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O cultivo do açaí para obtenção de frutos
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Atualizado em 27/10/2007

 

Cultivo do Açaizeiro para Produção de Frutos

Introdução

O açaizeiro (Euterpe oleracea Mart.), também conhecido por açaí, açaí-do-pará, açaí-dobaixo-

amazonas, açaí-de-touceira, açaí-de-planta, açaí-da-várzea, juçara, juçara-detouceira

e açaí-verdadeiro, pode ser considerado como a espécie mais importante do

gênero Euterpe, dentre as dez registradas no Brasil e as sete que ocorrem na Amazônia.

Botanicamente, classifica-se como pertencente à divisão Magnoliophyta

(= Angiospermae), classe Liliopsida Principes), família Arecaeae (= Palmae) estando

inserido no gênero Euterpe.

É uma palmeira elegante, que produz touceira com até 25 estipes, cujos perfilhos apresentam

diferentes estádios de desenvolvimento. Sua inflorescência é infrafoliar, sendo

envolvida por duas brácteas conhecidas por espatas que, ao abrirem, expõem o cacho

constituído por um ráquis e um número variável de ráquilas, onde estão inseridas milhares

de flores masculinas e femininas. Seus frutos são drupas globosas ou levemente

depressas, que apresentam resíduos florais aderidos de coloração violácea ou verde,

quando maduros.

Apesar de ter uso integral, seus frutos destacam-se como a parte mais importante

economicamente, sendo utilizados pela população amazônica, desde a época pré-colombiana,

para a obtenção da bebida denominada de ?açaí?. Por apresentar caules múltiplos, o

açaizeiro também passou a ser utilizado na indústria de processamento de palmito, que,

desde a década de 70, responde por grande parte da produção nacional, em substituição

ao palmiteiro (E. edulis Mart.), espécie de caule solitário e sob risco de extinção, enquanto

a bebida obtida de seus frutos era comercializada apenas no Estado do Pará e em

alguns Estados da Amazônia.

O reconhecimento como fruteira de expressão econômica é fato recente, porém já

ultrapassou as fronteiras da Amazônia, sendo comercializado nas grandes capitais brasileiras,

nas mais diferentes formas (sorvetes, picolés, alimento energético, acompanhado de

outras frutas e cereais, bebida energética, geléias, etc.). Em virtude da expansão comercial

dessa bebida, muitos produtores brasileiros vêm mostrando interesse no seu cultivo em

escala comercial, especialmente os das Regiões Norte e Nordeste.

No Pará, o cultivo racional do açaizeiro para a produção de frutos vem sendo realizado,

desde meados de 1995, através de sementes de procedência desconhecida e com pouca

informação técnica.

Este trabalho contém abordagens técnicas para o cultivo do açaizeiro, para produção e

processamento de frutos.

Clima

Por ser espécie nativa da Amazônia, o açaizeiro pode ser plantado em tipos climáticos

ocorrentes na região (Afi, Ami e Awi, segundo classificação de Köppen). Esses tipos

climáticos caracterizam-se por serem quentes e úmidos, com pequenas amplitudes

térmicas, geralmente com temperaturas médias e médias das mínimas e das máximas

anuais em torno de 26 °C, 22 °C e 31,5 °C, respectivamente, e com umidade relativa

do ar variando entre 71% e 91%.

2 Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto

O total de chuvas e, principalmente, sua distribuição nos

meses do ano constituem-se nos fatores diferenciais

entre os três tipos climáticos. No tipo Afi, em que se

concentram as grandes populações nativas de açaizeiro e

a maioria das áreas plantadas com a espécie, caracterizase

por total anual de chuvas superior a 2.000 mm e por

sua distribuição mais uniforme, e nos meses de menor

precipitação, o total mensal é sempre superior a 60 mm.

No tipo Ami, embora apresentando total anual de chuvas

semelhante ao do Afi, a distribuição é menos uniforme,

com períodos de 2 a 3 meses de estiagem. No tipo Awi,

o total de chuvas é inferior a 2.000 mm, com período de

estiagem que abrange 5 a 6 meses do ano. É recomendável

o uso de irrigação em cultivos de açaizeiro a serem

realizados nas áreas cujos tipos climáticos sejam Ami e

Awi.

No Estado do Pará, o cultivo do açaizeiro vem sendo

realizado em vários municípios, abrangendo todos os

tipos climáticos e sob a orientação de pesquisas nos

Municípios de Tomé-Açu, Castanhal, Santa Izabel e

Altamira.

O açaizeiro também vem sendo plantado em outros

estados da Amazônia e em outros estados brasileiros,

especialmente no Nordeste e Centro-Oeste. No litoral

paulista, vem sendo cultivado experimentalmente desde

1980, para produção de palmito e estando sujeito às

temperaturas médias anuais mais baixas, em torno de 21

°C, consideradas, provavelmente, próxima ao limite

mínimo de exigência térmica para a cultura.

Solo

O açaizeiro é encontrado, naturalmente, em solos de

várzea, igapó e terra firme, sendo predominante em solos

de várzea baixa.

O sistema radicular é do tipo fasciculado, relativamente

denso, com raízes emergindo do estipe da planta adulta

até a altura de 40 cm acima da superfície do solo,

apresentando, nessa situação, coloração avermelhada e

aproximadamente 1 cm de diâmetro. As raízes são

providas de lenticelas e aerênquimas, prolongando-se,

superficialmente, por até cerca de 3,0 a 3,5 m da base

do estipe, em indivíduos com 3 anos de idade, podendo,

em plantas com mais de 10 anos, atingir 5 a 6 m de

extensão.

Suas raízes apresentam adaptações morfológicas e

anatômicas (presença de lenticelas e de aerênquimas)

que surgem no estipe, um pouco acima da superfície do

solo. Além disso, a espécie dispõe de estratégias fisiológicas

que permitem manter as sementes viáveis e as

plântulas vivas, mesmo na ausência total de oxigênio,

por até 20 e 16 dias, respectivamente, de tal forma que,

como o suprimento de oxigênio é adequado, as sementes

germinam e as plântulas retomam seu crescimento.

Em função de estratégias adaptativas, a abertura dos

estômatos do açaizeiro depende mais da radiação solar

do que do déficit de pressão de vapor, e inundações

temporárias não afetam a absorção de água pelas raízes.

Dessa forma, o açaizeiro pode ser cultivado tanto em

solos ricos em matéria orgânica (eutróficos) como em

pobres (distróficos). No primeiro caso, tem-se os

Gleissolos, predominantes em áreas de várzea. Esses

solos são fortemente ácidos, argilo-siltosos pouco

profundos e com boa fertilidade natural, em decorrência

da deposição de detritos contidos em suspensão nas

águas das marés. No segundo caso, o Latossolo Amarelo

textura média, que se caracteriza como solo profundo,

friável, poroso e pela elevada acidez e baixa fertilidade

natural. Mesmo assim, os solos de terra firme são

preferíveis, pois oferecem mais facilidades para o

manejo, à colheita dos cachos e transporte dos frutos.

Experimentos instalados em Latossolo Amarelos textura

média a pesada têm demonstrado bons resultados.

Tipos de açaizeiro

Ainda não existem cultivares de açaizeiro para serem

recomendadas em cultivos de escala comercial, sejam

elas oriundas de populações melhoradas, progênies ou

clones, mas há várias pesquisas sendo avaliadas em

áreas de produtores, a fim de atender a este objetivo.

Atualmente, o que se tem disponível são tipos ou

variedades que ocorrem naturalmente, sendo denominadas

de: açaí-branco, açaí-roxo ou comum, açaí-açu, açaíchumbinho,

açaí-espada, açaí-tinga e açaí-sangue-de-boi.

Essas variedades, na maioria das vezes, se diferenciam

pela coloração dos frutos, quando maduros, pelo número

de perfilhos na touceira, pelo tamanho e peso dos

cachos e de frutos, pela ramificação do cacho ou pela

coloração e consistência da bebida, mas ainda necessitam

ser caracterizadas e avaliadas morfológica e agronomicamente.

As principais características diferenciais

desses tipos são mencionadas abaixo:

Açaí-roxo ou comum: tipo predominante na maioria das

populações nativas da Amazônia. Diferencia-se dos

demais pela coloração violácea a roxa dos frutos, quando

maduros, podendo perfilhar ou não (Fig.1);

Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto 3

Fig. 1. Cachos de açaizeiro dos tipos: a) branco, b) espada e c)

roxo.

