O recurso progressive scan, ou varredura progressiva, é sem dúvida um dos atributos mais valorizados de um DVD player. Antes presente somente em alguns modelos topo-de-linha de alguns fabricantes, hoje ele pode ser encontrado em praticamente todos os modelos à venda, mesmo nos mais baratos.
No entanto, apesar dessa valorização como recurso, são poucos os consumidores que conhecem realmente para que serve o progressive scan. A maioria sabe, no máximo, que ele proporciona uma melhor qualidade de imagem, sem que consiga definir no que consiste essa melhoria. Um outro ponto que às vezes é ignorado é que para que esse recurso do DVD-player seja uma vantagem é necessária a presença de determinadas condições, como veremos mais adiante. Mas antes precisamos saber no que consiste o progressive scan e no que ele difere do processo tradicional de formação de imagens conhecido como vídeo entrelaçado.
No vídeo entrelaçado, que vem sendo utilizado desde a invenção dos televisores, cada um dos 30 quadros por segundo que formam as imagens é composto de 480 linhas traçadas horizontalmente na tela. Essas linhas são desenhadas de cima para baixo e da esquerda para direita (na verdade são 525 linhas, mas somente 480 são aproveitadas para gerar a imagem). Esses 30 quadros por segundo equivalem ao que aconteceria se pudéssemos tirar 30 fotos de uma ação em movimento. Imaginando que essa ação fosse uma pessoa batendo em uma bola com uma raquete, cada uma dessas fotos mostraria a raquete cada vez mais próxima da bola, até a atingir. Devido à alta velocidade com que esses quadros chegam aos nossos olhos, isso cria a ilusão de que as imagens estão em movimento.
Atente porém para um detalhe muito importante. Cada um dos 30 quadros por segundo que descrevemos acima é ?desenhado? na tela em duas operações. Na primeira operação são traçadas as linhas ímpares de 1 a 479 e, na segunda, as linhas pares de 2 a 480. As metades que compõem cada quadro da imagem, as que contêm as linhas ímpares e as que contêm as linhas pares, são chamadas campos. Recapitulando então, cada segundo de imagem na TV é composto de 30 quadros e cada quadro é formado por 2 campos.
Dito isso, é hora de introduzir um fator complicador nessa explicação: a diferença entre a velocidade de quadros produzida por uma câmera de vídeo e por uma câmera de cinema. Enquanto as câmeras de vídeo captam as imagens à velocidade de 30 quadros por segundo, nas de cinema isso é feito a 24 quadros por segundo. Isso significa que se os 24 quadros por segundo de um filme fossem pura e simplesmente reproduzidos à velocidade de 30 quadros por segundo (para manter compatibilidade com nossas TVs), suas imagens apareceriam ligeiramente aceleradas.
Para evitar que isso acontecesse foi inventado um processo de telecinagem (transposição de filme para vídeo) chamado 3 to 2 pulldown, que consiste em distribuir os 24 quadros por segundo de um filme nos 30 quadros (60 campos) aceitos pelas TVs. Isso é feito criando-se para cada 2 quadros da imagem de um filme uma seqüência de 3 campos, seguida de 2 campos e assim sucessivamente. Dessa forma, o primeiro quadro proveniente de um filme é representado na transposição para vídeo por três campos, o segundo quadro é representado por dois campos e assim por diante. Essa é a forma como recebemos das emissoras de TV as imagens de um filme e também como elas são gravados nas fitas de vídeo. Já nos discos DVD as imagens dos filmes vêm gravadas na forma original, a 24 quadros por segundo. Neste caso, é o próprio DVD player que realiza sua transposição para 30 quadros por segundo.
Em uma tela pequena, como a de uma TV de 20 polegadas, o fato de que cada quadro da imagem é composto de dois campos complementares traçados na tela separadamente não impede que o resultado final pareça bastante aceitável aos nossos olhos. No entanto, à medida que o tamanho da tela vai aumentando começamos a perceber alguns subprodutos desse processo de formação de imagem que começam a se tornar incômodos e a prejudicar nosso envolvimento com aquilo que estamos assistindo. Esses subprodutos são o aumento da visibilidade das linhas horizontais que formam as imagens, as cintilações (flicker) e o aparecimento de linhas horizontais em forma de serrote (jaggies).
