As vantagens (e os riscos) das caixas acústicas compactas
Você já deve ter observado que boa parte dos anúncios de caixas acústicas as mostra não só em primeiro plano mas com seus telares removidos. O motivo dessa forma de exposição não é apenas revelar o número de seus alto-falantes, mas muitas vezes sua beleza estética. Isso parte do pressuposto de que uma boa parcela (senão a maioria) dos leitores das revistas especializadas é constituída de audiófilos, ou de pessoas que curtem tanto a mensagem quanto o meio necessário para desfrutá-la.
Só que esse desejo de que os equipamentos sejam grandes e bem visíveis não é universal. Considerações importantes como o gosto pessoal, a decoração do ambiente ou o espaço reduzido para acomodá-los fazem com que muitas pessoas dêem preferência a produtos mais compactos e discretos. Isso é particularmente verdadeiro no caso das caixas acústicas, cuja quantidade vem aumentando a cada novo processo de surround lançado no mercado (4.0, 5.1, 6.1, 7.1 e assim por diante).
Daí pode surgir a dúvida: será que ao utilizar caixas acústicas compactas não estarei sacrificando o desempenho do meu home theater? A resposta, como já dizia Gilberto Gil há muito tempo na música ?Oriente?, é que tudo depende de consideração. Vamos então considerar algumas das questões envolvidas.
Antes de mais nada, precisamos conceituar a que estamos nos referindo quando falamos em caixas compactas. Afinal, quando é que uma caixa acústica deixa de ser grande, tipo torre ou de piso, para ser compacta? Isso é muito difícil de precisar, pois acabamos caindo no terreno da subjetividade. Poderíamos dizer que uma caixa pode ser considerada compacta a partir do momento em que precise ser colocada sobre um pedestal, ou em uma estante, para que o seu tweeter (alto-falante de agudos) não fique muito abaixo da altura dos nossos ouvidos, quando nos encontramos sentados em um sofá típico. Isso representaria uma altura de cerca de 70/80cm. E por que esse critério? É simples. Quanto mais o tweeter está alinhado com nossos ouvidos, melhor é nossa percepção do palco sonoro e das altas freqüências.
Uma outra distinção pode ser feita entre caixas bookshelf e caixas satélites. As caixas bookshelf são as situadas entre 80cm e 25cm de altura, enquanto as chamadas satélites possuem menos de 25cm. Vale destacar também que o gabinete das caixas satélites é geralmente feito de algum composto de plástico e não de madeira. O uso do plástico é justificado por dois motivos. Primeiro, porque pode ser moldado em uma ampla variedade de formas, dando mais opções de design. Segundo, pois a partir de determinado tamanho os compostos de plástico já proporcionam a rigidez necessária para que as paredes da caixa não produzam excesso de ressonâncias indesejáveis.
Se houvesse algo de errado com o uso de caixas compactas (estilo bookshelf, no caso), não teriam sido adotadas como padrão no sistema THX, desenvolvido justamente para proporcionar no ambiente doméstico um desempenho sonoro o mais próximo possível da sala de mixagem, onde o diretor do filme avalia esse desempenho.
Quando bem projetadas e construídas, e com um subwoofer ajustado de forma correta, um conjunto de caixas bookshelf pode proporcionar um som da mais alta qualidade. Isso vale tanto para a audição de música em estéreo, como para assistir a filmes contendo efeitos sonoros ? como tiros de canhão, trovões e os passinhos de um Tiranossaurus rex.
Falar em um bom projeto está ligado ao layout dos divisores de freqüências e aos componentes utilizados, à qualidade dos alto-falantes, à rigidez do gabinete da caixa e aos cuidados na sua fabricação. Já quando nos referimos a um subwoofer bem ajustado, estamos tratando da sua perfeita integração às demais caixas, o que é feito através do sistema de gerenciamento de graves (bass management) do receiver ou processador de surround e dos controles de crossover e de nível de volume do sub. Através desses ajustes e de um bom posicionamento das caixas e do subwoofer na sala (assuntos abordados no encarte especial sobre caixas acústicas da edição 60), a integração pode ser perfeita, cobrindo toda a faixa de áudio e sem pico (realce) ou vale (atenuação) facilmente perceptível na resposta de freqüências.
Mesmo depois dessas colocações, você ainda pode estar se perguntando: mas os resultados não seriam bem melhores se pelo menos as caixas frontais esquerda e direita fossem de piso? Diríamos que depende do nível de qualidade das caixas em comparação. Sem muito medo de errar, poderíamos dizer que as melhores caixas acústicas do mundo são grandes modelos de piso, e naturalmente muito caras para os padrões dos consumidores normais. Chegam a custar vários milhares de dólares e são caixas destinadas quase que exclusivamente aos audiófilos muito exigentes, que as utilizam para audição de música em estéreo e não para home theater.