Açaí-branco: tipo pouco comum nas populações amazônicas,

apresenta coloração verde opaca dos frutos, em

decorrência da camada esbranquiçada que os envolve,

quando maduros, podendo perfilhar ou não (Fig.1);

Açaí-açu: tipo de ocorrência rara em populações nativas,

tem-se registro de sua ocorrência apenas no Município

de Igarapé-Miri, PA. Seus frutos têm coloração roxa e

diferenciam-se do comum por apresentar perfilhamento

reduzido (3 a 5 estipes/planta), estipes mais grossos,

cachos grandes e pesados, atingindo até 15 kg e com

maior número de frutos por ráquilas. Vale ressaltar que o

açaí-açu registrado no Município de Castanhal, apesar de

possuir cachos grandes, produz poucos cachos por ano,

e tem como agravante a falta de perfilhos, sendo suas

características mais próximas do palmiteiro (Euterpe

edulis Mart.), espécie típica da Mata Atlântica;

Açaí-espada: tipo que ocorre principalmente na Ilha do

Combu, Município de Acará, PA, diferindo dos demais

tipos pelo formato do cacho, que apresenta nas ráquilas

várias ramificações: primárias, secundárias e terciárias

(Fig. 1).

Açaí-sangue-de-boi: tipo característico de algumas

populações nativas do Baixo Amazonas, mais precisamente

do Município de Santarém, PA, e no Estado do

Maranhão. Caracteriza-se pela coloração avermelhada

dos frutos maduros, semelhantes ao sangue de boi,

polpa com consistência bem menos pastosa que os tipos

de ocorrência mais generalizada. A polpa dos frutos

desse tipo tem pouca aceitação, tanto por sua consistência

fina como pelo sabor que é bastante diferente dos

tipos com frutos de cor roxa.

Açaí-tinga: o mesmo tipo do branco ou verde. Tinga é

uma denominação indígena (tupi-guarani) que significa

desprovido de cor.

Açaí-chumbinho: tipo ocorrente em algumas populações da

parte Norte da Ilha do Marajó e do Estado do Amapá, cuja

principal característica é apresentar frutos pequenos (menos

de 1g), podendo ser roxo ou branco.

Como o maior volume de açaí comercializado está concentrado

na bebida obtida do tipo roxo ou comum, em virtude

de apresentar coloração exótica e alto teor da antocianina,

além de ser abundante na região, é recomendado que se

obtenha sementes desse tipo. É interessante saber a

procedência das sementes e que seja verificada as características

das plantas das quais foram colhidos os cachos.

Ao adquirir sementes para o plantio, para produção de

frutos, deve ser dada preferência às oriundas de plantas de

aparência saudável, com perfilhamento (3 a 5 plantas por

touceira), e estipes tendo cicatrizes foliares ou entrenós

curtos, cachos grandes e com bastante frutos, sendo estes

de coloração violácea, pequenos (pesando menos que

1,5 g) e com a parte comestível bem espessa.

Propagação

Formas de propagação

O processo mais comum de propagação do açaizeiro é

através de sementes, embora a propagação assexuada

possa ser também utilizada, através da retirada de

brotações que surgem de forma espontânea na região

logo abaixo do coleto da planta (Fig. 2). A quantidade

dessas brotações depende do genótipo e do ambiente.

Inicialmente, surgem na base do estipe principal e,

posteriormente, nas dos estipes secundários. Contudo,

algumas plantas, independentemente do ambiente, não

exibem a capacidade de emitir brotações, apresentando

estipe solitário.

O processo de propagação assexuada, através da

retirada de brotações, por demandar bastante mão-deobra,

tem uso limitado, sendo presentemente usado

apenas quando se deseja uma quantidade reduzida de

mudas de determinado genótipo e em programas de

melhoramento genético.

Em plantas com 5 anos de idade, mantendo-se quatro

estipes por touceira, o número máximo de brotações

possíveis de serem aproveitadas na formação de mudas

não atinge a dez unidades, decrescendo bastante esse

número nos anos subseqüentes, pois, à medida que se

retiram essas brotações, a planta vai perdendo a capacidade

de emiti-las. Assim sendo, a taxa de multiplicação é

muito baixa, quando comparada com a propagação

Foto: Maria do Socorro Padilha de Oliveira

4 Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto

sexuada em que, de uma única planta, é possível obterse

quantidade superior a seis mil sementes, com germinação

superior a 90%, quando procedentes de frutos

maduros recém-colhidos.

Fig. 2. Açaizeiro jovem provido de brotações ou perfilhos.

A propagação ?in vitro? tem obtido sucesso apenas com

a utilização de embriões zigóticos, não se dispondo de

protocolos que possibilitem a obtenção de plântulas

através da cultura de tecidos somáticos.

A semente corresponde ao endocarpo, que contém em seu

interior uma semente com eixo embrionário diminuto e abundante

endosperma. O endocarpo é aproximadamente esférico,

com comprimento e diâmetro médio de 1,23 cm e 1,45 cm,

respectivamente, e representa 73,46% do peso do fruto.

Em virtude da variação do peso do fruto (0,8 a 2,3 g), o

número de sementes contidas em 1 kg também é

bastante variável (1.250 a 435 sementes), mas, em

média, encontram-se 667 sementes/kg. Vale ressaltar

que sementes oriundas de frutos recém-colhidos e

imediatamente processados apresentam alta porcentagem

de germinação (acima de 90%).

Germinação e armazenamento de

sementes

As sementes do açaizeiro são classificadas como recalcitrantes,

ou seja, não suportam redução do grau de

umidade sem que haja perda na porcentagem de germinação.

De um modo geral, suas sementes perdem o

poder germinativo após 15 dias do beneficiamento, se

armazenadas em condições ambientais.

Em sementes semeadas após o beneficiamento, o processo

germinativo é relativamente rápido, porém desuniforme,

iniciando-se a emergência das plântulas 22 dias após a

semeadura e finalizando-se aos 48 dias, quando as sementes

são semeadas logo após a remoção da polpa.

Em acompanhamento germinativo de sementes recémcolhidas

de 25 progênies de açaizeiro desejáveis para

frutos, foram constatadas variações de 17 a 28 dias para o

início da germinação e de 33 a 60 dias para o término,

alcançando porcentagem de germinação de 79% a 97,3%.

A redução do grau de umidade, mesmo para níveis ainda

altos, implica no comprometimento na porcentagem e no

retardamento da germinação (Fig. 3).

Fig. 3. Curso da germinação de sementes

de açaízeiro com graus de umidade de

39,4% e 19,7%.

Fonte: Carvalho, J.E.U de. dados não publicados.

Quando o grau de umidade é reduzido para valor em

torno de 14%, as sementes perdem completamente a

capacidade de germinação.

Além da sensibilidade ao dessecamento, as sementes

também não suportam baixas temperaturas, havendo

comprometimento da viabilidade quando mantidas em

ambientes com temperaturas iguais ou inferiores a 15°C.

Em decorrência desses fatos, a conservação do poder

germinativo das sementes não pode ser efetuada pelos

processos convencionais de armazenamento, que têm

como pré- requisitos básicos a secagem e o

armazenamento em temperaturas baixas.

Para curtos períodos de armazenamento, em condições

de ambiente natural da Amazônia, ou quando se deseja

transportar as sementes para locais distantes, dois

sistemas podem ser usados.

Foto: Maria do Socorro Padilha de Oliveira

Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto 5

No primeiro, as sementes limpas são arrumadas em

camadas ou misturadas em substrato úmido, que pode

ser serragem ou vermiculita. Areia ou apenas terriço não

são recomendados como substrato, por apresentarem

maior densidade. Nesse sistema, as sementes são

dispostas em camadas alternadas com o substrato

úmido, ou simplesmente misturadas com este e acondicionadas

em caixas de madeira, isopor ou em sacos de

plástico. Na Embrapa Amazônia Oriental, tem-se adotado

a proporção volumétrica de uma parte de sementes para

uma parte de substrato.

No segundo sistema, as sementes são embaladas em

sacos de plástico com capacidade para 4 kg de sementes,

havendo necessidade de tratamento com fungicida

(Benomyl a 0,1%, durante 10 minutos) e de

enxugamento superficial das sementes, de tal forma que

o grau de umidade seja reduzido até 35%.

