
Revoltado com caso de discriminação racial contra seu irmão, de 13 anos, o estudante negro de jornalismo Dante Baptista, de 20 anos, mostrou a cara, encarou a burocracia e fez a primeira denúncia de racismo online da história do Brasil.
Em um ?passeio de rotina? pelo Orkut, site de relacionamentos da empresa Google, Baptista percebeu recados racistas no livro de visitas de seu irmão. Assustado, apagou as mensagens e foi conversar com o garoto que, apesar de estudar em uma escola particular, onde a presença negra ainda é ínfima, nunca havia sido vítima deste tipo de crime. A mãe dos rapazes, a enfermeira Maria Aparecida Baptista, também participou da conversa em que a família decidiu levar o processo adiante.
Racismo
Os recados eram oriundos de uma comunidade contra cotas para negros nas universidades ? parte de uma política criada nos Estados Unidos, batizada Ação Afirmativa, que busca integrar minorias à educação superior. O grupo de discussões foi criado por Arthur White, pseudônimo de um estudante de engenharia de 18 anos, da faculdade Mackenzie. Sob a conclamação ?Vingue-se no pretinho!?, White pregava: ?se você já foi atacado por algum maldito que se julga herói, está na hora de se vingar e não tenha pudores ou dor na consciência. Descarregue toda tua fúria nesse pobre pretinho inocente. Clique e vingue-se!?.
Ao invés de fazer um boletim de ocorrência na delegacia mais próxima, atitude comum entre as vítimas de crimes de qualquer espécie, Dante Baptista procurou a ONG Sociedade Afro-Brasileira de Desenvolvimento Sócio-Cultural (AFROBRAS) e deu entrada em um processo no Ministério Público (MP), com o auxílio do advogado, jornalista e presidente da ONG ABC Sem Racismo, Dojival Vieira.
Poucos meses depois, Baptista viu o caso estampado em veículos de grande repercussão, como Folha de S. Paulo, Jornal da Globo e até The New York Times. ?Essa matéria do NYT foi muito esquisita. Um deputado negro do PT, Sebastião Vieira, que eu vi uma vez na vida no MP, foi o único que falou com um advogado americano que, por ser negro também, gostou da idéia e foi atrás de publicar. Só que nem me procurou. A matéria deu a impressão de que foi o Vieira quem fez tudo no processo e que a gente (família) havia pedido uma indenização milionária. Mentira, fizemos pela causa, pela cor; ninguém está pedindo esmola?.
Crime
No dia 03 de junho, o promotor Christiano Jorge Santos entrou em contato com a família para informar que Arthur White estava prestando depoimento. ?É um moleque. No depoimento, disse que queria passar uma imagem de diferente. Abriu uma comunidade contra Cotas para Negros, provavelmente um negrão ganhou a vaga dele e ele ficou irritado. Só que ele cometeu um crime sério. Não tem moleque que sai por aí e bate o carro do pai? Ele cometeu crime de racismo?, afirma Baptista.
Apesar de confessar o crime, o acusado não pôde ser preso em flagrante, porque cometeu o crime quando ainda era menor de idade. A acusação lembra que, mesmo após a maioridade, White deu continuidade ao crime, o que o enquadraria como réu comum. ?Mesmo uma comunidade como o Orkut, que tem mecanismos para coibir a existência de usuários anônimos e fantasmas, é também muito vulnerável. Se eu quiser amanhã entrar como Ronaldinho Gaúcho, não há, a príncipio, nada que me impeça. Essas brechas na segurança permitem todo tipo de discriminação: contra homossexuais, negros, judeus, nordestinos...?
Discriminação
De fato, se pesquisarmos no Orkut, não é difícil encontrar comunidades como ?Odeio a Bahia e os baianos?, ?Odeio bichas?, ?Odeio putas e viados (sic)?, ?Odeio gays e bichas?, ?Odeio judeus?. Como muitas dessas comunidades têm sido denunciadas e banidas do site, os moderadores de novas comunidades racistas têm ?escondido? sua real intenção, com nomes como ?Os pretos?, que traz na descrição as palavras: ?pretos, negos safados, afro-brasilero, criolos (sic) desgraçados?. A comunidade criada por Arthur White já foi excluída, assim como ele próprio. Contatados pelo WNews, representantes do Google não se manifestaram quanto à política da empresa em relação ao assunto.
Enquanto isso, Dante Baptista faz críticas à legislação quanto à Internet no Brasil: ?Precisa haver uma legislação específica para a Internet. Mesmo que não descarte a Legislação real, a virtual pode servir como uma ?segunda opinião?, uma forma de amparar a Legislação vigente?. Quando perguntado se não tem medo do neonazismo paulistano, que já mostrou a face em alguns assassinatos, ele responde, sério: ?Tenho sim. Tenho medo que peguem meu irmão quando ele sair na rua, ou que venham atrás de nós. Mas é assim, ou a gente bate ou apanha. Não me arrependo em momento nenhum de levar isso adiante?.