Por serem grandes, algumas dispensam subwoofer, uma caixa ainda olhada com reservas por uma boa parte desse tipo de público. Pode-se até argumentar que um modelo de piso de boa qualidade tem mais chances de proporcionar resposta de freqüências uniforme ? desde as altas até as baixas freqüências ? do que um sistema composto de duas caixas bookshelf e um subwoofer. Alguns desses modelos já incorporam inclusive o subwoofer. O argumento é que as chamadas torre têm a uniformidade na resposta de freqüências assegurada pelos fabricantes. Só que na prática as condições acústicas do ambiente podem comprometer essa uniformidade. Conclusão: um sistema bookshelf mais subwoofer garante, em alguns casos, melhores resultados - a flexibilidade de posicionamento do sub acaba permitindo a desejada uniformidade.
Você já deve ter notado que até agora só falamos de caixas bookshelf. E as menores, tipo satélite? Será que usadas com um bom subwoofer podem ter desempenho comparável ao das caixas bookshelf e de piso? Objetivamente a resposta é não, mas você poderá até ficar bastante satisfeito. Tudo vai depender das suas expectativas ou nível de exigência e da sua experiência (ou não) com produtos de áudio de alta qualidade.
Se, como a maioria das pessoas, você está acostumado a assistir a fitas de vídeo com som reproduzido pelos alto-falantes do televisor, a passagem para um sistema Dolby Digital/DTS, com caixas satélites e subwoofer, terá um efeito surpreendente. Agora, se você for exigente e prestar atenção nos detalhes, logo vai começar a sentir falta de itens importantes, como melhor sensação de dinâmica, boa naturalidade de timbre em níveis elevados de volume e maior integração entre as caixas frontais e de surround, quando comparadas às bookshelf.
Em um sistema com caixas satélites mais subwoofer, o tamanho muito reduzido das caixas faz com que a freqüência de transição entre elas e o sub seja muito alta, em torno dos 200 a 250Hz. Isso quer dizer que todas as freqüências situadas abaixo dessa faixa são desviadas para o subwoofer, já que as satélites não são capazes de reproduzi-las adequadamente. Até aí, tudo bem, mas a partir de determinada faixa as baixas freqüências deixam de ser omnidirecionais (propagação por todas as direções) e começam a se tornar direcionais, ou seja, a direção de onde elas vêm ? a localização do subwoofer ? passa a ser cada vez mais perceptível. Isso é ruim, pois tende a destruir a ilusão de que os sons graves se originam de qualquer ponto da sala, passando a se concentrar no sub. Se esse for instalado bem perto das caixas frontais, a falta de integração com elas poderá não ser percebida, mas se estiver distante o efeito passa a ser mais pronunciado.
Lembre-se: nossa imersão no clima de um filme está toda baseada na chamada suspensão da incredulidade (suspension of disbelief), que nos faz esquecer que muitas das coisas vistas e ouvidas são exageradas, improváveis ou francamente impossíveis. Nesse sentido, tudo que contribui para que saiamos desse estado de imersão, como a atenção para o subwoofer, não é bem-vindo. Convém ressaltar que a sensibilidade para esse tipo de detalhe varia muito de uma pessoa para outra. Se não fosse assim, os sistemas com caixas satélites e subwoofer não seriam o grande sucesso de vendas que se tornaram.
Uma outra consideração que deve ser feita a respeito de alguns sistemas satélites mais subwoofer é sobre a ausência do sub. Nestas alturas, você poderá dizer: mas como é possível, se o subwoofer é anunciado, está nos folhetos e no manual de instruções e acompanha o conjunto de caixas? É simples: ele tem toda a aparência, mas não é. Um sub digno desse nome deve ser capaz de responder com competência às freqüências da ordem de 40Hz, ou seja, é um desafio mesmo para caixas de piso de boa qualidade. Os modelos que acompanham alguns sistemas servem na realidade apenas para suprir a total incapacidade das demais caixas acústicas de responder às baixas freqüências, reproduzindo apenas a faixa que vai até os 60Hz ou acima. Um nome mais adequado para esses pretensos subwoofers seria módulo de graves. Por isso, desconfie se o móvel dessa caixa for muito compacto, pois aqui tamanho costuma ser documento.
João Carlos Jansen Wambier é consultor de empresas e colaborador da revista HOME THEATER
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