Em ambos os casos, o período de armazenamento não

deve ultrapassar a 20 dias, pois muitas sementes

poderão completar a germinação dentro da embalagem, o

que dificulta a retirada das mesmas e condiciona o

aparecimento de plântulas anormais. O armazenamento

em sacos de plástico, por período um pouco maior, é

possível, desde que as sementes sejam mantidas em

ambiente com temperatura de 20°C. Nessa situação,

apresentam 58% de germinação após 45 dias de

armazenamento.

Produção de mudas

As sementes podem ser semeadas diretamente no solo,

em sementeiras ou em sacos de polietileno. Na Embrapa

Amazônia Oriental, têm sido utilizados como substrato

para sementeiras areia e pó de serragem, misturados na

proporção volumétrica de 1:1, enquanto, para os sacos

de plástico, utiliza-se a mistura de 60% de solo, 20% de

esterco e 20% de pó de serragem ou proporção

volumétrica de 3:1:1. Esses dois últimos componentes

devem estar curtidos.

Em qualquer processo, para se obter melhores resultados

na germinação, as sementes devem ser obtidas de frutos

recém-despolpados, tendo-se o cuidado de retirar os

resíduos da polpa através da lavagem das sementes,

para evitar a fermentação e proliferação de fungos e, em

seguida, semeá-las.

Se forem utilizadas sementeiras, a semeadura deve ser

feita em linhas espaçadas em 5 e 2 cm entre sementes,

com 2 cm de profundidade. Após a germinação, as

plântulas devem ser repicadas antes ou na abertura do

primeiro par de folhas (Fig.4). Apenas as mudas vigorosas

devem ser repicadas para sacos de polietileno.

Fig. 4. Plântulas de açaizeiro em sementeira

no ponto de repicagem.

Quando a semeadura for realizada diretamente nos sacos

de polietileno, deve-se colocar duas a três sementes na

mesma profundidade e, se todas germinarem, deixar a

mais vigorosa no saco e eliminar ou repicar as demais

para outros sacos.

O período compreendido entre a semeadura até a muda

em condições de plantio é de 6 a 8 meses, e depende

dos tratos culturais realizados na fase de viveiro (adubação,

irrigação, monda, controle de insetos e microrganismos).

Durante a fase de formação, as mudas devem ser

mantidas em viveiro com 50% de sombra, sendo

preferencialmente, submetidas à adubação nitrogenada

(uréia, Kywoa ou Ouro-verde), aplicada quinzenalmente

na dosagem de 1g/l (Fig. 5).

Fig. 5. Mudas de açaizeiro em viveiros: a) rústico e b) telado

sombrite com 50% de sombra.

a

b

Foto: Maria do Socorro Padilha de Oliveira

Foto: Maria do Socorro Padilha de Oliveira

6 Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto

A Comissão Estadual de Sementes e Mudas do Pará

estabeleceu as seguintes normas e padrões para mudas

fiscalizadas de açaizeiro, obtidas por sementes:

· Apresentar altura uniforme, aspecto vigoroso, cor e

folhagem harmônicas;

· Possuir, no mínimo, cinco folhas fisiologicamente

ativas (maduras), pecíolos longos e as folhas mais velhas

com folíolos separados. O coleto deve apresentar a

espessura da base maior que a da extremidade das

mudas;

· Ter de 4 a 8 meses de idade, a partir da emergência

das plântulas;

· Apresentar altura de 40 a 60 cm, medidos a partir do

colo da planta;

· Apresentar sistema radicular bem desenvolvido e ter

suas extremidades aparadas quando ultrapassar o torrão;

· Isentas de pragas e moléstias (Regulamento da Defesa

Sanitária Vegetal).

· A comercialização das mudas somente será permitida

em torrões, acondicionadas em sacos de plástico

sanfonados e perfurados ou equivalentes, com, no

mínimo, 15 cm de largura e 25 cm de altura. Na Embrapa

Amazônia Oriental, empregam-se sacos de 17 cm de

largura x 27 cm de altura x 0,10 cm de espessura.

Na fase final do viveiro, que corresponde a cerca de 2

meses antes do plantio, o sombreamento deve ser

reduzido, deixando as mudas submetidas de 70% a 80%

de luminosidade, adaptação importante para evitar

queima das folhas quando forem levadas ao local

definitivo para plantio.

Plantio

Escolha e preparo da área

Na implantação da cultura do açaizeiro, devem-se utilizar,

preferencialmente, áreas anteriormente ocupadas com

culturas anuais ou semiperenes. Alternativamente, podese

implantar também em áreas com vegetação secundária

de pequeno porte. Áreas com vegetação primária devem

ser evitadas, em conseqüência dos danos ambientais e do

maior custo com a derrubada da vegetação.

No caso da utilização de áreas anteriormente ocupadas

com culturas anuais, o preparo do terreno consiste

basicamente na roçagem da vegetação, aração e

gradagem. No Estado do Pará, vem sendo comum a

implantação do açaizeiro em áreas de cultivos decadentes

de pimenteira-do-reino, maracujazeiro, mamoeiro,

abacateiro, entre outras fruteiras. Nesses casos, o

preparo da área consiste, basicamente, na roçagem das

linhas e abertura das covas, onde serão plantados os

açaizeiros, com posterior remoção dos tutores e das

referidas culturas.

Dimensão e adubação da cova

O plantio em áreas não-irrigadas deve ser efetuado no

início do período mais chuvoso, em covas com dimensões

de 40 cm x 40 cm x 40 cm, previamente adubadas

(pelo menos 30 dias antes do plantio) com 10 a 15 litros

de esterco bovino ou 2 a 3 litros de esterco de galinha e

200 g de superfosfato triplo, cobrindo-as, em seguida,

até o momento do plantio. Durante o plantio, distribuir as

mudas próximas às covas, reabrir as mesmas, retirar as

mudas dos sacos de plástico, através de corte nos

mesmos, e plantá-las no centro das covas, cobrindo o

torrão até a região do coleto. Mudas mal plantadas (com

o coleto exposto) trarão problemas mais tarde ao

produtor, tais como: tombamento com facilidade, ponto

de penetração de insetos e microrganismos, etc.

Recomenda-se, após o plantio, o uso de cobertura morta

em volta da muda, principalmente em plantios fora de

época. Esse procedimento visa minimizar os efeitos de

possíveis veranicos que possam ocasionar déficit hídrico

acentuado e a morte das mudas recém-plantadas. Além

disso, a cobertura morta serve também para controlar,

parcialmente, o mato (plantas daninhas) em volta da muda.

Em áreas irrigadas, o plantio pode ser efetuado em

qualquer época do ano, adotando-se os mesmos procedimentos

indicados para o plantio em áreas não-irrigadas,

em termos de tamanho da cova e adubação.

Espaçamento

Ainda não há resultados experimentais conclusivos sobre

indicações de espaçamento para o cultivo do açaizeiro, para

produção de frutos. As informações existentes são baseadas

em observações de natureza prática, em que os mais utilizados

são: 5 m x 5 m e 4 m x 4 m, mas outros espaçamentos

também vêm sendo empregados pela pesquisa como: 5 m x

3 m; 5 m x 4 m; 6 m x 4 m e 6 m x 6 m.

O espaçamento de 5 m x 5 m, com o manejo de três e

quatro estipes/planta, tem sido o mais usado,

correspondendo a densidades de 1.200 plantas/ha e

1.600 plantas/ha, respectivamente, e pode ser recomendado

para cultivos comerciais.

A implantação da cultura em espaçamentos mais

adensados, como 4 m x 4 m e 5 m x 3 m, implica em

baixas produtividades, em decorrência da competição por

água e por nutrientes, que se estabelece entre as plantas.

Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto 7

Espaçamentos mais amplos, como 5 m x 5 m, têm a

vantagem de facilitar sobremaneira a colheita até 10

anos após o plantio. Nessa situação, as plantas não

estão submetidas à competição por luz, o que reduz

bastante o crescimento em altura e favorece o crescimento

em diâmetro, reduzindo os riscos de tombamento

de plantas pela ação de ventos fortes. Nesse

espaçamento, os primeiros cachos surgem em altura

inferior a 1,5 m, bem como os tratos culturais, especialmente

as capinas, podem ser efetuadas mecanicamente.

