O empreendimento
2.1 Como surge o empreendimento
A idéia de um empreendimento surge da observação, da percepção e analise de atividades, tendências e desenvolvimentos, na cultura, na sociedade, nos hábitos sociais e de consumo. As oportunidades detectadas ou visualizadas, racional ou intuitivamente, das necessidades e das demandas prováveis, atuais e futuras, e necessidades não atendidas definem a idéia do empreendimento.
Pode surgir também mediante contratos especializados nos vários ramos de atividade, em círculos de conhecimento tecnológico de conhecimento mercadológico como complementação ou associação.
A concepção de um empreendimento, por vezes, nasce de habilidades, gosto e outras características pessoais, até mesmo por pessoas que não tiveram experiência como ramo, inovando ou criando novas formas de negócio.
Um caso atual é o da Dell Computer, cujo fundador Michael Dell, no inicio dos anos 90, então estudante de medicina, montava computadores pessoais e vendia. Idealizou e modelou um negocio que revolucionou a indústria de computadores nos EUA e em cerca de 10 anos assumiu as primeiras posições, desbancando varias empresas tradicionais no setor.
Normalmente, a idéia de empreender é concretizada de cinco formas:
· Montagem de um empreendimento;
· Compra de uma empresa em funcionamento;
· Sociedade num novo empreendimento;
· Sociedade num empreendimento em funcionamento;
· Franquia, muito utilizada quando não se conhece o ramo, o que economiza muitas etapas e estudos, alem de diluição de riscos.
2.1.1 O empreendedor
A farta literatura disponível e a definição predominante da figura do empreendedor conduzem ao traçado de um perfil característico e típico de personalidade em que se destacam:
· Senso de oportunidade;
· Dominância;
· Agressividade e energia para realizar;
· Autoconfiança;
· Otimismo;
· Dinamismo;
· Independência
· Persistência;
· Flexibilidade e resistência a frustrações;
· Criatividade;
· Propensão ao risco;
· Liderança carismática;
· Habilidade de equilibrar ?sonho? e realização;
· Habilidade de relacionamento.
Sem a necessidade de mais detalhes, no momento, à medida que o assunto seja desenvolvido, ficara cada vez mais patente que, sem uma boa dose dessas características de personalidade, é difícil imaginar o progresso de um empreendimento. Portanto, este é o primeiro passo ao empreender; uma auto-avaliação honesta, realista e criteriosa.
2.1.2 Origens
Há um mito de que não é possível desenvolver o empreendedorismo; deve-se nascer empreendedor. Isso não é verdadeiro, tomando-se por base uma análise mais criteriosa dos vários empreendimentos existentes, independentemente de sua etapa evolutiva.
Existem várias circunstâncias que dão origem a um empreendimento e ao surgimento do empreendedor que podem ou não se relacionar aos traços de personalidade.
- O empreendedor nato
Esta figura é a personalização integral do empreendedor que, normalmente, desde cedo, por motivos próprios ou influências familiares, demonstra traços de personalidade comuns do empreendedor. O desenvolvimento de tal vocação tem forte relação como tipo de autoridade familiar e o ambiente motivacional familiar, tais como escala de valores e percepção de negócios.
- O herdeiro
Pode ou não possuir as características do empreendedor. Se empreendedor por afinidade e vocação, da continuidade ao empreendimento em que se encontra desde cedo em treinamento, o que é comum. Não tendo características empreendedoras e ?treinado?, por imposição, desde cedo, pode vir a ser um problema para a continuidade da empresa.
- O funcionário da empresa
Podendo possuir características de empreendedor, sente ao longo da carreira um desequilíbrio e falta de reconhecimento entre suas contribuições e recompensas, ou então falta de interesse em suas idéias ou interferência da burocracia da empresa. Frustrado em suas necessidades de realização pessoal, em algum momento de sua carreira decide partir para um negocio próprio.
- Excelentes técnicos
Com características de empreendedor, dispõe do conhecimento, de know-how sobre algum produto ou serviço e, possuidor de experiência no ramo decide iniciar um negocio próprio.
- Vendedores
Usualmente, entusiasmados pela dinâmica de suas funções cotidianas, como conhecem o mercado tem experiência no ramo, iniciam negócio próprio em indústria, comércio ou serviços.
- Opção ao desemprego
Uma modalidade de empreendimento arriscada que, por questões circunstanciais, finda por ser adotada; pode ter dois desdobramentos:
- Com características empreendedoras, há possibilidade de sucesso;
- Sem características empreendedoras, tem chance de sucesso, dependendo de como a oportunidade é encarada.
Se a opção for aguardar outra possibilidade de emprego, diminui ou elimina qualquer chance de sucesso do empreendimento.
- Desenvolvimento paralelo
O funcionário, como alternativa futura, tendo características empreendedoras, estrutura-se entre amigos e familiares e desenvolve um negócio derivado de sua experiência ou não, ou associa-se a outro ramo de atividades como sócio capitalista.
- Aposentadoria
Com experiência adquirida, e devido a idade precoce com que o mercado marginaliza pessoas, inicia um negócio próprio, usualmente em comércio ou serviços, se não é oriundo da área de vendas ou produção.
2.1.3 Motivação
Entre muitas motivações e razões objetivas e subjetivas para empreender encontram-se predominantemente as seguintes:
· Necessidade de realização;
· Implementação de idéias;
· Independência;
· Fuga da rotina profissional;
· Maiores responsabilidades e riscos;
· Prova de capacidade;
· Auto-realização;
· Maior ganho;
· Status;
· Controle de qualidade de vida.
