Geralmente creditam o
adjetivo de difícil à Física. Seria ela uma ciência de fácil compreensão,
caso fosse possível eliminar os cálculos. Já que muitas de suas leis e
teorias podem ser verificadas e comprovadas em nosso dia a dia, bastaria apenas
um pouco de atenção. Assim, convido vocês leitores a uma breve viagem pelo
mundo da Física, onde não serão efetuados cálculos, sendo necessários como
únicos requisitos a observação de fatos cotidianos e muita imaginação. Não
é intenção discutir aqui todos os conceitos que regem o A/V. As páginas
desta edição seriam insuficientes. Abordaremos de maneira simples apenas
alguns que causam certa confusão junto aos amantes do assunto.
Para
a correta interpretação do A/V é indispensável o conhecimento de alguns
conceitos. Como exemplo cito a freqüência.
Uma
maneira simples de definir freqüência é como sendo o número de
acontecimentos registrados num espaço de tempo. Se alguém visita um amigo 5
vezes por mês, a freqüência é de 5 visitas mensais. Em questões técnicas,
a unidade de medida de freqüência utiliza um período de tempo menor: 1
segundo. Interessa-nos o número de acontecimentos registrados no espaço de 1
segundo. A essa maneira de medir freqüências damos o nome de Hertz (Hz).
Quando dizemos que um sinal sonoro possui freqüência de 100 Hz, significa que
no espaço de 1 segundo foram
formadas 100 ondas sonoras.
Isso
pode ser facilmente entendido com a observação do cotidiano. Provavelmente
muitos já notaram que o som de um avião a jato soa grave quando a fonte de
sinal ( no caso o avião) encontra-se distante. Também perceberam que quanto
mais o avião se aproxima, mais agudo o som fica. Isso ocorre porquê,
estando a fonte de sinal distante de nossos ouvidos, o som emitido
percorrerá uma grande distância até nos alcançar. Se a distância é muito
grande, um número muito baixo de ondas sonoras chegará até nós no espaço de
1 segundo. Poucas ondas chegando, significa que a taxa de chegada dessas ondas
é baixa. Dizemos então que as ondas sonoras chegam com uma freqüência baixa.
Sabemos que baixa freqüência corresponde
ao som grave . À medida que a fonte de sinal se aproxima, a distância
percorrida diminui, fazendo um maior número de ondas sonoras nos alcançar no
espaço de 1 segundo. Com o aumento da freqüência de chegada, é correto
afirmar que as ondas chegam com alta freqüência, o que corresponde ao som agudo.
Quando a fonte emissora se afasta, o som torna a ficar grave devido ao
aumento da distância percorrida pela onda sonora. O fenômeno descrito foi
batizado de ?Efeito Doppler? ( em homenagem ao físico Christian Doppler).
Embora
possibilite boa compreensão sobre freqüências, o Efeito Doppler é valido
apenas quando fonte emissora de
sinal ou ouvinte encontram-se em movimento.
Fisicamente,
qualquer onda sonora ou eletromagnética (a luz por exemplo) possui nível de
energia proporcional à sua freqüência. Quanto mais alta a freqüência, mais
alta a energia contida na onda.
Cores
são freqüências de luz. Cada cor corresponde a uma freqüência definida. Se
imaginarmos o espectro de luz visível como sendo uma régua
(dessas para uso escolar), teremos no centro
a luz branca, à direita as baixas freqüências (luz vermelha,
infravermelho, ondas de rádio) e à esquerda, as altas freqüências (luz azul,
ultra violeta e raios gama). Ao contrário do que sugere a Psicologia, o
vermelho é uma cor ?fria?, pois possui baixa freqüência. Do mesmo
modo, por ser de alta freqüência, o azul é uma cor ?quente?. Isso é útil
quando da utilização de modernos TV´s e Projetores que ofereçam regulagem de
temperatura de cor. Escolhendo uma regulagem ?cool?,
estamos acentuando os tons de vermelho. Escolhendo ?hot?, acentuamos os tons de azul. Tecnicamente dizemos que
ocorre um ?desvio para o vermelho? ou ?desvio para o azul?.
Creio
que ficou fácil entender porque o ?test
tone? de receiveres e processadores recebe o nome de ?Gerador de Ruído
Rosa?.
Uma
onda sonora perde energia ao percorrer o ar ou chocar-se contra objetos em seu
caminho. É por isso que muitos costumam aproximar caixas acústicas das paredes
objetivando ganho nos graves. Com a aproximação, as ondas sonoras refletem
contra as paredes e, assim como um carro que perde velocidade após chocar-se
contra um obstáculo, perdem energia e em conseqüência, diminuem de freqüência.
Após as reflexões, as ondas percorrem uma distância maior até chegarem a nós,
favorecendo a perda de energia sonora e a obtenção de graves.
Em
salas destinadas ao A/V, reflexões sonoras podem trazer resultados desastrosos.
Ao contrário de salas dedicadas ao áudio, em um HT temos um componente a mais:
a imagem. Esta se propaga à velocidade da luz, cerca de 800 mil vezes superior
à do som. Com isso, a imagem de televisores ou projetores chega até nós mais
rápido do que o som emitido pelas caixas acústicas. Retomando o cotidiano,
todos já devem ter notado que sempre avistamos primeiro o relâmpago, para
depois ouvirmos o trovão. Na natureza tal diferença de velocidade é percebida
com facilidade, devido às grandes distâncias implicadas. Já em uma típica
sala de A/V, a pequena distância impede que nosso cérebro consiga detectar a
diferença, ainda porque, mesmo mais lento que a luz, o som se move com
espantosa rapidez.
