UTILIDADE PÚBLICA
Dra. Dyléa Gaspar C Barros, Nutricionista, Coordenadora do Programa de Nutrição do Inst. Paulista de Cancerologia, Diretora da Empresa Bóia Fria Alimentos Cong. e Refrigerados Ltda.
Dra. Carolina Leipner de Oliveira, Nutricionista Especialista em Nutrição Clínica e Consultora Clínica do Programa de Nutrição do Inst. Paulista de Cancerologia pela CA Cinco Representação e Nutrição Ltda.
INTRODUÇÃO
A dieta tem grande influência sobre a saúde e a doença, dessa maneira é de fundamental importância na prevenção e no tratamento do câncer. Constata-se que mais de 30% dos casos estão associados à má alimentação (1). Por esta razão, o número de pesquisas científicas na área de alimentação e nutrição em relação ao câncer está aumentando significativamente no mundo todo. Portanto, a cada ano, novos alimentos são estudados e novas substâncias são evidenciadas com o propósito de auxiliar na prevenção e no tratamento oncológico.
DIETA NA PREVENÇAO DO CÂNCER
O volume de pesquisas na área expandiu-se, revelando assim, descobertas importantes sobre o poder de prevenção e auxilio as doenças através dos alimentos. O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos acredita que 80% de todos os casos de câncer podem ser prevenidos através da prática diária de bons hábitos alimentares e estilo de vida saudável.
A dieta na prevenção oncológica baseia-se fundamentalmente em uma dieta equilibrada como um todo, ou seja, que seus valores totais sejam adequados em macronutrientes (proteína, hidrato de carbono e gordura) e micronutrientes (vitaminas minerais), fibras e água. Sendo assim, é nesta dieta que estarão agregados em maior concentração os alimentos fontes de importantes substâncias utilizadas nos estudos de prevenção ao câncer.
Uma proposta de alimentação saudável, para prevenção das doenças crônicas não transmissíveis, há de propor dietas que estejam ao alcance da sociedade como um todo, e que tenham um impacto sobre os mais importantes fatores relacionados às várias doenças. Aumentar o consumo de frutas e verduras e estimular o consumo de arroz e feijão são exemplos de proposições que preenchem estes requisitos. Recente publicação do World Cancer Research Control (24), em conjunto com o American Institute for Cancer Research também enfatiza uma perspectiva global para a prevenção do câncer. Considera-se que modificações da dieta, em conjunto com a abolição do tabagismo, reduziriam em dois-terços a incidência global dos canceres.
Embora muitos estudos indiquem a importância de diferentes fatores da dieta como fatores de risco para canceres e diabetes tipo 2, a prevenção dos canceres e do diabetes é ainda incipiente mesmo nos países desenvolvidos (25,26).
Por outro lado, a obesidade é uma condição que aumenta o risco de morbidade para as principais doenças crônicas: hipertensão, dislipidemia, diabetes, doença coronariana, alguns tipos de câncer e colecistite e, embora não se conheça uma estratégia adequada de prevenção, sua prevenção e tratamento apresentam-se como um dos grandes desafios deste século (27). Incluir o consumo alimentar e a atividade física no âmbito de comportamentos para uma vida saudável é talvez a mais importante tarefa de promoção da saúde.
No estabelecimento das recomendações para a população brasileira, consideramos como relevante as intervenções referentes a prevenção da obesidade, das doenças cardiovasculares, câncer, diabetes tipo 2 e osteoporose e, quanto à definição dos nutrientes, foram incluídos aqueles cujos achados são mais consistentes na literatura: consumo de gorduras, com ênfase nas gorduras saturadas e trans, de ácido fólico, vitamina C e E, sódio, cálcio e no consumo de fibras.
Deve-se salientar, que o modo de preparo dos alimentos também faz parte das recomendações, principalmente quando se fala em vegetais, onde são encontradas as maiores fontes de vitaminas e minerais. Estes legumes e verduras, devem sofrer cocção a vapor, com o objetivo de minimizar perdas dos micronutrientes hidrossolúveis. Outra recomendação quanto ao consumo desses alimentos de origem vegetal é a ingestão das frutas, verduras e legumes na forma fresca, crua e pré-higienizada, para obter o maior aproveitamento do teor desses nutrientes. Indica-se nesta alimentação a ingestão de quantidades moderadas e fracionadas de alimentos, em média 5 refeições ao dia.