Para eliminar, ou pelo menos reduzir significativamente, essas anomalias que foi desenvolvido o vídeo progressivo. Sua principal diferença em relação ao vídeo entrelaçado descrito acima é que cada um dos 30 quadros por segundo que compõem as imagens é ?desenhado? na tela em uma única operação, ou seja, as linhas de 1 a 480 são traçadas em uma só passagem. Com isso, as linhas horizontais praticamente desaparecem, ocorrendo também uma sensível redução nas distorções das imagens provocadas por ?flicker? ou ?jaggies?. O resultado é que as imagens ficam mais limpas e embora não haja um aumento real de resolução elas parecem mais nítidas e com mais aparência de cinema do que quando reproduzidas pelo processo de vídeo entrelaçado.
Os benefícios do vídeo progressivo ficam ainda mais evidentes quando o DVD player tem um processador capaz de detectar a presença do processo 3 to 2 pulldown (3 to 2 pulldown detection) ao ler um disco DVD e de recompor a seqüência do filme original de 24 quadros por segundo. Este é um recurso que hoje está presente na maioria dos DVD players.
Dadas essas explicações, a pergunta que se coloca é: o que se deve fazer para obter imagens de vídeo progressivo? Acredito que para surpresa de alguns leitores não basta sair e comprar um DVD-player com saída progressive scan. Se ele for conectado a uma TV analógica, como é o caso da maioria absoluta dos modelos presentes em nossas casas e nas lojas, nenhuma imagem será obtida quando o recurso progressive scan for acionado. Para obter imagens com os benefícios do progressive scan é necessário que esse DVD player seja ligado a uma das novas TVs digitais com tubos CRT, geralmente modelos com telas largas (widescreen) ou a uma TV de plasma, LCD ou LCoS. Outra alternativa é conectar o DVD player a um projetor ou retroprojetor dos tipos DLP, LCD ou LCoS.
Um outro fato relativamente desconhecido é que as novas TVs digitais, displays de plasma e projetores ou retroprojetores DLP, LCD ou LCoS são intrinsecamente aparelhos progressive scan, ou seja, em que as imagens que aparecem na tela são sempre formadas através do processo progressive scan. Para isso, possuem um processador interno que converte os sinais de vídeo entrelaçado que são recebidos das emissoras de TV, câmeras de vídeo, receptores de TV a cabo ou via satélite e videocassetes para vídeo progressivo.
Não espere, porém, que a imagem dessas fontes se iguale à de um disco DVD. O que a conversão do vídeo entrelaçado para progressivo fará será tornar a imagem livre das linhas horizontais de varredura e de outras imperfeições, mas sua resolução continuará a mesma das fontes originais. Um outro ponto que deve ser destacado é que existem diferenças no nível de qualidade das imagens progressive scan obtidas a partir de um disco DVD. Essas diferenças estão ligadas ao processador que faz a conversão dos sinais de vídeo entrelaçado para vídeo progressivo e se manifestam na maior ou menor resolução da imagem, no nível de redução de problemas, como a eliminação de linhas serrilhadas (jaggies) e na forma como as cenas com movimentos em alta velocidade são reproduzidas.
Uma das conseqüências desse fato é que nem sempre é uma boa idéia acionar o recurso progressive scan do DVD player. O quê? Não acionar o recurso progressive scan? É isso mesmo! Em alguns casos é possível que o processador de vídeo da TV, display de plasma ou projetor seja melhor ainda do que o do DVD player, o que justificaria deixar que o sinal de vídeo saísse do player na forma entrelaçada.
Para saber qual o processador a ser utilizado - o do player ou o do TV ou projetor - existe apenas um caminho: experimentar os dois assistindo a vários DVDs. Aquele que resultar na imagem mais limpa, detalhada e livre de imperfeições é o que deverá ser usado.
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