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Coleção de DVDs de Chaplin chega às lojas
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Atualizado em 09/08/2008





Sir, para alguns, ou simplesmente Carlitos, Charles Chaplin (1889-1977) foi o egocêntrico mais genial do cinema. Seu Vagabundo de chapéu-coco, calças frouxas, bengala, pés abertos e andar desajeitado e que fazia pantomimas no cinema mudo com um indefectível bigodinho, diverte e leva às lágrimas platéias no mundo todo. Seu egocentrismo genial é hipnótico: todas as atenções são para ele, toda a pantomima termina nele. Chaplin e little man, como chamava o Vagabundo, ganham uma bem cuidada caixa com quatro DVDs duplos distribuídos pela Warner (R$ 176 em média). É o primeiro pacote de três que formam a Coleção Chaplin. Esperadíssima, a novidade que chega nesta quarta-feira às lojas é fundamental.



Os DVDs duplos trazem quatro filmes remasterizados ? todos estrelados, dirigidos, produzidos e com música composta por Chaplin ? e quatro só com extras, incluindo a série biográfica Chaplin Today, produzida na França pela MK2TV, e outras exclusividades da coleção.

O primeiro filme é Em Busca do Ouro (1925), uma das grandes comédias do cinema mudo na qual o Vagabundo entra na corrida por riqueza no Alasca enfrentando fome e frio. Inclui cenas memoráveis, como o jantar de sola de sapato (inspirado em um fato real ocorrido no século XIX), a dança dos pãezinhos e a cabana que balança pendurada no penhasco.

Chaplin realizaria depois um clássico da comédia. Tempos Modernos (1936) foi a última aparição do Vagabundo no cinema, que desde 1914 perambulava pelas ruas e bairros pobres sempre perseguido pela polícia e se virando para sobreviver em tempos de oportunidades escassas. Esse mundo de depressão e desemprego, no qual a máquina toma o lugar do homem, foi retratado no filme de forma explícita, bem como os ingênuos ideais sócio-econômicos de Chaplin, mais sentimentais do que socialistas.

O som já existia no cinema desde 1927, mas Chaplin relutou em usá-lo porque seu personagem era mais universal sem falar. O som ouvido em Tempos Modernos é sempre de máquinas ? fábrica, carros, rádios etc. ? e quando a voz do Vagabundo entra em cena pela primeira vez é para cantar em uma língua ininteligível. Os extras do DVD trazem a versão legendada (continua ininteligível, uma mistura de italiano com francês e inglês).

O Grande Ditador (1940) é outra jóia da coroa chapliniana. Chaplin nasceu em 16 abril de 1889, mesmo mês e ano que Adolf Hitler (dia 20). Um conquistou o mundo pelo riso e ficou famoso. O outro tentou fazê-lo pela força e pela infâmia. Chaplin viajou à Europa em 1931 e tomou conhecimento do extremismo nacionalista e do que ele é capaz. Decidiu satirizar o ditador, valendo-se de seu talento de mímico para imitar a pantomima dos discursos de Hitler. Estúdios relutaram em lançar o filme, temendo a reação do poderoso ditador, principalmente contra judeus.

Mas Chaplin não só foi em frente, como, de quebra, satirizou também Benito Mussolini. Na história, Adenoid Hynkel governa a Tomania com mão de ferro e odeia judeus. Ao mesmo tempo, um barbeiro judeu, que lutou na guerra e perdeu a memória, é confundido com o ditador (Chaplin nos dois papéis). As cenas com Hynkel e Benzino Napolini (Jack Oakie), ditador da Bactéria, são hilárias. A dança de Hynkel com o globo terrestre foi muito citada e virou até abertura de novela na Globo.

O discurso final do filme, pacifista, dirigido às atitudes intolerantes de países sobre nações, ficou célebre porque era o próprio Chaplin que fala, despido do humor e da emoção, e por tratar de uma situação política mundial contemporânea ao filme. Ao saber mais tarde dos campos de concentração, Chaplin disse que não teria feito esse filme. Consta que Hitler, um admirador de cinema que até chegou a fazer um curso de ator, pediu para ver esta sátira duas vezes. E riu muito.