A proposta de uma dieta para a população brasileira, tem ainda, outros dois pressupostos: o resgate dos hábitos alimentares saudáveis próprios da comida brasileira e a identificação de alimentos, ou grupo de alimentos, cujo consumo deva ser estimulado e não restringido (não formular proibições) . O feijão é um destes elementos de resgate, pelo seu conteúdo em fibras, em ácido fólico e em ferro (28).
DESTAQUE DE NUTRIENTES NA DIETA PREVENTIVA ONCOLÓGICA
- Substâncias Antioxidantes
Possui como definição "qualquer substância que, presente em baixas concentrações quando comparada a do substrato oxidável, atrasa ou inibe a oxidação deste substrato de maneira eficaz" (29).
Esses agentes que protegem as células contra os efeitos dos radicais livres podem ser classificados em antioxidantes enzimáticos ou não-enzimáticos (Quadro-3) (30).
Quadro 3 ? Principais agentes de defesa antioxidante
|
NÃO-ENZIMATICO |
L-cisteina |
|
Alfa tocoferol (vitamina E) |
curcumina |
|
Beta caroteno |
|
|
Acido ascórbico (vitamina C) |
ENZIMATICO |
|
Flavonóides |
Superoxido desmutase |
|
Proteínas do plasma |
Catalase |
|
Selênio |
NADPH-quinona oxidoredutase |
|
Glutationa |
Glutationa peroxidase |
|
Clorofilina |
Enzimas de reparo |
Mecanismos de proteção
Os antioxidantes atuam em diferentes níveis na proteção dos organismos:
- O primeiro mecanismo de defesa contra os radicais livres é impedir a sua formação, principalmente pela inibição das reações em cadeia com o ferro e o cobre.
- Os antioxidantes são capazes de interceptar os radicais livres gerados pelo metabolismo celular ou por fontes exógenas, impedindo o ataque sobre os lipídeos, os aminoácidos das proteínas, a dupla ligação dos ácidos graxos poliinsaturados e as bases do DNA, evitando a formação de lesões e perda da integridade celular. Os antioxidantes obtidos da dieta, tais como as vitaminas C, E e A, os flavonóides e carotenóides são extremamente importantes na intercepção dos radicais livres.
- Outro mecanismo de proteção é o reparo das lesões causadas pelos radicais. Esse processo está relacionado com a remoção de danos da molécula de DNA e a reconstituição das membranas celulares danificadas.
- Em algumas situações pode ocorrer uma adaptação do organismo em resposta a geração desses radicais com o aumento da síntese de enzimas antioxidantes.
VITAMINAS ANTIOXIDANTES
Os alimentos contêm compostos oxidantes, os quais podem ocorrer naturalmente ou ser introduzidos durante o processamento para o consumo (31). Por outro lado, os alimentos, principalmente as frutas, verduras e legumes (Quadro 4), também contêm agentes antioxidantes, tais como as vitaminas C, E e A, a clorofilina, os flavonóides, carotenóides, curcumina e outros que são capazes de restringir a propagação das reações em cadeia e as lesões induzidas pelos radicais livres (32,33).
As vitaminas C, E e o beta-caroteno são consideradas excelentes antioxidantes, capazes de seqüestrar os radicais livres com grande eficiência. O uso de medicamentos, o tabagismo, as condições nutricionais, o consumo de álcool, a poluição do ar e outros fatores podem diminuir os níveis de antioxidantes celulares. As defesas antioxidantes do organismo podem ser restabelecidas com dietas apropriadas e suplementos vitamínicos (34).
A vitamina E encontra-se em grande quantidade nos lipídeos, e evidências recentes sugerem que essa vitamina impede ou minimiza os danos provocados pelos radicais livres associados com doenças específicas, incluindo o câncer, artrite, catarata e o envelhecimento. A vitamina E tem a capacidade de impedir a propagação das reações em cadeia induzidas pelos radicais livres nas membranas biológicas. Os danos oxidativos podem ser inibidos pela ação antioxidante dessa vitamina, juntamente com a glutationa, a vitamina C e os carotenóides, constituindo um dos principais mecanismos da defesa endógena do organismo (35)
A vitamina A é um fator importante no crescimento e na diferenciação celular. Além disso, tem apresentado ação preventiva no desenvolvimento de tumores da bexiga, mama, estômago e pele, em estudos realizados com animais. Estudos epidemiológicos também mostraram que o consumo regular de alimentos ricos em vitaminas A e C pode diminuir a incidência de câncer retal e de cólon. O beta-caroteno, o mais importante precursor da vitamina A, está amplamente distribuído nos alimentos e possui ação antioxidante.