Entretanto, espaçamentos mais abertos favorecem o

crescimento de plantas daninhas, em particular nos

primeiros 3 anos após o plantio, quando o sombreamento

da superfície do solo pelos açaizeiros ainda é reduzido.

Em sistemas agroflorestais ou em consórcios com outras

espécies perenes, os espaçamentos recomendados são bem

maiores, sendo os mais indicados 14 m x 7 m e 10 m x 10 m.

Um dos consórcios mais interessantes dos pontos de

vista biológico e econômico envolve o cupuaçuzeiro

como cultura principal e o açaizeiro como cultura secundária

(Fig.6). Nesse caso, o açaizeiro, que necessita de

luz solar, deve ser usado como sombreamento definitivo

do cupuaçuzeiro, espécie que suporta até 20% de

sombra, sem afetar a produção. No consórcio do

cupuaçuzeiro com o açaizeiro, a primeira espécie deve

ser plantada no espaçamento de 5 m x 5 m, e a Segunda,

no espaçamento de 10 m x 10 m.

Fig. 6. Consórcio de açaizeiro x cupuaçuzeiro.

Tratos Culturais

Nutrição e adubação

Os estudos sobre nutrição e adubação do açaizeiro são ainda

incipientes, não se dispondo de resultados consistentes que

permitam avaliar o estado nutricional das plantas com precisão

e, principalmente, estabelecer recomendações de adubação.

Resultados obtidos em experimentos evidenciam que os

macronutrientes interferem na produção de matéria seca,

em plantas jovens de açaizeiro, na seguinte ordem: K > Mg

> P > N > Ca > S. Em função disso, a determinação dos

teores desses nutrientes, nas folhas e raízes de plantas com

e sem sintomas de deficiência, forneceram indicação

preliminar para avaliação do estado nutricional do açaizeiro.

Com relação à adubação, os seguintes procedimentos têm sido

indicados para solos de baixa fertilidade natural na Amazônia,

não se podendo, no entanto, afirmar qual o mais eficiente:

· Aplicar, no primeiro e segundo anos, 10 a 15 litros de

esterco de curral/touceira/ano, ou 2 a 3 litros de esterco de

galinha/touceira/ano, e 100 g da mistura, em partes iguais,

de sulfato de amônio, superfosfato triplo e cloreto de

potássio/touceira/ano. O adubo mineral deve ser aplicado

em duas parcelas de 50 g/planta, a primeira no início e a

segunda no fim do período chuvoso. A partir do terceiro

ano, utilizar a mesma quantidade de adubo orgânico, e

também 620 g da mistura/touceira/ano que deve conter

150 g de sulfato de amônio, 220 g de superfosfato triplo e

250 g de cloreto de potássio, dividido, também, em duas

parcelas iguais, ou seja, 310 g/touceira no início e 310 g/

touceira no fim do período chuvoso.

· Nos dois primeiros anos após o plantio, aplicar 100 g

de sulfato de amônio, 100 g de superfosfato triplo e

100 g de cloreto de potássio por planta, parcelados duas

vezes. A partir do terceiro ano, duplicar a quantidade de

adubo, dividida, também, em duas aplicações. Além da

adubação mineral, aplicar em intervalos de 2 anos, 5

litros de esterco de curral.

· No primeiro ano, efetuar duas aplicações de 300 g de

NPK, formulação 10-28-20, no quinto e nono meses

após o plantio, respectivamente. A partir do segundo

ano, efetuar três aplicações de 300 g do mesmo adubo,

no início, meio e fim do período chuvoso.

Controle de plantas daninhas

No primeiro ano após o plantio, o crescimento da planta

é bastante lento, situação esta que, aliada ao

espaçamento aberto, favorece o crescimento de plantas

daninhas. O controle de plantas daninhas pode ser

realizado através de capinas e de produtos químicos

(herbicidas). Na Embrapa Amazônia Oriental, o controle

de plantas daninhas está sendo feito através de controle

integrado, associando o controle mecânico (capinas ou

roçagens e coroamento) x controle químico (herbicidas) x

controle cultural (cobertura morta ou viva).

Nos três primeiros anos após a implantação do pomar,

são necessárias três a quatro roçagens por ano e a

mesma quantidade de coroamento feitas em volta das

Foto: Maria do Socorro Padilha de Oliveira

8 Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto

touceiras. Esta última operação pode ser efetuada com

herbicidas à base de glifosato ou paraquat. O glifosato

tem a vantagem de não provocar danos na planta de

açaizeiro, nas dosagens indicadas no rótulo do produto

para o controle de plantas daninhas. Convém ressaltar,

porém, que esses produtos ainda não estão registrados

para uso na cultura do açaizeiro.

Recomenda-se colocar, nos coroamentos, cobertura

morta (serragem curtida, engaço de dendê ou outro

material disponível na propriedade, com exceção de

capim seco, pois ocasionará o aparecimento de novas

plantas daninhas e dificultará o controle do mato) ou viva

(de preferência leguminosas).

Manejo de perfilhos

O número excessivo de perfilhos ou filhos em uma

touceira (brotações que surgem na planta) reduz o

crescimento da planta-mãe, como também ocasiona

redução na produção de frutos, pois uma parte considerável

de fotoassimilados é mobilizada para a formação do

sistema radicular dos perfilhos. Assim sendo, faz-se

necessário efetuar o desbaste dos mesmos, de tal forma

que cada touceira apresente, no máximo, cinco plantas.

Outro aspecto que deve ser considerado no manejo das

touceiras está relacionado à altura dos estipes. Quando

um estipe atinge altura que dificulte, sobremaneira, a

colheita dos frutos, é conveniente eliminá-lo e deixar um

novo perfilho crescer para substituir o que foi derrubado.

Irrigação

Na Amazônia, o uso de irrigação em cultivos de açaizeiro

vem sendo feito de forma empírica, pois não existem

estudos específicos sobre sua necessidade hídrica. Nessa

região, normalmente, a irrigação vem sendo empregada

durante o período de estiagem, na forma de irrigação

suplementar, em cultivos estabelecidos em solos de terra

firme e submetidos aos tipos climáticos Ami e Awi.

Em experimento instalado no final do período chuvoso,

no Município de Castanhal, registrou-se a perda de 95%

das mudas, após 6 meses de plantio, mostrando a

necessidade de irrigação. Em algumas situações, como

nos anos de ocorrência do fenômeno ?El Niño? (período

caracterizado por estiagem prolongada) é também

necessária, mesmo em locais com tipo climático Afi,

particularmente se o pomar estiver instalado em solos

com teor de argila inferior a 30%.

No Estado do Pará, essa prática vem sendo realizada por

produtores japoneses do Município de Tomé-Açu,

empregando a inundação em valetas ou a microaspersão.

No Estado do Ceará, onde a cultura foi recentemente

introduzida, está sendo utilizado o sistema de irrigação

por microaspersão. Também, a irrigação vem sendo

realizada em plantios dessa fruteira no Estado de

Rondônia.

Nos ecossistemas de várzea inundável do Estuário

Amazônico, as plantas não demonstram sintomas de

déficit hídrico, pois, nesse ambiente, mesmo durante a

estação seca, quando em muitas ocasiões a camada

superficial do solo seca bastante e apresenta rachaduras,

provocando a quebra de raízes finas, a planta apresenta

?status? de água adequado, em decorrência de ter

suprimento hídrico garantido através da absorção de

água pela porção mais profunda do sistema radicular.

Não obstante ser uma planta típica de hábitat úmido, o

açaizeiro comporta-se como planta tolerante a curto

período de estiagem, principalmente em solos de textura

pesada. Plantas jovens, mesmo submetidas a estresse

por falta de água, durante 2 meses, mantêm-se vivas e

retornam suas atividades fisiológicas 14 dias após a

reidratação.

Como na maioria das palmeiras, o primeiro sintoma

visível do déficit de água na planta manifesta-se pelo

retardamento no ritmo de abertura das folhas. Assim, em

plantas com estresse por falta d?água é comum encontrar

no ápice duas ou mais folhas não completamente

abertas e em forma de flecha. Esse fenômeno, em

muitos casos, também está associado à deficiência de

boro, pois a absorção desse nutriente fica limitada pela

deficiência de água no solo.

