Uma doença muito comum em profissionais que trabalham com audio é o Tinnitus, e é facilmente detectado, curavel e prevensivel.
Cuidados com a audição 1º. Abafadores de ruído Ruído, barulho, são os sons, quaisquer sons, que contrariamente aos demais, nos incomodam. A definição não é minha, mas do decano dos acústicos,
Prof. Nepomuceno. O uso de abafadores por profissionais durante seu mistér, qualquer mistér, dentro do arquétipo de nossa cultura, é tido "como mais uma atitude de um profissional ?sistemático? ", um ?chato de galocha?, um encrenqueiro ou, no mínimo, ?um bunda-mole? que vai arrumar encrenca trabalhista com o patrão assim que puder. Há ainda a questão do orgulho, da vergonha pessoal e do machismo, todos eles tidos e havidos devido à nossa particular cultura latino-americana. Portanto, para não perder o emprego (ou a ?pose?), ele se recusa a usá-los. O patrão, pelo seu lado, também divide a mesma ignorância com o primeiro, pagando-lhe um acréscimo salarial pífio, a título de insalubridade, exatamente como um ?cala a boca? da sua consciência.
Se o ruído é parte integrante do nosso labor, cabe ao patrão não somente o fornecimento do melhor E.P.I (
equipamento de proteção individual) e do acréscimo salarial (como impostos pela Lei), mas sim e antes de tudo, uma busca contínua da redução de ação deletéria da fonte, eliminando, como conseqüência direta do seu labor inteligente, a causa da necessidade do uso dos EPIs e do pertinente aporte salarial (o que os sindicatos,
filhos-de-uma-boa-mãe-que-trabalha-na-horizontal, não aceitam, e mesmo desestimulam com ameaças tal iniciativa do empregador !!).
Se você notou que raros operadores de PA e estúdios se valem da tecnologia para manter uma perfeita audição na faixa dos seus 50/60 anos (quando sua experiência e cumulação técnico-cultural são máximas), então observe o que ocorre, por exemplo, nas situações mais corriqueiras do seu entorno, como aquela do motorista de táxi e de coletivos; das operadoras de telefonia/telemarketing; daquele que trabalha com cantaria e por aí vai... uma legião de futuros velhos(as) chatos(as), surdos(as), dependentes de próteses pagas com o dinheiro dos seus e dos meus impostos.
Os
abafadores intra-aurais (
in-ear earmuffs) são excelentes inclusive para ruídos impulsivos (como existem no universo do percursionista, por ex.) ou aqueles com forte atuação na parte superior do espectro (sintetizadores e metais, idem). Tipicamente, sendo do tamanho certo para o canal auditivo do usuário e, corretamente introduzidos, eles atenuam cerca de 25 dB SPL entre 2 e 4 KHz. Seu uso é indicado para os casos em que a fonte de ruído tem seu espectro basicamente centrado nestas oitavas
e possui intensidade de
até 85 dB(A). Apesar da forte atenuação, é notável como um trabalhador sadio rapidamente encontra seu ponto de equilíbrio, mantendo perfeita inteligibilidade do entendimento de instruções faladas e, com mais algumas horas de uso, até mesmo o nível da sua própria voz volta ao normal. Ele está protegido e perfeitamente integrado ao meio. Aqueles que usam este dispositivo no dia-a-dia, na falta de melhor expressão, o chamam de
ar-condicionado-de-ouvido. É indescritível a sensação do profissional que, após a lavagem dos canais auditivos externos, se submete ao seu uso contínuo,
dioturno, durante duas ou três semanas antes da avaliação (mensuração) anual da sua acuidade auditiva. Quando retirados, durante aqueles primeiros instantes que se sucedem ao ato, a percepção ampliada do entorno, lembra ?uma viagem?, dizem os mais experientes. Seja o aumento da percepção auditiva, seja a dura realidade das horas seguintes, apenas reforçam a noção do quanto de agressão
continuamente nossos ouvidos sofrem entra dia, sai dia. Após tal experiência, você se tornará mais um convertido, como eu em minha própria época.
Níveis no entorno acima de 85 dB(A), que seguramente são o nosso caso, necessitam de mais cuidados. A atenuação deve ser imposta utilizando-se os abafadores in-ear + circunaural. Aquele intra-aural deve necessariamente ser do tipo moldável (bem colocado, atenuação típica de 23 dB SPL) contendo uma película de silicone envolvendo a massa moldável. Podem ser reutilizados e re-higienizados indefinidamente e sua durabilidade se aproxima dos 20 anos. Aqueles circunaurais são encontrados em diversas apresentações, entre as quais a mais comum e burra é aquela que exerce forte pressão sobre a caixa craniana. Corretamente, a estanqueidade deve ser obtida pelo uso de uma fina película moldável, cheia de líqüido, ?amigavelmente? aplicada sobre a caixa craniana e as hastes do um eventual óculos.