FLAVONÓIDES ANTIOXIDANTES
Entre os antioxidantes presentes nos vegetais, os mais ativos e freqüentemente encontrados são os compostos fenólicos, tais como os flavonóides. As propriedades benéficas desses compostos podem ser atribuídas à sua capacidade de seqüestrar os radicais livres. Os compostos fenólicos mais estudados são: o ácido caféico, o ácido gálico e o ácido elágico. Esses compostos de considerável importância na dieta podem inibir o processo de peroxidação lipídica (36).
O ácido elágico, encontrado principalmente na uva, morango e nozes, tem sido efetivo na prevenção do desenvolvimento do câncer, ajuda a conservar as membranas celulares (37).
MINERAIS ANTIOXIDANTES
O estresse oxidativo tem sido freqüentemente relacionado às fases de iniciação e promoção do processo de carcinogênese. As enzimas antioxidantes, dependentes de selênio e zinco, que antagonizam esse processo estão em níveis baixos nas células tumorais (38).
Tem sido demonstrado que os tumores apresentam menores concentrações da enzima superóxido dismutase dependente de zinco e cobre em comparação aos tecidos normais (Grigolo et al., 1998). Além do selênio, o zinco é freqüentemente mencionado na literatura como um mineral "antioxidante" envolvido nos mecanismos celulares de defesa contra os radicais livres (39,40)
Níveis reduzidos de selênio, um elemento traço essencial para os seres humanos e animais, nas células e tecidos têm como conseqüência concentrações menores da enzima antioxidante glutationa peroxidase, resultando em maior suscetibilidade das células e do organismo aos danos oxidativos induzidos pelos radicais livres (41).
2. Fibras
As fibras na dieta promovem peristaltismo mais freqüentes, aumentando o bolo alimentar e reduzindo o tempo de permanência no órgão. A fibra são polissacarideos (celulose e hemicelulose) não digeríveis pelas secreções digestivas humanas, mas de extrema importância dietética por evitar distúrbios comuns do cólon, como a constipação intestinal, a diverticulose, o câncer, a hiperlipoproteinemia e o diabetes.
O papel protetor das fibras destaca-se na prevenção do câncer de intestino grosso (cólon e reto). O consumo dietético de fibras afeta o consumo de carnes, gorduras e carboidratos refinados, além disso as fibras interferem na microflora intestinal e no metabolismo de sais biliares que são estão envolvidos na carcinogenese do intestino (42).
3. Aminoácidos
A glutationa aparenta ter um efeito trófico sobre a mucosa intestinal e é seu substrato nitrogenado primário. O uso específico deste aminoácido tem duas vantagens principais: melhora a função da barreira intestinal e aumenta a capacidade absortiva, podendo ser utilizado por via oral, enteral e parenteral.
A arginina é um aminoácido essencial para a resposta imune, promovendo o crescimento e a replicação dos linfócitos T e a retenção de nitrogênio. Também possui papel no apoio nutricional durante o processo de cicatrização. Sob circunstâncias normais, o corpo produz arginina em quantidades suficientes para atender a demanda; entretanto, em caso de estresse induzido pela cirurgia, por um trauma ou por doenças graves torna a suplementação necessária (43).
Estudos realizados indicam que altas doses administrativas in vitro melhoram os parâmetros de função linfocítica, incluindo aumento de linfócitos-T Helper e aumento da atividade das células Killer. No entanto, estudos clínicos ainda estão em andamento. (44).
4. Ácidos graxos
A composição da gordura dietética também tem efeito na imunidade, em particular os ácidos graxos polinsaturados como o Omega-3, que constituem um importante componente de todas as membranas das celulares. Quando estão funcionando bem, essas membranas modulam favoravelmente a produção eicosanóide, que por sua vez reduz o risco de uma resposta inflamatória e melhora as funções imunes. A proporção entre ácidos graxos Omega-6 e Omega-3 nas membranas celulares é dinâmica e depende fortemente da ingestão desses ácidos graxos na dieta. Quando essa proporção torna-se muito alta, as membranas celulares não conseguem funcionar bem (45). Uma fonte dietética de ácidos graxos Omega-3, especialmente o DHA e o EPA, torna-se importante para otimizar a resposta imune.
