
À primeira vista, basta um bom amplificador e um conjunto de caixas do mesmo padrão (claro, com um bom subwoofer acoplado) para obter graves de qualidade. Mas esta não é uma receita infalível. Quem compra um equipamento de alto nível tem muito mais chances de ajustar seu sistema para reproduzir fielmente os graves, com o impacto que se espera. Mas isso é apenas o começo: há alguns segredos no setup dos sistemas de surround (tanto Dolby Digital como DTS) que precisam ser bem entendidos.
Um erro comum entre os usuários - e até alguns instaladores - é acentuar demais os graves para aumentar o impacto dos filmes. Na verdade, a forma como foram concebidos os atuais sistemas de 6 canais já prevê um tipo de ajuste (o chamado gerenciamento de graves, ou bass management) que dispensa esses exageros. O conceito foi introduzido junto com o padrão THX doméstico, no início dos anos 90, que também criou as caixas dipolares e o design horizontal da caixa frontal.
Foi uma ótima solução, tanto que logo passou a ser incorporado aos equipamentos Dolby Digital e depois DTS. Na prática, o gerenciamento de graves é o que permite controlar as baixas freqüências contidas nos filmes, particularmente em DVD, e direcioná-las para os canais adequados. Como se sabe, existem baixas freqüências (sons graves) em todo o conteúdo de um filme. Mas elas são mais percebidas nos canais frontais, já que os sons denominados surround (dos canais traseiros) são secundários considerando a ação principal do filme. Mas, na hora de fazer o setup do sistema, nem todos os usuários têm consciência disso; alguns acabam errando na distribuição correta dos graves e com isso prejudicando o envolvimento sonoro que o filme poderia proporcionar.
Nos equipamentos atuais, o que se convencionou chamar de gerenciamento de graves consiste de um conjunto de circuitos que filtram os sinais de áudio. No canal de subwoofer, atua um filtro chamado low-pass (passa-baixas), cuja função é cortar do sinal as freqüências altas permitindo que somente as baixas sejam reproduzidas por aquela caixa. Para os demais canais, existem filtros high-pass (passa-altas), que atuam no sentido exatamente inverso: cortam as baixas freqüências a partir de certo nível, deixando passar somente médios e agudos.
Esse sistema foi idealizado com o objetivo de não sobrecarregar os falantes das caixas acústicas que não estejam preparados para as baixas freqüências. Estas, para se propagar corretamente, exigem drivers encorpados e robustos, caso contrário o nível de distorção torna-se irritante - além do que, a médio prazo, diminui a vida útil do falante. Outra função importante do gerenciamento de graves é facilitar o posicionamento do subwoofer na sala. Como as baixas freqüências propagam-se em todas as direções, o ouvinte não consegue perceber de onda vêm os graves, independente de onde esteja o sub. Se não fosse o filtro low-pass, o subwoofer receberia também parte das freqüências médias e altas - que são direcionais - tornando identificável sua posição.
O bass management é ajustado através do menu do receiver ou processador DD/DTS, tomando como base o tipo de caixas acústicas que estão sendo utilizadas. Nesse menu, normalmente encontra-se uma tela onde o usuário deve especificar se está usando caixas grandes (LARGE) ou pequenas (SMALL). Os circuitos do processador entendem essa opção da seguinte forma: escolhendo SMALL, são acionados os filtros high-pass, cortando as baixas freqüências das caixas (na suposição de que há um subwoofer instalado na sala); optando pela posição LARGE, os circuitos desativam esses filtros, e pode-se até trabalhar sem subwoofer.
Mas atenção: esta segunda opção só tem sentido (e só irá dar bons resultados) se suas caixas acústicas forem não apenas grandes mas de ótima qualidade. Observe que nem toda caixa de grande porte é necessariamente capaz de reproduzir bem os graves. Mas todos os bons fabricantes de caixas mantêm em linhas modelos do tipo torre, pesadas e com falantes robustos, que permitem captar fielmente as freqüências baixas. Pelos padrões da Dolby Labs, um sistema 5.1 exige o uso de subwoofer. Mas se suas caixas conseguem responder sem distorções a freqüências muito baixas (em torno de 50Hz), pode-se então abrir uma exceção. O problema é que caixas assim quase sempre custam mais caro do que um conjunto de caixas menores com subwoofer.
O ponto principal do ajuste de graves, porém, é definir a chamada freqüência de corte, ou seja, o ponto exato em que os filtros devem entrar em ação. A Lucasfilm simplesmente especifica isso às claras: 80Hz. Todo receiver ou processador certificado THX vem padronizado para esse ajuste, que se baseia no fato de que quem monta um equipamento de alto padrão utiliza caixas do mesmo nível - e estas conseguem chegar a 80Hz sem maior esforço. Significa que todos os sons de 80Hz para cima são reproduzidos pelas caixas frontais e traseiras; abaixo de 80Hz passa a ser encargo do subwoofer.
