
A onda de mobilidade fez surgir um tipo de profissional no Brasil que até bem pouco tempo só tinha espaço no exterior: o designer de celular. De acordo com a responsável pela área de design da Motorola no Brasil, Beatriz Ardinghi, a valorização deste tipo de profissional começou há quatro anos, e hoje formatos e conceitos de aparelhos elaborados no País já são exportados para os laboratórios de desenvolvimento de modelos no exterior.
Os modelos C222 e C213, da Motorola, por exemplo, tiveram participação de idéias brasileiras. "A maioria dos desenhos sai dos centros no exterior, mas esses dois modelos tiveram pitaco nosso e foram vendidos pelo mundo afora", comemora Beatriz.
Ela conta que até mesmo quando o aparelho é desenhado no exterior, os laboratórios consultam o mercado local para dar ao celular a "cara da região". No caso da América Latina, por exemplo, os modelos são planejados para toda a região, cujos principais mercados Brasil, México, Argentina e Venezuela.
O trabalho de um designer de celular começa bem antes do planejamento de formas e cores, além de materiais a serem usados. Para começar, a fabricante informa para qual mercado o celular será vendido e para qual público-alvo. Muitas vezes o mesmo aparelho é vendido em países completamente diferentes. "Já me pediram para pensar em celular que seria vendido no Brasil e na China. Esse modelo está sendo elaborado agora e lançado em outubro", diz Beatriz.
O que é preciso para ser um designer de celular?
Para unir regiões com tantas diferenças culturais, os designers de celular precisam ter, acima de tudo, criatividade. Mas outras habilidades também são importantes, como idéias visionárias, elaboração de conceitos e saber identificar as necessidades do consumidor, como usabilidade, por exemplo. "A complexidade tecnológica do aparelho não pode ser levada para o design, não pode ser difícil usar o modelo", ressalta o designer de celular da Nó Design, Flávio Barão Di Sarno. "Outra importante qualidade é ter sensibilidade para estar antenado às tendências, comportamentos e com as pessoas", afirma.
A Nó Design foi contratada para desenhar o aparelho Blob, para a Easy Track, com funções simplificadas, voltado para um público jovem e para pessoas mais idosas. "Nunca tínhamos feito um projeto assim, mas foi bastante interessante porque tivemos que entender as necessidades dos diferentes consumidores. O que descobrimos para um determinado nicho de pessoas é que os celulares precisam ter funções mais simplificadas", revela Barão. O designer ressalta ainda que entre as tendências que serão vistas nos celulares do futuro estão telas touchscreen para facilitar a navegação, teclados um pouco maiores, unificar função de atender e desligar em um único botão e mais comandos de voz. "A nossa função como criadores é tornar as tecnologias de ponta algo acessível para o consumidor, algo que seja fácil de consumir", observa.
Formação prática
O Brasil ainda está engatinhando quando o assunto é a formação desses profissionais. Segundo Beatriz, da Motorola, ainda não há cursos específicos para formar designers de celular. A formação inicial é em Desenho Industrial, com ênfase em Produto. Quase todas as universidades do país oferecem esse curso.
Para formar estudantes com visão prática, a Motorola se uniu à ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial), que é um centro de educação superior em design vinculado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro, para criar o Motolab - o laboratório de idéias que a fabricante montou dentro da ESDI para que os alunos pratiquem o processo de criação dos aparelhos. "É lá que os alunos desenvolvam projetos piloto. Essas idéias, em alguns casos, são aproveitadas nos cases da Motorola", explica Beatriz.
Previões para o mercado de trabalho
A tendência, ressaltam os profissionais, são positivas. As empresas de telecom deverão ter designers de celular em seus escritórios locais, e não apenas nos centros de desenvolvimento de produtos em suas sedes. "Esse modelo ainda é novo, mas em pouco tempo deverá começar a ser adotado", indica Beatriz, da Motorola, que tem seu centro de desenvolvimento de produtos nos EUA e na Coréia, mas mantém uma unidade de design no Brasil.