Embora cada um dos nutrientes tenha, individualmente, importantes funções imunomodulatórias, pode haver benefícios decorrentes da sua combinação em si. O trauma aumenta significativamente as prostaglandinas inflamatórias, assim como os ácidos graxos Omega-6. Esse processo inflamatório aumenta a expressão da arginase I, produzindo uma depleção de arginina. Recentes estudos in vitro sugerem que há uma beneficio sinérgico na complementação com combinada de ácidos graxos Omega-3 e arginina. As prostaglandinas da complementação com ácidos graxos Omega-3 atenuaram o aumento da expressão de arginase I, aumentando assim os níveis de arginina diponivel (46).
Considerações da dieta no tratamento oncológico
As estratégias de tratamento para os pacientes com câncer devem ter como objetivo tentar reverter à desnutrição associada à caquexia e melhorar as opções de tratamento. O suporte nutricional constitui uma arma terapêutica essencial para que esse paciente possa se submeter ao tratamento clássico, e deve ser instituído tão logo seja diagnosticada alterações do estado nutricional para prevenir a perda de peso e desnutrição.
A utilização do suporte nutricional em pacientes com câncer deve ser de forma racional, individual e irá depender da identificação dos pacientes que se encontram desnutridos, ou daqueles que em função do tratamento correm o risco de desenvolver desnutrição grave. O suporte nutricional adequado a curto prazo no pré-operatório, diminui consideravelmente a incidência de complicações pós-operatórios (47).
Os cuidados com a nutrição devem acompanhar os hábitos alimentares dos pacientes e aprimorar ao seu costume com as devidas correções.
O suporte nutricional pode ser feito por três vias, ou seja, a via oral, enteral ou parenteral. Cada método tem suas indicações precisas e adequadas. Havendo condições, sempre a via mais fisiológica é a ideal. Dessa forma, a via oral é a mais preferida para os pacientes que a podem utilizar, pois é a melhor via para despertar o apetite dos mesmos.
PROGRAMA DE NUTRIÇÃO DO INSTITUTO PAULISTA DE CANCEROLOGIA ? LINHA DE REFEIÇÕES ESPECIAIS PRONTAS PARA O CONSUMO APLICADAS NA DIETA PREVENTIVA E DURANTE O TRATAMENTO ONCOLÓGICO.
O Instituto Paulista de Cancerologia (IPC), implantou o programa IPC Nutri, que consiste na elaboração e aplicação de uma linha de refeições com o propósito de auxiliar no tratamento e na prevenção do câncer.
O desenvolvimento desta linha de dietas visa satisfazer com qualidade as necessidades e expectativas daqueles que buscam a prevenção do câncer e dos que estão em tratamento oncológico, bem como pode servir de apoio à família dos pacientes.
Os ingredientes que fazem parte da composição destas dietas, principalmente os de origem vegetal, são importantes fontes de substâncias que atuam protegendo o sistema imunológico, auxiliando processos fisiológicos, participando do combate aos radicais livres, além de ser uma dieta nutricionalmente equilibrada, que auxilia na educação alimentar.
Os alimentos aplicados no cardápio são fundamentais fontes de vitaminas e minerais, fibras, aminoácidos essenciais, óleos essenciais e substâncias indicadas pelas mais recentes pesquisas cientificas de prevenção ao câncer. Além disso, as dietas possuem uma excelente apresentação, com o propósito de estimular o apetite dos pacientes.
Neste programa de dietas estão incluídos refeições , sopas e consomes.
Os pacientes deste programa de nutrição são atendidos individualmente, a fim de melhorar a adequação de sua alimentação e acompanhar o estado nutricional. Este atendimento consiste na absorção de dados pessoais, patologias associadas, anamnese nutricional, avaliação antropométrica, diagnóstico nutricional, conduta dietoterápica e acompanhamento periódico da evolução do paciente.
O suporte nutricional deve ser empregado de forma racional, individual e depende da identificação dos pacientes que se encontram desnutridos, ou que em função do tratamento correm risco de desenvolver desnutrição grave.
|