercado em alta, habitado apenas por adultos. Alguns não vacilam em gastar pequenas fortunas para adquirir um pequeno boneco de dois séculos atrás ou uma outra peça mais recente, porém rara de achar. "Para muitos clientes é uma questão de nostalgia, um retorno a uma época feliz da vida. Num mundo tão violento, uma oportunidade de resgatar a infância, um momento único na vida", pondera o antiquário Rafael Moraes. Um nicho de mercado que também envolve dinheiro e vem ganhando espaço na internet, com o aparecimento de diversos brinquedos antigos em sites de leilões virtuais. Aquaplay, Genius, Falcon, Super Heróis Gulliver, Forte Apache, Moranguinho, Comandos em Ação, autoramas, brinquedos que pertenceram à infância de muitos adultos e que hoje ganharam maior valorização. No mercado livre, por exemplo, há a oferta de um rema-rema marca Bandeirantes, da década de 60, por R$ 400,00.
Mas há aqueles considerados realmente antiguidades, como o boneco chinês do século 19, da coleção de Rafael Moraes. Trata-se de um pequeno boneco de pano, pouco maior que a palma da mão, com cabeça esculpida em sândalo, trança de cabelo natural, quimono de seda original. Está avaliado em 1 mil dólares. Outra raridade de Rafael é a boneca de louça do início do século passado e um livro do Pinocchio, da coleção As Jóias dos Contos de Fadas, que foi febre nos anos 40. O mundo dos brinquedos tem lugar também para os populares como bolas de meia e bonecos de pano.
BRINQUEDOS CLÁSSICOS
Bicicleta: Embora Leonardo da Vinci tivesse feito estudos sobre ela, sua história oficial começou em 1790, quando um conde francês criou o celerífero: um veículo de madeira, sem pedais e sem correntes, que era empurrado com os pés no chão.
Bolas de gude: As mais antigas datam de 3000 a.C., são de pedras semipreciosas e estavam no túmulo de uma criança egípcia.
Bonecas: Na Grécia e em Roma, 500 a.C., eram conhecidas como "nympha" ou "pupa" (moça pequena), pois tinham cara de gente grande. Quando os artesãos passaram a confeccionar bonecas carregando o filho, despertaram o interesse das crianças e, daí, passaram a produzi-las com feições infantis.
Marionetes: As encontradas no Egito tinham corpo de madeira e cabeça de marfim e serviam de divertimento para os faraós. Em Atenas, no século 5 a.C., o teatro de marionetes apresentava as tragédias gregas.
Serviço: Rafael Moraes, tel 3289-9711 e 9782-4249; Brinqmania, rua Tolentino Filgueiras, 121, tel. 3284-8227; Marcos Lanzelotti, rua Azevedo Sodré, 103, 3289-5253.
Pipas: Na China, os militares a usavam como meio de comunicação durante guerras e conflitos.
Soldados de chumbo: Nasceram como jogos de guerra. Luís 14 recebeu de presente um exército de soldados de prata. No final de seu reinado, decepcionado, derreteu todos
Fonte: "A História do Brinquedo", de Cristina Von