Muito bem: você comprou os
equipamentos certos, ligou todos os cabos, escolheu a posição
ideal para as caixas, colocou para tocar seu melhor disco, sentou no sofá
e relaxou. Relaxou? Bem, nem tanto. Na primeira cena do filme, deu para
perceber que alguma coisa estava errada. Não era exatamente "aquilo"
que você queria ouvir, e nem parecia o que o vendedor lhe demonstrou
no show-room. Faltava um detalhe essencial: o ajuste correto das caixas
acústicas.
De fato, um ajuste mal feito praticamente
inutiliza todos os demais esforços na montagem de um bom home theater.
Seja em Pro-Logic ou Dolby Digital, sempre é necessário regular
o processador que comanda o conjunto. Esse processador pode ser um módulo
à parte, ou pode estar embutido no receiver ou num pré-amplificador.
Dependendo da sofisticação do aparelho, o ajuste pode ser
mais complexo, mas hoje em dia, com boa parte das funções
automatizadas, os fabricantes procuram simplificar ao máximo esses
procedimentos.
Basicamente, os ajustes fundamentais
para a operação correta do equipamento são quatro:
tipo de caixas utilizado, delay, nível de cada canal e subwoofer.
Alguns receivers e processadores oferecem também a possibilidade
de ajuste de faixa dinâmica, permitindo controlar melhor a diferença,
em decibéis, entre os sons mais altos e os mais baixos (seu vizinho
irá gostar dessa!). Outros ainda permitem que se indique a posição
exata das caixas na sala, com as respectivas distâncias entre elas
e o ouvinte. Mas, considerando um sistema bem dimensionado, com cabos e
conectores de boa qualidade interligando os vários módulos
e as caixas acústicas corretamente ligadas ao receiver ou amplificador,
os quatro primeiros ajustes bastam para se ter um áudio de boa qualidade.
É bom entender o que significa
o termo "bem dimensionado" em home theater. Todo projeto exige, antes de
mais nada, a correta adequação entre os equipamentos escolhidos,
e entre estes e o ambiente onde serão instalados. Antes de qualquer
tipo de ajuste, presume-se que as caixas acústicas são perfeitamente
compatíveis com o amplificador utilizado, em termos de potência,
impedância etc. Caso não sejam, o ajuste fatalmente estará
comprometido.
Na maioria dos receivers e processadores
atuais, os ajustes podem ser feitos diretamente na tela, através
do controle remoto. Essa realmente é uma comodidade da qual não
se pode abrir mão, sob o risco de tornar os procedimentos não
só incômodos mas também imprecisos. De olho na tela,
o usuário tem muito mais condições de verificar as
configurações disponíveis, seus valores e demais dicas
que os bons equipamentos sempre fornecem.
Contribui muito também para
um ajuste adequado o fato de o controle remoto ser fácil de operar
e, de preferência, com teclas iluminadas, o que vem se tornando cada
vez mais comum. Infelizmente, alguns receivers não permitem que
se refaça os ajustes durante a reprodução de um filme,
por exemplo, obrigando às vezes o usuário a acionar a tecla
STOP e - depois de feito o ajuste - procurar "aquela" cena de novo. Outra
dificuldade comum é que as denominações das funções
e o layout das instruções na tela variam conforme a marca
do processador. É preciso, portanto, entender bem o que cada função
significa.
TIPO DE CAIXAS
É a primeira seleção que normalmente se faz ao entrar no menu on-screen. O processador pede
que se identifique que caixas serão usadas e automaticamente programa-se
para enviar o sinal adequado a elas. Pode-se optar entre LARGE e SMALL,
mas erroneamente alguns fabricantes instruem os usuários a informar
se suas caixas são "grandes" ou "pequenas", como se tudo fosse uma
questão de tamanho.
Na verdade, LARGE, no caso, refere-se
a caixas acústicas capazes de reproduzir bem as freqüências
abaixo de determinado nível (usualmente, 80Hz). Essas caixas em
geral (mas nem sempre) são maiores e mais caras, e quando se seleciona
LARGE o processador envia para elas parte dos sinais graves contidos no
áudio dos filmes. A indicação SMALL refere-se a caixas
que não têm o mesmo rendimento, embora isso não signifique
que o conjunto vá ter pior desempenho. O que acontece é que,
selecionando SMALL, o processador passa a enviar os graves, abaixo da freqüência
estabelecida, apenas para o subwoofer. Essa freqüência pode
(e deve) ser ajustada no menu de acordo com as características do
sub. Como se vê, nada disso tem relação com o tamanho
das caixas - mesmo porque também existem ótimas caixas pequenas
e más caixas grandes.
DELAY
Esta é a denominação, em inglês, para o tempo de atraso (ou retardo) do sinal reproduzido
em cada canal de áudio. O delay é identificado na tela (ou
às vezes no display do painel frontal do receiver) em milisegundos,
começando normalmente em 10ms e chegando até 30 ou 40ms.
Esse atraso pode ser necessário para aumentar a sensação
de envolvimento do filme, mas sua eficiência depende muito das características
da sala. Numa sala com grande índice de reverberação,
pode-se acabar ouvindo sons embaralhados mais do que qualquer outra coisa.
Mesmo numa sala "normal", o excesso de delay costuma tornar o som pouco
natural.
Exatamente por isso, os processadores
oferecem ao usuário a possibilidade de ajustar o tempo de atraso
ao seu gosto. O ajuste de delay normalmente é feito para os canais
surround, levando em conta a distância entre o ouvinte e as caixas
traseiras. Se você está muito perto delas, e mais longe das
frontais, provavelmente irá preferir um tempo de atraso menor. Há
aparelhos que permitem ajustar ainda o atraso da caixa central em relação
às frontais direita e esquerda. Seja como for, o certo é
que não há uma receita para isso. Tudo depende de seu gosto
pessoal e das peculiaridades de sua sala; em caso de dúvida, chame
um especialista para dar seu parecer.