Manejo de inflorescências

No Estado do Pará, apesar do açaizeiro produzir o ano

todo, o maior volume de comercialização de frutos ocorre

no segundo semestre do ano, coincidindo com o período

menos chuvoso e o preço dos frutos alcançam menores

valores. Assim, a possibilidade de manejar as

inflorescências de modo a direcionar a produção de

frutos para o período chuvoso (no primeiro semestre)

pode ser uma técnica interessante por garantir ao

produtor frutos na entressafra e portanto, melhor preço

na venda. Contudo, ainda não há informações consistentes

que comprovem a viabilidade dessa técnica.

Dessa forma, se o interesse for para realizar plantios de

açaizeiro com produção de frutos na entressafra, o

agricultor deve adquirir sementes de locais onde as

plantas tenham produção na entressafra, ou seja, de

municípios que tenham tradição de produzir frutos fora

da época. Como o mercado paraense é abastecido na

entressafra por frutos procedentes, principalmente dos

Estados do Amapá, do Maranhão e de alguns municípios

Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto 9

paraenses (Muaná e São Sebastião da Boa Vista), pode

se sugerir que as sementes utilizadas sejam adquiridas

desses locais.

Pragas e métodos de controle

Diversos insetos atacam o açaizeiro, dentre eles: pulgões,

besouros (coleópteros), gafanhotos, moscas

brancas e mariposas. Mas, poucos são os que exigem

medidas efetivas de controle. A maior parte dos insetos

que causam danos ao açaizeiro também é praga de

outras palmeiras ou até mesmo de outras espécies

frutíferas ou madeireiras. Ressalte-se ainda que não

existe nenhum produto registrado no Ministério da

Agricultura, Pecuária e do Abastecimento do Brasil que

possa ser utilizado para o controle de pragas dessa

cultura.

As pragas que têm sido relatadas com mais freqüência

em experimentos conduzidos pela Embrapa Amazônia

Oriental são:

¨ Bicudos (Rhynchophorus palmarum e Dynamis

borassi, Coleoptera: Curculionidae): são besouros bem

semelhantes que atacam o estipe, principalmente a

região da coroa foliar. Ocorrem em outras palmeiras

cultivadas na Amazônia como no coqueiro (Cocos

nucifera) e no dendezeiro (Elaeis guineensis), onde

também causam sérios danos, além de serem considerados

como vetores do nematódeo Bursaphelencus

cocophilus, causador da doença conhecida como anel

vermelho. Seu ataque tem sido registrado em plantas

adultas e, quase sempre levam a morte. Ocorrem

principalmente no período mais chuvoso. Avaliação feita

em açaizeiros da Coleção de Germoplasma da Embrapa

Amazônia Oriental, registrou-se aumento significativo no

ataque desses coleópteros (3,1% para 10,7%).

Os adultos dessas espécies apresentam semelhanças e

são besouros de hábitos diurnos, de cor negra, com

cerca de 5 cm de comprimento, cabeças pequenas e

alongadas para frente, terminando em forma de rostro.

As larvas são ápodas e de cor branca. A larva no último

instar mede 75 mm de comprimento por 25 mm de

largura. O ataque das larvas é detectado pela presença

de exudação mucosa na parte superior do estipe, que

exala cheiro característico de fermentação. As recomendações

para o controle dessa praga podem ser baseadas

nos métodos de controle indicados para as culturas do

dendezeiro e do coqueiro, respectivamente, conforme

discriminadas a seguir:

a) Controle preventivo: deve ser feito durante a colheita,

pincelando a parte em que o cacho for cortado, com uma

solução de piche mais nematicida;

b) Controle comportamental: usar iscas atrativas e

feromônios. Toletes de cana-de-açúcar podem ser

usados como iscas em armadilhas tipo alçapão. A adição

de feromônios às iscas constitui-se, presentemente, no

método mais eficiente de controle;

· Broca das mudas (Xylosandrus compactus, Coleoptera:

Scolytidae): conhecido como broca-das-mudas, é um

inseto originário da Ásia, polífago e bastante conhecido

como praga do cafeeiro (Coffea arabica) e de numerosos

arbustos. A fêmea mede entre 1,5 mm e 1,8 mm de

comprimento e apresenta coloração negra-brilhante. O

macho é de coloração marrom e um pouco menor do que

fêmea. Foi registrado em mudas de açaizeiro de um

produtor de Santa Izabel do PA e na Embrapa. Na

Amazônia Brasileira, tem sido encontrado atacando

diversas espécies frutíferas e madeireiras.

· Coleobroca 1: besouro pequeno não identificado que

ataca a parte inferior do estipe até 1,5 m de altura,

fazendo perfurações pequenas por onde escorre a seiva

que depois seca, mas não causam a morte da planta.

Seu ataque ocorre no período mais chuvoso. Na Coleção

de Germoplasma de açaí, registrou-se um alto índice de

ataque, mas sem ocorrência de morte.

· Coleobroca 2 (Fovelous sp. Coleóptera:

Curculionidade): outro besouro não identificado que

ataca inflorescências ainda fechadas, faz galerias nas

ráquilas e destrói as flores, danificando completamente

as inflorescências. Também foi registrado em açaizeiros

da Coleção de Germoplasma (Fig. 7).

Fig. 7. Ráquilas de açaizeiro com ataque inicial da coleobroca 2.

Foto: Maria do Socorro Padilha de Oliveira

10 Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto

· Broca dos frutos (Cocotrypes sp, Coleoptera): os

endocarpos que caem no solo são atacados por um

besouro que, dependendo da intensidade do dano,

causam perda de viabilidade das sementes.

· Pulgão (Cerataphis latanie, Homoptera: Aphididae): é

um inseto preto, minúsculo, sugador, que ataca as

folhas em desenvolvimento e bainhas foliares,

inflorescências e frutos em diferentes estádios de

desenvolvimento, formando colônia semelhantes a

escamas. Por sugar a seiva, atrai formigas e favorece o

aparecimento de uma película preta (fungo não

patogênico denominado de fumagina). Atacam plantas

em qualquer estádio de desenvolvimento (mudas, plantas

jovens e adultas), mas seus danos são maiores em

plantas jovens, podendo causar a morte da planta.

Atacam em qualquer época do ano, preferencialmente,

no período mais chuvoso. Em açaizeiros da Coleção de

Germoplasma da Embrapa Amazônia Oriental, registrouse

ocorrência considerável desse inseto, porém pouco

variável entre os anos (31,3%; 20,4%; 20,6% e

33,6%).

Nas plantas, atacam principalmente os lançamentos

foliares (flechas) e folhas novas, causando

amarelecimento e secamento e, conseqüentemente,

retardam o desenvolvimento das plantas.

Nas inflorescências, ocasionam queda precoce das flores,

dando origem a cachos secos e, quando o ataque ocorre na

fase de desenvolvimento da espata (boneca), ocasiona seu

secamento (Fig. 8 a). Logo, causa prejuízos à produção.

Nas infrutescências (cachos com frutos), causam danos

principalmente quando os frutos ainda estão pequenos

(Fig. 8 b), levando à queda precoce dos mesmos, dando

origem a cachos secos e prejuízos a produção.

O controle do pulgão preto pode ser efetuado com

pulverizações de óleo mineral na concentração de 1%,

misturado com inseticida fosforado na concentração de

0,1% do produto comercial.

Não existem medidas de controle efetivamente testadas

para o combate dessa praga em mudas de açaizeiro. No

entanto, a aplicação de inseticidas de contato, com alto

poder residual pode se constituir em alternativa de

controle. Nesse caso, deve-se considerar o hábito

crepuscular dos adultos e pulverizar as mudas ao

entardecer, a fim de combater os insetos durante o vôo.

· Cochonilha escama-farinha: insetos sugadores,

brancos e minúsculos, que atacam a parte inferior das

folhas, principalmente de mudas e plantas jovens,

sugando a seiva e retardando seu crescimento.

Fig. 8a e b. Ataque de pulgão preto em açaizeiro: a) inflorescência

e b) cacho com frutos pequenos.

· Gafanhotos: o mais comum tem sido o tucurão

(Tropicaris collaris, Acrididae), cujas ninfas de últimos

estádios e adultos são vorazes e devoram as folhas

novas de mudas e plantas jovens, deixando apenas a

ráquis foliar e as nervuras dos folíolos.