Na prática, são poucos os sons audíveis abaixo de 80Hz, e aí está uma outra fonte de erros nos ajustes dos equipamentos de home theater. Nossos ouvidos não captam os sons a partir de determinadas freqüências. Quanto? Depende de cada pessoa, até porque fatores como idade e sensibilidade variam de uma pessoa para outra. O erro está em querer reforçar os graves abaixo de 80Hz quando, na prática, eles dificilmente serão ouvidos!
Ao contrário da Lucasfilm, a Dolby (assim como a DTS) nunca especificou taxativamente os tais 80Hz em seus aparelhos. O que o sistema Dolby Digital exige é que haja circuitos de gerenciamento de graves para que o próprio usuário faça sua opção. Este pode querer, por exemplo, caixas grandes funcionando junto com um subwoofer (ou até dois), o que é aconselhável quando se tem uma área muito grande (30m2 ou mais). A Dolby admite até usar-se caixas grandes nos canais frontais e pequenas nos traseiros.
A decisão, no caso, é mais dos fabricantes do que da própria Dolby. Daí a importância de se verificar esse detalhe antes da compra do receiver ou processador. Há modelos que oferecem opções variadas de freqüência de corte, permitindo que o usuário faça seu ajuste de acordo com os aparelhos que possui. Outros desativam o gerenciamento de graves quando operam em estéreo, como se todo mundo ouvisse música apenas com caixas grandes, o que certamente não é verdade. O risco disso é sobrecarregar os falantes pequenos e gerar distorções.
A faixa de corte utilizada na maioria dos receivers de home theater vai até 120Hz, sendo que os já citados 80Hz são recomendados para grande parte dos casos. Mas o ideal é poder ajustar a freqüência de corte de acordo com as necessidades, ou seja, acompanhando as características das caixas satélites. Quem compra um conjunto de caixas acústicas de alto padrão deve saber que elas provavelmente respondem bem até 40 ou 50Hz. Fazendo o corte em 80Hz, pode-se dizer que as caixas estão sendo sub-utilizadas; quem tem um bom subwoofer, pode então perfeitamente economizar comprando caixas de menor porte.
ONDE COLOCAR O SUBWOOFER?
Todo mundo sabe que não há na sala de home theater um lugar pré-determinado para colocar o subwoofer. Mas há alguns pontos em que, definitivamente, essa caixa acústica não deve ser posicionada. Um problema, por exemplo, são os cantos das paredes. Cada parede acrescenta 3db de pressão sonora nas caixas acústicas, principalmente em graves; um canto com duas paredes equivale a 6dB. Os cantos da sala favorecem as chamadas freqüências de ressonância, que dificultam o controle dos graves. Por isso, sempre que possível é bom evitar colocar o subwoofer nessa posição.
Outro ponto não recomendável é a parede traseira, pois o subwoofer deve trabalhar em conjunto com as caixas frontais. Nos canais traseiros, normalmente há menor quantidade de baixas freqüências. Por isso, colocando o sub atrás há maior chance de os graves saírem pouco naturais, distantes da ação principal do filme e às vezes com trepidações desagradáveis até mesmo no sofá.
Um erro comum é colocar o subwoofer dentro do móvel onde estão os demais equipamentos. Isso, além de provocar vibrações em todo o móvel, diminui a estabilidade do subwoofer, que precisa de isolamento acústico. Uma opção, se o sub tiver que ser colocado no móvel, é retirar parte da base de madeira deste, deixando o sub apoiado diretamente no chão.
É ruim, em qualquer situação, posicionar o sub longe do piso, na parte alta do móvel. Para fazer isso, seria necessário montar uma super-estrutura para o móvel, o que na maioria das vezes é impraticável. As vibrações então tornam-se muito maiores, prejudicando o desempenho do sub e até dos demais aparelhos. Mesmo no chão, podem ocorrer vibrações - o subwoofer interage com a superfície do piso -, o que recomenda o uso de spikes (pezinhos) para diminuir a área de contato. Isso permite graves muito mais profundos, firmes e controláveis.
Alguns ambientes admitem o uso de dois subwoofers, quando há espaço para isso. Toda vez que reproduz som numa sala, esta também reproduz som, pois interage com o equipamento. Mas toda sala possui ondas estacionárias e também nulls, os chamados pontos de nulo, em que as ondas sonoras não são reproduzidas. Com dois subs, há grande probabilidade de reduzir esses efeitos. E onde eles devem ficar? Um na parede frontal e outro na lateral; ou então ambos na frente, um na esquerda e outro na direita, mas próximos das caixas frontais.
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