NÍVEL DOS CANAIS
Este é um ponto crucial em
home theater. Com a evolução da tecnologia digital, ficou
mais fácil para o diretor do filme definir exatamente quais sons
colocar neste ou naquele canal. Você pode até não concordar,
mas é dessa forma que ele quer que você assista ao filme.
Assim, determinadas cenas utilizam muito pouco dos canais traseiros, enquanto
outras proporcionam uma verdadeira sinfonia de sons os mais variados. Na
realização de um filme, são várias as trilhas
sonoras envolvidas: diálogos, música, efeitos, som ambiente
etc.
Para ouvir tudo isso com clareza,
é preciso que o nível de cada canal esteja corretamente ajustado.
Em Pro-Logic, o ajuste é relativamente simples, pois são
apenas 4 canais analógicos. Já em Dolby Digital ou DTS, com
seus 6 canais independentes, as nuances são muito mais sutis. O
procedimento inicial, nos dois casos, é fazer o chamado test tone,
pelo qual cada canal emite um chiado durante alguns segundos. Esse ruído
permite ao usuário saber a intensidade do sinal emitido em cada
canal. No menu, ele pode aumentar ou diminuir esse nível (em decibéis)
de modo que nenhum dos canais se sobreponha aos demais.
Usualmente, utiliza-se os canais
traseiros num nível um pouco mais baixo do que os frontais. Mas
os bons equipamentos possuem amplificação suficiente para
que se ouça nitidamente todos os canais, mesmo quando ajustados
em 0dB, como é comum quando o aparelho sai da fábrica. Se
você alterar o ajuste pode refazê-lo depois mas, como já
foi dito, nem todos os receivers permitem essa mudança enquanto
se está assistindo a um filme.
SUBWOOFER
Também denominado LFE (Low-frequency
Effects, ou "efeitos de baixa freqüência"), o canal de subwoofer
exige um ajuste à parte. Como se sabe, grande parte dos efeitos
dos filmes contém muitos sinais na faixa mais baixa de freqüências,
que vai de 20Hz até cerca de 120Hz. A maioria das caixas acústicas
não consegue reproduzir fielmente esses sinais, de modo que torna-se
necessária uma caixa "dedicada" a essa função.
Como já foi explicado, quando
se seleciona o tipo de caixas LARGE, o processador "entende" que as caixas
frontais são capazes de reproduzir bem os graves e que, portanto,
não há necessidade de subwoofer no sistema. Mas o correto,
pelo menos em Dolby Digital e DTS, é utilizar um subwoofer ativo.
Portanto, selecione a opção SMALL para que o processador
direcione os sinais graves ao subwoofer. Esse direcionamento será
feito de acordo com o ajuste LFE, que em alguns aparelhos ganha o nome
de bass manager ("gerenciador de graves").
Através do menu, deve-se
então indicar qual a freqüência máxima em que
o sub irá operar (a chamada "freqüência de corte"). Essa
freqüência deve ser a mesma selecionada no painel traseiro do
sub, normalmente variando entre 80 e 150Hz. Significa que todos os sons
abaixo dessa faixa serão reproduzidos pelo sub, enquanto os demais
sairão pelas outras caixas. Isso garante melhor desempenho do conjunto.
Caso esse ajuste não seja feito, irá acontecer uma desagradável
"mistura" de freqüências entre as caixas acústicas, comprometendo
totalmente a reprodução.
OS EFEITOS DSP
Um dos principais atrativos propagados
pelos fabricantes de receivers é o número de modos de efeito
surround. A maioria deles anuncia a grande quantidade de modos como uma
vantagem, quando na verdade isso faz pouca diferença no desempenho
do aparelho. Chamados genericamente de DSP, esses modos permitem que o
usuário altere a reprodução do sinal de áudio
para obter determinados efeitos.
Originalmente, a sigla DSP (Digital
Signal Processing) tinha outra finalidade. Trata-se de uma metodologia
de medição desenvolvida pela Yamaha, empresa que tem longa
tradição na área de instrumentos musicais, e que acabou
sendo adotada pela maioria dos fabricantes. Os técnicos da Yamaha
mediram o comportamento das ondas sonoras em diversos ambientes: igrejas,
danceterias, estádios, teatros etc. Essas medições
foram analisadas em computador, resultando em circuitos capazes de simular
aqueles sons. Assim, os receivers e processadores passaram a ser equipados
com circuitos que ganharam o nome genérico de DSP.
Com esses circuitos, pode-se provocar
alterações na forma como o som se propaga pela sala, resultando
em efeitos que às vezes são agradáveis e às
vezes não - tudo, é claro, a critério de quem está
ouvindo. Os modos ganharam nomes relacionados aos ambientes onde cada efeito
foi produzido: ARENA ou STADIUM, para locais ao ar livre; DISCO ou DANCE,
para danceterias; CHURCH, para igreja; HALL ou CONCERT, para salas de concerto;
e assim por diante. Os nomes mudam conforme a marca, mas na verdade tudo
deriva do mesmo conceito: oferecer variações de efeitos.
O que costuma confundir o usuário
é que, quase sempre, esses efeitos alteram muito pouco o sinal que
se ouve, quando não pioram sua qualidade. Os mais puristas acham
um sacrilégio alterar dessa forma o som, principalmente em música,
quando o que se pretende é a maior fidelidade possível ao
som original. De qualquer forma, é um recurso a mais oferecido pelos
fabricantes.
* texto publicado originalmente na revista HOME THEATER
|