Doenças e métodos de controle

Algumas doenças vêm sendo registradas, principalmente,

em mudas enviveiradas de açaizeiro, causadas por

fungos, como é o caso da antracnose (Colletotrichum

gloeosporoides), do carvão (Curvularia sp.) e da

helmintosporiose (Drechslera sp.). A primeira doença é a

mais freqüente, com perdas de até 70% de mudas, mas

a ocorrência dessas doenças está muito relacionada com

a condição de manejo.

b

a

Foto: Maria do Socorro Padilha de Oliveira

Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto 11

Para o controle da antracnose, deve-se manter as mudas

e plantas jovens com a adubação em dia e afastadas

para permitir uma boa ventilação, especialmente no

viveiro, devendo ficar espaçadas uma das outras em pelo

menos 10 cm. Caso este procedimento não resolva,

fazer pulverizações com os seguintes fungicidas: Ziram,

Captam ou Thiram a 0,2% do produto comercial, em

intervalos quinzenais. No entanto, tais produtos ainda

não estão registrados no Ministério da Agricultura,

Pecuária e do Abastecimento para uso no açaizeiro.

Fungicidas a base de cobre não devem ser recomendados,

pois podem causar fitotoxidez.

Nas demais, recomenda-se bom manejo: mudas adubadas,

bem arejadas, evitando excesso de umidade.

Um distúrbio, provavelmente de origem fisiológica, que tem

sido constatado em plantas da Coleção de Germoplasma de

Açaizeiro é a rachadura do estipe. Esse distúrbio caracteriza-

se por uma ou mais fendas longitudinais no caule, com

comprimento em torno de 0,70 m. Essas rachaduras

representam porta de entrada para fungos saprofíticos e

ocasiona o apodrecimento e o tombamento do estipe.

Sintomas freqüentes, de encurtamento e enrugamento

de folhas e folíolos, observados em plantas jovens e

adultas estão relacionados com deficiência nutricional,

principalmente de boro, e devem ser corrigidos com a

aplicação de adubo a base de boro (bórax) na dosagem

recomendada no rótulo do produto (Fig 9).

Ciclo Produtivo

O açaizeiro é uma espécie perene que, na Região Amazônica,

inicia a floração a partir do quarto ano de plantio.

Se bem manejado, pode iniciar a floração por volta de

2,5 anos do plantio, podendo o primeiro cacho ser

colhido entre 3,1 e 3,5 anos. Depois que inicia seu ciclo

reprodutivo, flora e frutifica por quase o ano todo, mas,

os períodos de maior floração e frutificação concentramse

na época mais chuvosa (janeiro a maio) e menos

chuvosa (setembro a dezembro), respectivamente.

Através de dados experimentais obtidos em açaizeiros

nas condições de Belém, PA, verifica-se que o aparecimento

da espata está diretamente relacionado com a

queda da folha e, aproximadamente 59 dias após seu

aparecimento, ela abre e inicia a floração, apresentando,

nesta ocasião, coloração amarela-queimada. Em uma

inflorescência, existem milhares de flores, porém mais da

metade é masculina e contêm, geralmente, 1.242 a

10.557 flores femininas que atraem inúmeros insetos,

muitos dos quais necessários para sua polinização. O

tempo médio da floração em inflorescência é de 26 dias,

sendo comum obter-se inflorescências secas, em decorrência

da queda de flores fecundadas ou não.

Fig. 9. Plantas jovens de açaizeiro com 2 anos: a) normal e

b) com sintomas de deficiência de boro.

Foto: Maria do Socorro Padilha de Oliveira

12 Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto

Escaladores habilidosos são capazes de passar de um

estipe para outro de uma mesma touceira, sem descer ao

solo, colhendo de três a cinco cachos em uma única

escalada, desde que o peso total não ultrapasse 15 kg.

Normalmente, um escalador experiente é capaz de colher

cerca de 150 kg a 200 kg de frutos, que corresponde,

aproximadamente a 50 a 60 cachos, em uma jornada de

6 horas de trabalho.

Com a intensificação e racionalização do cultivo do

açaizeiro, a operacionalização da colheita precisa ser

substancialmente melhorada, tendo em vista que, em

muitas áreas onde a cultura está sendo implantada, há

carência de pessoal habilitado em escalar palmeiras, além

do sistema tradicional ser bastante oneroso e com baixo

rendimento de mão-de-obra.

Um equipamento que vem sendo testado com relativo

sucesso, na Embrapa Amazônia Oriental, para a colheita de

cachos de pupunheira (Bactris gasipaes) pode ser utilizado

também na colheita do açaizeiro. Esse equipamento

consiste de uma vara de alumínio, com 6 m de comprimento,

que contém uma lâmina para o corte, um recipiente

para a recepção do cacho e uma roldana que permite a

descida e a subida do recipiente, em uma das extremidades.

Outro equipamento, denominado de ?curica?, vem

sendo utilizado na colheita de cachos do açaizeiro.

Após a colheita, os frutos são removidos manualmente

das ráquilas. Em seguida, são retiradas as impurezas

(restos florais, de ráquilas, etc.) e acondicionados,

preferencialmente, em cestos confeccionados com fibras

vegetais (Fig. 10). Esses cestos oferecem boa ventilação,

o que favorece a conservação dos frutos com

capacidade variável comportando, normalmente, de 15

kg ou 30 kg de frutos.

Caixas de plástico com aberturas laterais, como as

usadas na colheita de acerola e de outras frutas tropicais

também se prestam para essa finalidade, tendo a vantagem

de ocuparem menor espaço e de serem facilmente

transportadas. Esse tipo de embalagem, no entanto, é

pouco usada na Amazônia, em virtude da maior facilidade

de aquisição e do baixo preço dos cestos.

Como os frutos são bastante perecíveis, a bebida obtida

fermenta com facilidade. Esta condição é favorecida pela

temperatura elevada prevalecentes nas áreas de produção

e de comercialização. Portanto, o ideal é que sejam

processados no prazo máximo de 23 horas após a

colheita. Deve-se evitar a exposição dos frutos ao sol

para que não ocorra perda excessiva de água, o que

poderá acarretar dificuldades no processo de

despolpamento, baixo rendimento da bebida e coloração

fora do padrão.

Da fecundação das flores até a maturação completa dos

frutos, demanda, em média, 175 dias ou 6 meses. Os

frutos, quando maduros, apresentam coloração violácea

e são opacos, em decorrência de estarem envolvidos por

uma camada esbranquiçada. O número de frutos por

cacho varia de 722 até 1.811, tendo, em média, 1.192

frutos. Em alguns cachos recém-fecundados, pode

ocorrer a queda parcial ou total de frutos (aborto), dando

origem a cachos com pouco ou nenhum fruto.

Colheita e Pós-colheita

A colheita dos cachos do açaizeiro deve ser efetuada,

aproximadamente, 180 dias após a fecundação das

flores, ocasião em que os frutos apresentam coloração

roxa-escura ou verde-escura, dependendo do tipo, sendo

cobertos por uma película esbranquiçada, dando um

aspecto opaco aos frutos.

A colheita ainda é efetuada pelo método tradicional

empregado no extrativismo, ou seja, através de escaladas

feitas no estipe por homens, mulheres e, muitas

vezes, por crianças com auxílio de peconhas e facas bem

afiadas. Ao alcançarem os cachos, fazem cortes na

inserção do estipe, trazendo-os até o solo. Esta operação

é efetuada sempre no início da manhã. Em plantas altas

e com estipes finos, constitui-se em operação onerosa,

difícil de ser realizada e perigosa, podendo colocar em

risco a vida do operário.

Durante a colheita, deve-se tomar cuidado para que não

haja desprendimento de grande quantidade de frutos das

ráquilas, evitando movimentos no cacho após a colheita e,

principalmente, durante a descida da planta. Em plantas

no início da produção, a colheita é mais facilitada.

Cuidados especiais também devem ser dispensados aos

frutos, durante a colheita (as mãos e os utensílios

utilizados devem estar bem lavados), evitando que eles

entrem em contato com o solo para minimizar a contaminação

por microrganismos, principalmente em solos de

várzea.

A preferência da colheita pela manhã visa evitar que os

cachos sejam desbolados nos horários mais quentes e

chuvosos do dia, pois nesses horários há maior possibilidade

de fermentação dos frutos, além de dificultarem

também a escalada nas palmeiras, em virtude dos estipes

ficarem quentes e escorregadios. Outro ponto favorável é

que logo após o raiar do dia os ventos são brandos.