Por fim, Luzes da Ribalta (1952), aquele do famoso tema composto por Chaplin que venceu o Oscar de melhor música em 1972, ano em que o filme foi exibido em Los Angeles. Foi nessa ocasião que ele pôde voltar aos Estados Unidos, país que o idolatrava, mas que 20 anos antes expulsou o comediante por suspeitar que ele exercia atividades comunistas, segundo facções da ultra-direita da época ? inglês de nascimento, Chaplin sempre recusou a cidadania norte-americana.

Luzes da Ribalta é seu último filme feito nos Estados Unidos. Chaplin é um velho palhaço na Londres de 1914 que não consegue mais fazer rir. Diante de seu ocaso, ajuda uma jovem bailarina a triunfar no palco. É a fita mais autobiográfica de todas e nela é citado inclusive o passado de seu pai e mãe, cantores frustrados na cena musical londrina. Mas é na figura do velho cômico que dá lugar à jovem iniciante que está seu próprio testamento.

Calvero (Chaplin) afunda no alcoolismo enquanto tenta fazer a garota Terry (Claire Bloom) viver a vida. É a despedida de Chaplin do cômico que foi em um filme marcado pela nostalgia e por lágrimas, mais do que pelo riso. Este é garantido pela única cena cômica de fato do filme, protagonizada por dois gênios: Chaplin e Buster Keaton.

O lendário Vagabundo, ou little man, é um ícone de ideal humanista romântico, um clown que resiste ao império da máquina (capitalismo) fazendo o mundo rir de si mesmo e de uma ingênua afronta às autoridades. Chaplin teve infância pobre, viveu em orfanato quando sua mãe não podia mais tomar conta dele e de seu irmão. Muito do sentimentalismo que se vê em seus filmes são inspirados nesse passado pobre em Londres. Nos filmes que fez, está embutida a imagem de perfeccionista e centralizador. No cinema, o Vagabundo permanece figura universal desse e de outros tempos, modernos ou não.

Um gênio multifacetado Todos os filmes da Coleção Chaplin foram remasterizados. É um material que tem como origem o arquivo da família Chaplin. Os extras aparecem em DVDs separados e todos trazem um documentário biográfico do ator e diretor no contexto do filme apresentado, fotos de filmagens e bastidores e cenas cortadas.

Também figuram nos extras dois curtas com Carlitos, filmes caseiros de Charles Chaplin em família, uma versão de Em Busca do Ouro, de 1942, com diálogos lidos pelo comediante e uma leve alteração no filme original, as músicas completas de Luzes da Ribalta, documentário sobre as coincidências nas vidas dele e de Hitler e filmes caseiros do acervo da família, com Chaplin brincando com os filhos (Geraldine Chaplin entre eles, então com 7 anos). Ao todo, são cerca de 450 minutos de entretenimento.

Para as próximas caixas estão previstas a interessante comédia de humor negro Monsieur Verdoux (1947), junto com filmes mudos do Vagabundo: O Circo (1928), que rendeu a Chaplin um Oscar especial por sua pantomima e versatilidade na primeira cerimônia do prêmio; O Garoto (1921), com o Vagabundo cuidando de um órfão e fugindo das autoridades que se dedicam ao bem-estar do menor; e Luzes da Cidade (1931), comédia igualmente clássica do cinema mudo na qual Chaplin pratica gags sonoras sem usar o som no filme (por exemplo, o ruído de porta batendo que faz uma florista cega pensar que o Vagabundo era um milionário saindo de seu carro); e Casamento de Luxo (1923), raro filme recolhido nos anos 70 e apenas dirigido por ele.

Os demais são Um Rei em Nova York (1957), sátira ao país que não o acolheu por acreditar que ele seria comunista, e o documentário Charlie ? The Life and Art of Charles Chaplin, de Richard Schinkel, exibido este ano em Cannes, com depoimentos de gente como Woody Allen e Martin Scorsese.

Fonte: Diário do Grande ABC





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Palavras-chave: Coleção | De | Dvds | De | Chaplin
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