A
KOSS no passado introduziu o conceito da almofada com fluído de silicone no seu interior (na sua arqui-famosa e saudosa série KOSS PRO4), mas ela não está no negócio de atenuadores. Excelentes sucedâneos podem ser encontrados junto à
BOSE -
http://www.bose.com/products/aviation/military/benefits.html , com seu produto de atenuação ativa, ou a DAVID-CLARCK -
http://www.davidclark.com , com seus artefatos passivos (ambos habitualmente fornecem para as forças armadas usanianas e para a aviação civil de asas rotativas e fixas).
Bem colocados sobre nossas cabeças, um produto brasileiro (temerariamente classificado como) de tipo similar àqueles atenua entre 12 e 18 dB SPL (não acreditem nos prospectos técnicos fornecidos, eles são feitos para acalmar a consciência daqueles que acreditam em fábulas; o papel aceita tudo !).
E antes que você me pergunte, eu lhe digo que sim, as atenuações se somam algebricamente: 23 + 15 = 38 dB SPL de atenuação, que não é muito em uma posição do palco onde o músico continuamente é submetido a ?um banho? de 120 dB(A). Por outro lado, cabe ao acústico prescrever o uso de abafadores que, operando em ?tandem? *, apresentem ação complementar (não valendo os 38 dB SPL, portanto) ou não (agora valendo). Cada caso é um caso e o profissional deve entender a natureza do uso destas próteses exatamente como encararia aquela de um óculos prescrito por um oculista.
2º. Fonte sonora O sistema auditivo é
extremamente sensível ao ruído impulsivo e como ato reflexo, uma auto-proteção, num primeiro momento ele instantaneamente ?endurece?, diminuindo sua sensibilidade por um período que varia desde algumas horas até dias. A perda da sensibilidade (parece que eu fiquei um ?pouco surdo?, mas agora já passou, estou bem... ) é indicativo seguro de comportamento pós-traumático, isto é, pós lesão auditiva, que, desafortunadamente no presente estado-da-arte, é cumulativa e irreversível. Os EPIs existem para os casos sem outra solução imediata e certamente de óbvia necessidade.
O que o profissional que depende do ouvido precisa entender é que o assédio aos seus ouvidos também advém
continuamente de fontes mais comuns e absolutamente insuspeitas quanto à capacidade de lesão, tais como: os esportes ditos radicais e marciais; a prática do ski aquático e mesmo daquele de neve; a motocicleta; o mergulho com ou sem equipamento de sustentação de vida; os humildes telefones celulares e de fio; os automóveis e coletivos de interior barulhento [um veículo ?barulhento? por projeto, mesmo em bom estado, tem ruído interno entre 75 e 100 dB(A), dependendo da velocidade, do piso e marchas utilizadas! Praticamente todos os veículos ?esportivos? ou de baixo custo aqui produzidos se enquadram nesta categoria]; além dos onipresentes assassinos de sempre
os fones de ouvido, apenas para citar as mais comuns.
Outra importante fonte de risco gratuito são as
drogas oto-tóxicas, presentes no cigarro, na aspirina e nos antibióticos (drogas à base de quinino, por exemplo, com quatro anos de consumo contínuo geram um indivíduo clinicamente surdo, como tive a triste oportunidade de conferir). Em alguns cruzamentos desta cidade (falo de São Paulo) apresentam acréscimos no ruído (o ?roarr?, ou ruído residual de tráfego, se assemelha a um pink noise com reforço de graves e filtragem adicional nos agudos) de cerca de 2 dB(A)/ano, ano após ano!
No palco, é necessário se ter a percepção de que um músico não ?escuta? o outro como conseqüência direta do barulho que geram contra si, para o qual, até certo limite, o ouvido responde com uma perda momentânea da sensibilidade. Aí, o ?cara? pede um retorno ?mais alto?, que por sua vez interfere no companheiro mais próximo que vai se queixar com ?o cara do som?... fechando o círculo vicioso. Na Inglaterra, onde a surdez de toda uma geração de jovens se tornou um problema endêmico, em qualquer ponto de um ambiente fechado onde música seja executada, por lei, o limite legal é 85 dB(A). Na Suécia, por outro lado, assim como no Brasil e EUA, podem ser medidos níveis constantes de 120 dB(A) sem que a lei seja infrigida, o que é um contra-senso perante as
Leis Trabalhistas que limitam o barulho a 85 dB(A)!
Músicos e público deveriam estabelecer centros de diversão
?user friendly?, politica e ecologicamente corretos, onde, em nome da nascente
Ecologia Urbana, a música possa ser apreciada em níveis não lesivos, aliás como sempre se fez até o fim do primeiro quarto da década de sessenta.