Outro fator determinante à colheita no início da manhã está

relacionado ao tempo gasto com a embalagem dos frutos e

transporte, pois os frutos colhidos devem chegar aos

grandes centros consumidores, principalmente em Belém,

PA, nas primeiras horas do dia seguinte ao da colheita.

Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto 13

Fig. 10. Cestos utilizados na comercialização de frutos do

açaizeiro.

Não existem estudos sobre a conservação dos frutos em

ambientes refrigerados, mas, a exemplo de outras frutas

tropicais, a vida pós-colheita poderia ser prolongada em

ambiente com temperatura em torno de 10 °C. Convém

ressaltar que em alguns casos, especialmente quando o

transporte dos frutos é feito em longa distância, devendo

ser embalados em sacos de polipropileno, com capacidade

para 50 kg ou 60 kg, recobertos com gelo ou transportados

em câmaras frigoríficas, sendo conservado por

período superior a 48 horas.

Cuidados especiais também devem ser dispensados na

pós-colheita (desde a operação de desbolamento,

embalagem, transporte, locais de venda e até o

processamento dos frutos), mantendo as mãos sempre

limpas, usando luvas, utilizando embalagens limpas e

lavadas, higiene durante o transporte e no local de venda

minimizam a contaminação por microrganismos e a ação

das enzimas e garantem melhor qualidade aos frutos e a

bebida obtida, especialmente se os cuidados forem

redobrados durante o processamento.

Produtividade

Os dados sobre produtividade de frutos do açaizeiro são

ainda inconsistentes. Este fato deve-se ao pouco conhecimento

de práticas culturais e de manejo mais eficientes

para a cultura. Acrescente-se ainda a não existência de

cultivares definidas. Assim sendo, os dados disponíveis

são obtidos de estimativas de açaizais naturais ou de

pomares estabelecidos com sementes de procedências

desconhecidas.

O açaizeiro inicia seu ciclo de produção de frutos 4 anos

após o plantio, podendo eventualmente, algumas

plantas, entrarem em fase de produção aos 3 anos de

idade.

Dentro de uma touceira, a planta-mãe é a primeira a

entrar em produção, sendo esta, nos dois primeiros

anos, insignificante, crescendo consideravelmente a

partir do sexto ano após o plantio. Em pomar implantado

em Latossolo Amarelo textura leve, no espaçamento de

6 m x 6 m, manejado com três plantas por touceira, com

adubação orgânica e mineral, observou incrementos

significativos na produção até o décimo primeiro ano,

quando a produção atingiu 42,2 kg de frutos/touceira/

ano, decrescendo nos anos subseqüentes.

Na Coleção de Germoplasma de Açaizeiro da Embrapa

Amazônia Oriental, também implantada em Latossolo

Amarelo textura média, no espaçamento de 5 m x 3 m,

sem desbaste de estipes, a produção, 10 anos após o

plantio, foi altamente variável de 0,1 kg a 50,9 kg de

frutos/touceira/ano, evidenciando a influência do

genótipo e da procedência.

Em açaizais nativos, manejados para a produção de

frutos, com densidade de 1.500 plantas/ha e cerca de

53% delas, em fase de produção, foi registrada produtividade

de até 9.000 kg de frutos/ha. Entretanto, para

açaizais não manejados, a produtividade foi de apenas

4.500 kg de frutos/ha, em decorrência da baixa densidade

de plantas.

Mercado e Comercialização

Mercado

O principal mercado do açaí ainda é a Região Norte,

especialmente o Estado do Pará, onde o consumo

ultrapassa a barreira de 180.000t por ano, mas se

acredita que os dados estatísticos são contraditórios. O

Pará se constitui no maior produtor e maior consumidor,

respondendo por cerca de 93% da produção nacional.

Na cidade de Belém, PA, estima-se em 360.000 litros o

consumo diário dessa bebida. Nesse principal mercado, o

maior volume da bebida ?açaí? é comercializado imediatamente

após o seu processamento, sem resfriamento ou

congelamento.

A partir de meados da década de 1990, a polpa congelada

de açaí começou a ser comercializada em outras

regiões do Brasil, mas não há estimativas da quantidade

consumida. Há relatos de consumo de 200t/mês somente

na cidade do Rio de Janeiro, RJ. Convém ressaltar sua

comercialização em outras grandes cidades, principalmente

nas grandes capitais das regiões Nordeste,

Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil.

Os produtos oriundos do açaí têm sido apresentados em

feiras internacionais na Europa e na América do Norte,

despertando o interesse do público, em geral. Amostras

da polpa e de seus derivados têm sido remetidas para

Foto: Maria do Socorro Padilha de Oliveira

14 Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto

outros países, especialmente para a Áustria, Alemanha,

Estados Unidos e Japão. A primeira remessa de exportação

foi feita pela empresa Muaná Alimentos LTDA,

sendo enviada aos Estados Unidos e Europa, mas não há

relatos de outras exportações.

A utilização do fruto como fonte de corante natural para

a indústria de alimentos é outro aspecto que tem recebido

atenção, haja vista a tendência mundial de proibição

de muitos corantes sintéticos, particularmente os que

apresentam efeitos cancerígenos. Os corantes extraídos

do açaí têm sido utilizados, experimentalmente, no

preparo de bombons tipo ?hard candies? e de gelatina,

com excelentes resultados.

Com relação ao segmento de bebidas isotônicas, o

produto com sabor artificial de açaí já pode ser encontrado

nas prateleiras das grandes redes de supermercados

que atuam no Brasil, sendo um bom indicativo de

aceitação do açaí pelo público.

Uma prova da expansão do mercado de açaí é o investimento

no plantio em escala comercial que vem sendo

feito por empresários e produtores de outras regiões

brasileiras, principalmente, dos Estados da Bahia, Ceará,

Pernambuco, Rio de Janeiro, Goiás, São Paulo e Mato

Grosso do Sul. Há também registros de grandes plantios

de açaizeiro nos Estados de Rondônia e Acre.

Comercialização

O fruto do açaizeiro não é consumido ?in natura?, pois

apresenta escasso rendimento de parte comestível e sabor

relativamente insípido, quando comparado com a maioria

das frutas tropicais. Além disso, o consumo direto dos

frutos deixa nos lábios, dentes e gengivas manchas de

coloração arroxeada, sendo bem acentuadas e de aspecto

desagradável, embora facilmente removíveis.

Seus frutos são utilizados na obtenção da bebida

denominada de ?açaí?, um refresco de consistência

pastosa, obtido por extração mecânica (em máquinas

despolpadoras) ou manual. Essa bebida é obtida com a

adição de água durante o processamento dos frutos, o

que facilita, sobremaneira, as operações de

despolpamento e filtração.

Dependendo da quantidade de água utilizada no processo de

extração, a bebida é classificada, segundo as normas do

Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento como:

a) Açaí grosso ou especial, quando apresenta teor de

sólidos totais superior a 14%;

b) Açaí médio ou regular, quando apresenta teor de

sólidos totais entre 11% e 14%;

c) Açaí fino ou popular, é o produto com teor de sólidos

totais entre 8% e 11%.

Quando o despolpamento é efetuado sem a adição de

água, obtém-se a polpa integral de açaí, que deve conter,

no mínimo, 40% de sólidos totais. Essa forma de

obtenção do produto tem sido usada apenas experimentalmente

e visa ao atendimento de mercados distantes

dos centros de produção. No entanto, nenhuma das

despolpadoras disponíveis no mercado processa com

eficiência o fruto sem adição de água.

Além da forma tradicional de consumo, a polpa de açaí

também é usada na produção industrial ou artesanal de

sorvetes, picolés e na fabricação de geléias.

Nos últimos anos, diversas outras formas de apresentação

do produto têm surgido no mercado, tais como: o

açaí pasteurizado, o açaí com xarope de guaraná, o açaí

em pó, o doce de leite com açaí, a geléia e o licor de

açaí. O primeiro é embalado em latas contendo 1.000 ml

de polpa já açucarada ou em potes de vidro contendo

580 ml ou 325 ml; o segundo, embalado em potes de

vidro também contendo 580 ml ou 325 ml de açaí,

misturado com xarope de guaraná. Esses produtos

apresentam validade de 3 anos, mesmo quando mantidos

à temperatura ambiente. Já o açaí em pó, no qual se

adiciona maltodextrina durante o processo de obtenção,

tem prazo de validade de apenas 2 meses e é apresentado

em potes de plástico, contendo 100 g. Esse produto

é indicado para o preparo de sorvetes, pudins, tortas,

bolos, biscoitos e doces. O doce de leite com açaí, a

geléia e o licor são comercializados em embalagens de

vidro, contendo 465 g, 215 g e 750 ml do produto,

respectivamente. O doce e a geléia apresentam prazos de

validade de 1 ano, enquanto o do licor é indeterminado.

