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Conserto ou Restauração? Eis a questão.
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Atualizado em 22/12/2008

A restauração, mais do que uma ciência, é uma arte que exige dedicação na mesma proporção que conhecimento. Mas parafraseando Shakespeare, em se tratando de relógios antigos, deve-se restaurar ou consertar? Depende! Apesar de se confundirem nas definições dos dicionários são coisas completamente diferentes:

O conserto de um relógio se refere basicamente ao seu mecanismo, já a restauração envolve seus componentes externos e acessórios, tem um caráter estético que um simples conserto não leva em consideração. Mas em que nível se deve consertar ou restaurar um relógio? Depende! Em primeiro lugar todo e qualquer relógio pode ser restaurado, e quem define a viabilidade do serviço é sempre o cliente. Os fatores que influenciam na decisão da restauração são três:

1 ? Valor ? A restauração em si é trabalhosa, para ser fiel e não descaracterizar a peça envolve pesquisa, consulta aos fabricantes, só a busca por material de época de fabricantes que já não existem mais demanda semanas ou meses, naturalmente isso tem um custo. Muitas peças que não existem mais no mercado tem de ser confeccionadas à mão, com maquinário de época e por profissionais especializados. Uma simples engrenagem pode levar até 8 horas para ser feita.

2 ? Tempo ? Como nem sempre temos informações e peças à disposição a restauração exige que ?garimpemos? peças em outros paises, velhos estoques ou com colecionadores. O mercado internacional é uma grande fonte de material e peças originais em todas as condições.

3 -  Valor Sentimental ? Jamais subestime esse ítem, ele é o mais importante e o que me motivou a atuar nesse ramo. A grande maioria dos clientes procuram restauradores não para deixarem suas peças de estimação em ordem ou para negocia-las, os clientes querem restaurar as lembranças de seus momentos e entes queridos representados naquela peça. Comumente clientes gastam várias vezes o valor de uma peça apenas para te-la como saiu da fábrica.

Vou me ater um pouco na restauração apenas do mecanismo. Partindo do princípio que restaurar é trazer à condição original a recuperação de um mecanismo fica complexa à medida em que se faz necessária, por exemplo, a aplicação de lubrificantes muito específicos indicados pelo fabricante. Atualmente existem dezenas de lubrificantes para relojoaria de primeira linha, suiços, mas qual a sua aplicação? Quais as peças que devem ser lubrificadas e quais não devem? Essas informações não estão disponíveis nas descrições técnicas dos produtos e cabe ao bom relojoeiro avaliar e usar o óleo de acordo com sua aplicação e região climática, veja você! Mas o que é que o clima tem a ver com isso? Ora se você usa um  relógio de pulso, naturalmente ele entra em equilíbrio adquirindo a temperatura do seu corpo e quando se tira o mesmo do pulso ele se equilibra com o ambiente. Dependendo da região do globo essa variação pode chegar a 50º C e nenhum lubrificante de qualidade atende a todas as condições. Outra característica desses lubrificantes é que para manter suas propriedades ele tem que estar ?ativo?, ou seja, em movimento, pelo menos periodicamente. Nessa condição ele funciona por décadas, porém se ficar parado por um ou dois anos ele endurece e pode parar o relógio, isso explica porque certas peças que tem movimentos oscilantes não devem ser lubrificadas.

Quando levamos em consideração o aspecto externo da restauração a questão fica mais complexa. Basicamente temos os seguintes itens para buscar:

Caixa do relógio ? Se for um relógio de pulso ou de bolso comum ele pode necessitar de uma empresa especializada em folheação em ouro nos mais diversos tons e em espessuras diferentes, pode ser cromado, banhado em prata, pintado à mão etc. Essa caixa pode necessitar de reparos de solda, pode estar amassada, pode ser de ouro massiço, de prata, níque, enfim, uma infinidade de variantes.

Mostrador ? Esses também tem os mais variados materiais e algarismos diferentes, partindo de uma simples placa de metal pintada até porcelana pintada à mão em vários relevos e apliques em ouro. A meu ver, por conter o propósito do relógio, é o item mais complexo de ser restaurado.

Vidros e cristais ? Apesar de simples solução, a restauração fiel pode ser muito trabalhosa em certos vidros, principalmente os de cristal mineral com lentes para calendário. Fora isso hoje dispomos o acrílico cristal que substitui muito bem os vidros em acetato que amarelam com o tempo.

            Pulseiras ? as pulseiras de metal tem os mesmos problemas e também as mesmas soluções das caixas de metal. Pulseiras em couro, hoje, podem ser recuperadas com técnicas avançadas de restauração. Quando o material é muito antigo e não se que substituir a peça uma das técnicas é a hidratação e aplicação de poupa de couro para posterior pintura, entre outras. Hoje existem artesãos que podem confeccionar qualquer pulseira em qualquer cor e tipo de couro.

            Caixas de madeira para carrilhões diversos ? Apesar de parecer fácil para a maioria dos marceneiros a restauração efetiva de uma caixa de relógio com mais de 100 anos é tarefa das mais difíceis, principalmente quando atacada por cupins. Antes de ser trabalhada é necessária a identificação da madeira para que se faça o enxerto da mesma madeira, não causando diferença no padrão de veios da madeira. Muitas dessas caixas são tingidas antes de ser envernizadas ou enceradas, então a decapagem é inevitável para se identificar a cor original da madeira. Depois de recuperada o restaurador tem de aplicar as mesmas técnicas de acabamento de época, mais uma vez a pesquisa é indispensável. Somente em último caso deve-se propor a construção de uma nova caixa.

            Pelo exposto acima fica evidente a complexidade do verdadeiro serviço de restauração. O profissional é artista quando ?entende? a peça a ser restaurada, é o técnico quando conhece o mecanismo a ser restaurado, é o engenheiro quando se ve obrigado a desenvolver dispositivos para recriar peças há muito fora de linha, é o historiador ao buscar informações para não descaracterizar a peça, deve entender de metalurgia, tornearia, mecânica, marcenaria, metalização etc. Muito importante: Tem de ser administrador, ciente das necessidades e tendências do mercado e principalmente conhecer cada cliente individualmente a fim de compreender a necessidade de cada um.

            Por fim, o restaurador de relógios tem de ser humano e de bom caráter, afinal é o depositário fiel de sonhos e recordações de muitas gerações.

 

Mauro Lucchini

Conselheiro - ABRACORE

www.abracore.org.br

 

Palavras-chave: Relógio Antigo | Restauração | Abracore | Conserto | Lucchini Restaurações
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