
Santa Rita do Sapucaí tem ruas estreitas, casas antigas ou que parecem paradas no tempo, carros em ruas de paralelepípedos dividindo espaço com carroças, cavalos, fora a indefectível praça da igreja matriz. Um passar de olhos revelaria uma típica cidade do sul de Minas Gerais, não fosse ali um dos berços de avanços tecnológicos importantes, além de sede de fábricas de computadores, baterias para celulares e outros negócios ligados à área de tecnologia e que gera mais de 6 mil empregos e uma receita anual estimada em US$ 150 milhões.É lá também que fica o Inatel, o Instituto Nacional de Telecomunicações, que combina um instituto de ensino e centro de pesquisas e que, entre tantos outros projetos, está participando do desenvolvimento do padrão brasileiro de TV Digital.
O primeiro fruto concreto das experiências realizadas está na transmissão de sinais. Tenho a oportunidade de presenciar uma transmissão de um sinal digital de alta definição e que é exibido numa tela de plasma de 42 polegadas, alicerçado por moduladores que ajudam a mapear a clareza do sinal. A fonte é um pequeno transmissor, que está localizado na sede da Linear, não muito longe do prédio do instituto. A empresa, que é fabricante e revendedora de equipamentos de transmissão e parceira do instituto no projeto de TV Digital, já criou um protótipo funcional e que poderia atender às demandas técnicas de um padrão brasileiro.Na breve conversa com o professor Adonias Costa da Silveira, coordenador do projeto, dá para perceber que o instituto tem capacidade técnica plena para resolver os intrincados problemas que cercam a criação de um sistema brasileiro. Não é possível saber se o professor acompanha o vaivém político que cercou a questão e que pode tornar inútil o esforço dos pesquisadores do Inatel.
No último dia 19, o secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Paulo Lustosa, participando do Fórum Sobre Política de Telecomunicações, realizado pela Secretaria de Telecomunicações do Ministério, deu a entender que a criação de um sistema brasileiro pode ser descartada. A frase? Eu avisei na última reunião que se a TV digital não for entregue até 10 de dezembro, acabou o modelo brasileiro. A razão para o comentário ácido está no número elevado de grupos de trabalho criados pelo governo para analisar a questão. De fato, a pretexto de analisar todas as partes envolvidas, criou-se um sem número de grupos de análise e comissões que só fizeram atrasar o andamento dos trabalhos.
De seu lado, as transmissoras de TV e fabricantes de equipamentos eletrônicos pressionam por uma definição o mais breve possível, o que acabaria com o suspense que cerca essa novela há alguns anos e liberaria de vez os investimentos para a produção de novos conteúdos e para a compra de equipamentos de transmissão de sinais digitais, além dar a partida para um novo mercado de receptores para a TV aberta.Longe de entrar na discussão dos méritos de cada modelo (japonês, europeu ou americano), a verdade é que não importa realmente qual seria o sistema adotado do ponto de vista da geração e transmissão. Mas um sistema brasileiro seria viável e empresas como a própria Linear seriam capazes de atender à demanda nacional sem necessariamente criar um elefante branco tecnológico.
Do ponto de vista tecnológico, a preocupação dos pesquisadores é como criar canais de interatividade em cima dos sinais digitais, possibilitando não apenas a transmissão de sinais de alta definição, mas também um caminho consistente para a convergência de mídias, no que poderiam entrar canais de sinais sem fio, a telefonia celular e até mesmo a Internet. Outra questão que fica em aberto é se a TV Digital não teria o poder de mudar o modelo atual de funcionamento do mercado, ainda que seja muito cedo para especular sobre que novos modelos poderiam surgir de um sistema que ainda não existe (mas que o comportamento da mídia segmentada dos canais por assinatura já deixa alguns sinais). De início, quando o atual governo colocou novamente a questão da definição em suspenso, a reclamação foi geral. Este que vos escreve também se frustrou. Quando a demora no andamento do projeto de definição se acirrou, também me irritei. O processo político na visão do PT, de ouvir sempre as bases (todas elas), pode ate resultar em uma decisão mais democrática, mas atrasa muito quem tem sede e pressa de decisão. Então é compreensível que todo o mercado se volte para os coordenadores do projeto brasileiro de TV Digital pressionando por uma decisão. Mas, ao ver os resultados concretos do talento nacional na hora de desenvolver tecnologia, me pergunto se não seria o caso de considerarmos o trabalho de centros como o Inatel antes de tomar decisões das quais poderíamos nos arrepender mais tarde.
* Alexandre Barbosa viajou a Santa Rita do Sapucaí a convite da Phihong do Brasil
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