Coonvém ressaltar também que são grandes as perspectivas

de utilização dos frutos na indústria de corantes

naturais, de bebidas isotônicas e de refrigerantes. Na

culinária doméstica, também apresenta multiplicidade de

usos, podendo ser utilizada no preparo de bolos, tortas,

cremes, pudins, docinhos e mouses.

Nas regiões Centro-Oeste, Sul, Sudeste e Nordeste do

Brasil, o padrão de consumo é completamente diferente

da Amazônia. No Pará, o açaí é consumido, principalmente,

como refeição principal, bebido puro ou misturado

com farinha de mandioca e/ou tapioca, com ou sem

adição de açúcar. Na cidade do Rio de Janeiro, por

exemplo, o açaí é consumido, com maior freqüência,

misturado com xarope de guaraná, misturado ou não

com outras frutas como: banana, laranja, morango, acerola,

mamão, abacaxi, manga, maracujá, abacate e kiwi.

Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto 15

Composição e Valor Nutricional do Fruto

O fruto do açaizeiro é uma drupa globosa ou levemente

depressa, com diâmetro variando entre 1 e 2 cm e

pesando, em média, 1,5 g e, quando maduro, pode ser

roxo ou verde, dependendo do tipo. O mesocarpo

polposo apresenta cerca de 1 mm de espessura, envolvendo

um endocarpo volumoso e duro que acompanha,

aproximadamente, a forma do fruto e contém, em seu

interior, uma semente com embrião diminuto e

endosperma abundante e ruminado. No entanto, podem

ser encontrados frutos com mais de um embrião.

A parte comestível do açaí, constituída pelo epicarpo e

mesocarpo, representam, em média, 26,54% do peso do

fruto. No entanto, há variações acentuadas, principalmente

em função da planta matriz. A maior parte do fruto é composta

pelo caroço ou endocarpo (Tabela 1), o qual contém em

seu interior, com freqüência, uma semente com eixo embrionário

diminuto e tecido de reserva rico em lipídios.

Tabela 1. Participação relativa do endocarpo e da parte

comestível (epicarpo + mesocarpo) na composição do

fruto de dez plantas-matrizes da coleção de germoplasma

de açaizeiro da Embrapa Amazônia Oriental.

Com relação à composição química da porção comestível

e da polpa industrializada, os resultados disponíveis são

discrepantes. Tal fato é explicado, em parte, pela alta

variabilidade genética da espécie. Outro aspecto que

deve ser considerado é que alguns autores incluem parte

das fibras alimentares dentro dos açúcares totais. Como,

durante o processamento da polpa, parte das fibras fica

retida na peneira, permitindo a passagem dos lipídios, é

comum encontrar dados em que o teor de lipídios na

polpa industrializada é maior que na parte comestível do

fruto. O contrário ocorre com os açúcares totais.

A parte comestível do fruto apresenta valor calórico de

262 kcal/100g, enquanto, na polpa industrializada,

dependendo principalmente da quantidade de água

adicionada durante o processamento, o valor energético

é menor, com 80 kcal/100g. O valor energético da

bebida ?açaí? é determinado, em grande parte, pelos

lipídios, haja vista que as quantidades de proteínas e,

principalmente, de açúcares totais são baixas (Tabela 2).

Além do valor energético, a polpa de açaí é um alimento

relativamente rico em minerais, especialmente em

potássio, cálcio, fósforo, magnésio e ferro (Tabela 2) e

em vitaminas E e B1.

Tabela 2. Componentes químicos encontrados em um

litro de polpa de açaí com 12,5% de matéria seca.

Coeficientes Técnicos

Na Tabela 3, encontram-se os coeficientes técnicos para

a implantação e manutenção de 1 hectare de açaizeiro,

até o quinto ano de plantio, em terra firme, no

espaçamento de 5 m x 5 m.

Tabela 3. Estimativas do custo de implantação e manutenção

de 1 hectare de açaizeiro em terra firme para

produção de frutos no Estado do Pará, até o quinto ano

de plantio (R$ 1,00).

Matriz Procedência

Epicarpo + mesocarpo

(%)

Endocarpo

(%)

311-5 Stº. Antônio do Tauá-PA 28,34 71,66

416-1 Chaves-PA 21,69 78,31

417-8 Chaves-PA 30,75 69,25

419-3 Chaves-PA 28,08 71,92

424-8 Chaves-PA 30,48 69,52

430-5 Chaves-PA 28,37 71,63

464-7 Breves-PA 24,51 75,49

477-9 Breves-PA 17,49 82,51

468-8 Breves-PA 29,36 70,64

547-3 Oiapoque-AP 26,37 73,63

Média 26.54 73,46

Fonte: Carvalho, J.E.U. de ; Oliveira, M. do S. P. de (dados não publicados).

Procedência1

Componente

Pará Maranhão

Lipídios totais (g) 62,4 40,7

Proteínas (g) 14,5 19,8

Açúcares totais (g) 3,8 4,8

Fibras totais (g) 32,1 43,8

Cálcio (mg) 417,5 596,3

Fósforo (mg) 210,0 322,5

Magnésio (mg) 161,3 157,5

Sódio (mg) 123,8 235,0

Potássio (mg) 915,0 1000,0

Cobre (mg) 1,8 2,8

Ferro (mg) 3,7 6,4

Zinco (mg) 1,9 3,7

Manganês (mg) 10,8 10,2

1. Frutos oriundos de acessos conservados na Coleção de Germoplasma de Açaizeiro

da Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, PA.

Fonte: Caroline (1999) citado por Rogez (2000).

Atividades Unid. Quant.

Custo unitário

(R$)

Custo total

(R$)

Preparo de área (1º ano)

Roçagem H/D 6 10,00 60,00

Coivara H/D 3 10,00 30,00

Piqueteamento H/D 1 10,00 10,00

Coveamento H/D 6 10,00 60,00

Adubação e preparo de covas H/D 3 10,00 30,00

Plantio H/D 2 10,00 20,00

Tratos culturais (1º ao 5º ano)

Roçagem manual H/D 50 10,00 500,00

Coroamento H/D 50 10,00 500,00

Cobertura morta H/D 50 10,00 500,00

Adubação H/D 10 10,00 100,00

Colheita e embalagem (4º e 5º anos)

Colheita dos cachos H/D 40 10,00 400,00

Debulha dos cachos H/D 20 10,00 200,00

Embalagem dos frutos para venda H/D 20 10,00 200,00

Insumos (1º ao 5º ano)

Aquisição de mudas Unid. 440 1,00 440,00

Adubos (sacos de 50kg) Saco 21 30,00 630,00

Esterco de gado curtido M3 10 150,00 1500,00

Herbicidas L 50 25,00 1250,00

Gastos eventuais (10%) 643,00

TOTAL 7.073,00

H/D: homem/dia

Fonte: Nogueira et al. (1995); Siqueira et al. (1998); Rocha Neto et al. (1999) adaptada pelo autor e informações de produtor.

16 Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto

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Comitê de

publicações

Expediente

Circular

Técnica, 26

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1a edição

1a impressão (2002): Tiragem: 300 exemplares

Presidente: Leopoldo Brito Teixeira

Secretária-Executiva: Maria de Nazaré Magalhães Santos

Membros: Antônio Pedro da Silva Souza Filho, Expedito

Ubirajara Peixoto Galvão, João Tomé de Farias Neto,

Joaquim Ivanir Gomes e José Lourenço Brito Júnior

Supervisor editorial: Guilherme Leopoldo da Costa Fernandes

Revisão de texto: Maria de Nazaré Magalhães dos Santos

Normalização bibliográfica: Célia Maria Lopes Pereira

Editoração eletrônica: Euclides Pereira dos Santos Filho

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA,

PECUÁRIA E ABASTECIMENTO

CGPE 3079

18 Cultivo do Açaizeiro para Produção de Fruto

Palavras-chave: Açaí | Cultivo | Mudas | Sementes | Agronegócio
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