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Paris, a Cidade Luz, ganhou mais uma jóia para sua coleção: a Maison Baccarat, inaugurada no fim do ano passado, obra da criatividade delirante do designer Philippe Starck, que recebeu carta branca para reinventar o conceito de loja. Como o novo prédio funciona também como museu e sede administrativa da mais ilustre marca francesa de cristais, não é de estranhar que visitantes deslumbrados se perguntem: será que isso é uma loja mesmo? É, sim, e, apesar do clima de sonho, serve a propósitos bem objetivos. A Baccarat mudou de casa como parte da estratégia de reposicionamento no mercado. A idéia é reforçar a imagem de glamour arrebatado, luxo assumido e uma tradição de mais de dois séculos ? mas com fôlego suficiente para se modernizar e surpreender. "A essência de Baccarat, para mim, é o mundo da ilusão através dos jogos ópticos do cristal lapidado. Imaginei, então, um palácio de cristal onde tudo seria possível", diz Starck, provavelmente a maior estrela mundial do design. E assim foi feito. Entra-se nesse mundo da fantasia reluzente por um tapete vermelho que leva a um aquário no qual flutua um lustre aceso. Para contrabalançar a suntuosidade do prédio, antiga residência da proustiana condessa de Noailles, freqüentada pela elite intelectual e artística da primeira metade do século XX, Starck colocou cimento bruto e deixou tijolos aparentes nas paredes. Tudo para que só os cristais brilhem.
O tapete vermelho da entrada ganha pequenas luzes laterais que guiam o visitante por corredores e salões iluminados pelos famosos lustres Baccarat. Na loja, vasos, copos, taças, castiçais e pratos das novas coleções estão dispostos numa mesa de 13 metros, com pés de cristal e tampo de espelho cujo desenho em losangos se reflete no teto. As jóias ? como um relógio de 10.900 euros e um colar de diamantes e pérolas do Taiti de 29.300 euros ? são expostas em cubos de acrílico sobre pedestais em forma de corpo humano. A sala do museu, onde ficam peças simbólicas produzidas ao longo dos 240 anos da marca, é toda cinza com uma pedra de gelo pintada no teto. Luz só sobre os objetos, todos excepcionais pela beleza e técnica. A Baccarat foi a primeira a fazer cristal colorido e luminárias, em 1827, e vidros de perfume, em 1907. O czar Nicolau II, antes da revolução que varreu a monarquia da Rússia, encomendou vinte lustres de 3,25 metros (um deles exposto), os primeiros no mundo a serem eletrificados. Peças de serviços feitos sob encomenda para o magnata grego Aristóteles Onassis e para o casamento do príncipe Rainier, de Mônaco, com Grace Kelly também podem ser vistas.
A magnificência, no entanto, não é mais a única qualidade que a Baccarat quer representar nestes tempos de concorrência acirrada, clientela pouco fiel e mercado de luxo em crise. O faturamento da empresa caiu 12% em 2002 e continuou em queda no ano passado. Comprada em 1988 pelo conglomerado Société du Louvre, peso pesado da hotelaria mundial, a Baccarat tenta se modernizar, desenvolvendo novos setores, como a joalheria e a relojoaria, e aumentando sua visibilidade. "As marcas de luxo precisam se reinventar o tempo todo. A nova sede dá um novo alento à Baccarat, indicando que, além de representar a arte de viver à la française, é audaciosa e criativa", disse a VEJA o diretor-geral adjunto da marca, Thierry Oriez. Por isso, segundo o diretor, a escolha de Philippe Starck, "designer do belo e do lúdico", que com pitadas de humor deu leveza à pomposa história da marca. Assim, dois vasos feitos para o rei da Etiópia, obras-primas de 1909 de bronze, ouro e cristal, "conversam" com os visitantes logo no topo da primeira escadaria da nova loja: espécie de videoinstalação, cada vaso tem incrustado um rosto feminino tridimensional ? que fala. Uma poltrona de cristal de 2,5 metros de altura, "digna de Alice no País das Maravilhas" pela inversão das proporções, de acordo com Starck, e cadeiras que lembram a carruagem de Cinderela completam o Palácio de Cristal versão pós-moderna. |