3º. Percepção de ruídos ?estranhos?. Não é verdade que apenas indivíduos com Tinnitus Objetivo escutem ruídos orgânicos; indivíduos sadios também têm esta faculdade. Assim que se reduz o nível do ruído residual para abaixo da fronteira dos 27 dB(A), embora o instrumento de medição possa descer ainda mais (existem instrumentos que alcançam, consistentemente, leituras de até mesmo 8 dB FLAT), de maneira diretamente proporcional começam a serem ?ouvidos? ruídos ?misteriosos? como o ruído browniano das células do nosso corpo, e das batidas do coração e da própria circulação do sangue pelos vasos próximos ao sistema auditivo. Esta não é uma situação agradável. Habitualmente causa pânico ou forte depressão aos menos avisados e que, se continuada por longos períodos, leva a complexos desajustes de comportamento social [no Canadá e Índia, existem extensos relatos de pessoas comuns e antes saudáveis que simplesmente enlouqueceram com a associação de silêncio (Canadá) ou barulho (Índia) com o isolamento social]. Nesta nossa evolução a partir de seres organicamente inferiores, não foram previstas tanto a situação de barulho como silêncio extremos. Ambas situações são não-naturais.
4º Quão sensível é um ouvido sadio? Consistentemente, em um ambiente de 27 dB(A), observei a audição claríssima (a metro e meio) do vibrar do pequenino filamento de uma lâmpada halógena de 100 watts governada por um dimmer comum. Outro exemplo que causa absoluta perplexidade em muitos é a audição do ruído gerado pelo funcionamento da CPU das antigas calculadoras científicas de mão (especificamente, as Texas 51 e 51-II). O fator que limita uma audição mais clara destes e outros fenômenos físicos que nos rodeiam nesta e abaixo da fronteira do nível residual de 27 dB(A) é justamente o fato de também serem mais claramente audíveis os nossos próprios ruídos orgânicos.
Alguém que me lê, após este ponto, poderia questionar ?com razão? da validade em se perseguir níveis residuais para estúdios abaixo dos 25 dB SPL. Sob um residual de 15 dB SPL não somente ruídos mecânicos espúrios serão claramente audíveis (e captados pelo microfone) mas também o serão ruídos orgânicos do próprio interprete (em pianíssimo, além dos sons acústicos, também passam a serem audíveis a respiração do artista, bem como aqueloutros oriundos do funcionamento do seu estômago e intestinos que, se a Lei de Murphy valer, coexistirão em determinadas situações). Estúdios realmente silenciosos necessitam não somente de melhores microfones, mas também de um refinamento das atuais técnicas de seu posicionamento.
É extremamente saudável o surgimento de uma consciência coletiva (entre os profissionais desta nossa área) sobre a ação do ruído sobre as limitações físicas deste extraordinário órgão sensorial que são nossos ouvidos. Público, produtores e agentes deveriam, pelo seu lado, também entender que músicos e demais profissionais que gravitam neste entorno, como quaisquer outros trabalhadores, querem e precisam ter uma extensa e profícua carreira. Antes do Tinnitus, há a ocorrência da
Surdez Profissional -ainda hoje absolutamente comum entre assalariados- cujo sofrimento e prejuízos induzidos podem ser potencializados pelo acréscimo do Tinnitus. O que já era um drama torna-se uma cruz inesquecível 24 horas/dia, todo dia, entra ano sai ano, até a morte do infeliz (é altíssima a ocorrência de suicídios durante as crises de depressão induzidas pelo Tinnitus).
Espero que dentre aqueles que leram estas notas ninguém apresente deficiência auditiva induzida pelo exercício de suas atividades profissionais e que, para todos os sadios, não custa lembrar, firmemente recomendo a
Acupuntura como ferramenta adicional -além da observância de todas aquelas recomendações descritas aqui e no artigo "Tinnitus", nesse site- para a contínua manutenção deste estado saudável que é a audição plena, por um período de tempo que adentre pela terceira idade.
P.S.: O ruído é parte integrante do universo do músico e daqueloutros profissionais que gravitam no seu entorno e que fazem ser possível a existência da indústria do entretenimento como ela é. Uma visão técnica e desapaixonada deste problema é possível, é viável, e deve começar no íntimo de cada um de nós. Contrariamente ao que lerá adiante sobre valores normatizados, é necessário entender que você é um ser sem igual em todo o universo; existem pessoas parecidas, mas nunca iguais a você. Assim, embora existam valores normalizados em diferentes legislações de diferentes paises, elas se referem tão e somente à média das pessoas. Para você...
AQUILO QUE REALMENTE INTERESSA É EXATAMENTE COMO O ?SEU? PARTICULAR ORGANISMO REAGE A UM STRESS SÔNICO. DELIMITE SEUS PRÓPRIOS PARÂMETROS PARA AQUILO QUE LHE É OU NÃO PERMITIDO PELO SEU PRÓPRIO ORGANISMO. ESTA É A SUA LEI, A ÚNICA QUE ORGANICAMENTE DEVERÁ OBEDECER, POR TODA A SUA VIDA.