Se
em nossas salas esse evento pode não ser notado, em grandes espaços como salas
de espetáculos e estádios de futebol, sua percepção é facilitada. Mas mesmo
em uma pequena sala de A/V mal ajustada, as diferenças de velocidade podem ser
perceptíveis. Após refletir
contra anteparos (paredes, mobília, etc.), o som emitido pelas caixas não
chegará a nós de uma só vez. Uma parcela nos atingirá diretamente, porém
outra chegará com atraso variável devido às reflexões. Com essa experiência
provavelmente a grande maioria dos leitores já se deparou: chama-se eco.
Imaginem a cena: o galã do filme rouba um beijo da heroína. Se o eco (também
chamado de tempo de reverberação) for grande, a imagem estará mostrando a
pobre donzela desferindo um sonoro tapa no rosto do atrevido, porém pequenas
frações do som da cena anterior (o beijo) ainda estarão ecoando pela sala,
prejudicando a interação de som e imagem.
O
mistério é controlar as reflexões, o que pode ser conseguido com a mudança
da posição de caixas e mobílias, retirada de objetos dispensáveis ou utilização
de painéis acústicos. Por outro lado, um pouco de reverberação pode ser bom,
pois ajuda a conferir ambiência à reprodução.
Ajustes
de salas são trabalhosos. É difícil conseguir som ideal em todo o local. Como
apenas uma parte das freqüências que ouvimos são as emitidas originalmente
pelas fontes de sinal, pessoas sentadas em posições diferentes na mesma sala
podem ouvir o som de maneira igualmente distinta. Depende da distancia que o som
percorrerá até alcançar cada ouvinte. O som parecerá mais graves para as
distâncias maiores. Portanto, procurem definir
uma ou duas posições de audição e
fazer as regulagens para essas posições. Infelizmente, os demais
ouvintes presentes quase sempre sairão prejudicados.
A
velocidade do som depende da temperatura e da altitude. Quando em direção ao
litoral, é comum a sensação de ouvidos entupidos devido à diferença de
pressão atmosférica. Afetando nossos ouvidos, provavelmente afeta também a
propagação sonora. O som move-se mais rapidamente com o aumento da altitude e
diminuição da temperatura. Um equipamento instalado em uma sala refrigerada na
cidade de São Paulo (700m acima do nível do mar) poderá soar diferente do
mesmo equipamento se instalado em Santos (nível do mar) em típico e quente dia
de verão. Mas isso já é coisa para ouvidos experientes.
Outro
assunto controverso é a potência liberada pelos equipamentos. A velha questão
entre Watts RMS e Watts PMPO. Ao contrário do que muitos pensam, RMS e PMPO não
são unidades de medida. São condições em que as medições foram efetuadas.
A unidade de medição é o Watt (W). É impossível a transformação entre W
RMS em W PMPO, pois se trata da mesma grandeza física.
Diariamente
efetuamos conversões de medidas. Pode-se transformar horas em minutos,quilômetros
em metros, anos em meses. Mas não podemos transformar horas em horas, metros em
metros. Assim, também não há transformação de Watts em Watts. Tentar
equivalência entre W RMS e W PMPO, seria como dizer que 100 Km/h em asfalto
molhado eqüivale a 300 Km/h em asfalto seco. A velocidade é absoluta, e sempre
determina a distância percorrida num espaço de tempo. No exemplo dado, o que
mudou foram as condições da pista no momento da medição e não a velocidade.
O mesmo ocorre com a potência dos equipamentos.
RMS
é a máxima potência obtida com baixo nível de distorção. A aferição é
feita com introdução de ?ruído branco? na entrada do amplificador . PMPO
é a potência máxima obtida, independente do nível de distorção ou se o
equipamento está atingindo seu limite de confiabilidade e resistência.
Para
melhor compreensão, sugiro um exercício: utilizando som de sua preferência,
se possível em gerador com freqüência de 1 kHz, aumente o volume do receiver
até surgir o primeiro sinal de distorção. Este é o limite do aparelho em
medição RMS. Agora, utilizando música pesada (rock por exemplo), aumente mais
o volume. Provavelmente surgirão perigosas distorções no som. Pronto, você
chegou na potência PMPO. Nessa condição, o nível de distorção pode ser
elevado, o que prejudicará as caixas acústicas. Portanto, muito cuidado ao
fazer o exercício. Utilize níveis elevados de potência apenas por poucos
segundos.
Especificações
de cabos também costumam causar confusão. Imaginem um cabo como sendo o ralo
de uma pia cheia de água. Se o ralo for grande, a pia se esvaziará
rapidamente, pois a área disponível para passagem da água será maior. Agora
troquem ralo por cabo e água por corrente elétrica . Quanto maior for a
corrente elétrica a ser conduzida pelo cabo, maior deverá ser o diâmetro do
cabo.
A
corrente elétrica é conduzida por elétrons que compõem o material do cabo
(cobre geralmente). Em cabo fino, os elétrons encontram grande dificuldade de
movimentação, fazendo com que se choquem uns contra os outros, o que gera
calor (imaginem um ônibus lotado). Esse calor é na verdade a transformação
da energia elétrica em energia térmica. Assim, a energia que deveria virar
som ou luz, acaba transformada em calor,
derretendo a capa isolante de fios e cabos.
O resultado é conhecido: perda de rendimento e curto-circuito. Então, o
diâmetro de cabos, sejam eles de energia elétrica ou mesmo de caixas acústicas,
devem ser adequados à energia que será conduzida por eles.
Também
deve-se lembrar que quanto maior o comprimento do fio ou cabo, mais tempo o
sinal levará para percorrê-lo, favorecendo a perda de energia por atrito e
prejudicando o resultado final.
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