Dependendo do grau de importância e da escala relativa de pesos que a cada pessoa atribui a cada uma das motivações, independentemente do grau de persistência e obstinação típicas do empreendedor, os custos e benefícios pessoais adquirem graus de conflito diferenciados.
2.1.4 Custos e benefícios
É necessária uma forte aproximação do perfil empreendedor para que se possa iniciar uma empresa, pela complexidade da decisão, pelos problemas e riscos típicos da atividade. O empreendedor enfrenta problemas vindos dos lugares mais inesperados e inusitados, é surpreendido frequentemente e, dependendo da origem, pode até estar despreparado para tais situações.
As motivações de caráter econômico ou psicológico, que levam uma pessoa a empreender têm como contrapartida custos econômicos e emocionais que se não bem refletidos, cuidados e trabalhados findam em situações paradoxais e delicadas. Além dos custos econômicos, próprios do risco empresarial, os seguintes custos emocionais surgem com influências maiores conforme o peso relativo na escala de motivações individuais.
- Solidão
A total imersão nos negócios, notadamente nos estágios iniciais da empresa, usualmente leva as pessoas e se isolar dos contatos sociais, das atividades de recreação e até dos contatos importantes dos negócios, onde se torna difícil encontrar pessoas que entendam do ramo para troca de idéias. Esse isolamento normalmente se estende à família e às relações mais próximas que, se não cuidadas, criam situações de conflito.
- Status
Além do desejo de empreender, existem pressões implícitas e explicitas, quanto à imagem projetada dos valores e dos símbolos sociais, que também devem ser considerados.
- Sacrifícios pessoais
A necessidade do negócio exige concentração e muitos recursos. Longas jornadas de trabalho, os fins de semana e as férias habituais devem ser considerados.
- Segurança
Um negócio é sujeito a muitas oscilações. A perda de relativa segurança e do bem estar conseqüente, típicos de situações de emprego, é outro fator que deve ser muito bem avaliado.
- Responsabilidade e pressão
Estar envolvido em todos os aspectos do negócio, ter que tomar decisões delicadas e complexas, assumindo todas as responsabilidades, além da variedade de problemas, gera um pressão pessoal acentuada.
- Atritos e conflitos
Se houver sócios ou familiares na empresa, cada um tem valores e padrões próprios do que seja trabalho produtivo, sobre as prioridades, do que seja importante etc., o que, se não for muito bem definido e estruturado nas relações desde o início, cria situações emocionais e fatalmente conflitos.
- Custo de oportunidade
É o quanto se deixa de ganhar por exercer uma opção pessoal.
É facilmente perceptível a carga emocional contida em cada um dos ?custos? apontados, além do que o empreendedor tende a ver a empresa como uma realização ou obra sua; portanto, é difícil separar o componente emocional.
Há como lidar com esses problemas e conflitos? Esses custos são inevitáveis e previsíveis, notadamente nas primeiras etapas do negócio, mas podem ser minimizados conforme a postura do empreendedor, sua preparação para o negócio e a atenção a todas as variáveis que geram tais problemas.
Não deixa de ser um contexto apropriado para o stress, pois, além das características da personalidade do empreendedor, o envolvimento físico e emocional acaba por ultrapassar os limites individuais, a solidão internaliza os problemas e não há com quem compartilhar.
Dessa maneira, a organização de atividades fica prejudicada, pois o envolvimento em tudo e a pressão por estar sempre certo é forte.
2.1.5 O que diferencia um empreendedor bem-sucedido?
As características da personalidade empreendedora, uma correta modelagem do negócio e um planejamento bem elaborado aumentam as chances de sucesso de um empreendimento; então, por que se encontram insucessos, mesmo atendendo a todos os quesitos? O que é relevante e diferencia um empreendedor bem-sucedido?
Rotineira e popularmente, empreendedores bem-sucedidos são vistos como pessoas com ?tino?, com ?visão?, ?visionários?, ?líderes?, além do que empreendedor tem a conotação de realizador, enérgico e persistente.
Ao pesquisar em qualquer dicionário o significado de cada termo e observar a seqüência de qualquer empreendimento, dosados os ingredientes de personalidade, verifica-se que o processo de empreender passa por 3 etapas: criatividade, modelagem e realização.
Em todas as etapas há uma conjunção entre ?visão e visionar?, o que combina idéias, conceitos, alternativas e imaginação, com relação à visão do modelo de sistema, suas particularidades e o tipo de empreendimento que viabiliza os objetivos pretendidos.
Somente a visão basta? O sucesso do empreendedor também depende do equilíbrio entre ?visionar? e realizar e para que isso ocorra é preciso que todo processo esteja amparado em pilares sólidos:
§ O desenho do modelo e sua congruência, o que depende de valores, atitudes, formação e intenções, os quais devem ser coerentes, balanceados e encadeados no modelo;
§ A energia despendida em termos de tempo alocado, intensidade e conhecimento para que o modelo funcione e atinja os resultados esperados;
§ A liderança do processo que juntamente com os demais cataliza a idéia e guia os envolvidos, dando direção e significado as ações.
§ o relacionamento harmônico das variáveis, integrações, articulações, comunicações e relações interpessoais que assegura equilíbrio no modelo.
Nota-se que somente traços de personalidade e boas idéias são insuficientes para o sucesso, porquanto há que se sedimentar todos os ingredientes, num todo coeso, encadeado e harmônico.
2.1.6 Espírito empreendedor genuíno
Significa responder realística e honestamente às seguintes questões:
§ Ser empreendedor ou estar empreendedor?
§ Há conhecimentos e consciência de todas as características?
§ Há pontos fracos que precisam ser melhorados?
§ Há consciência dos custos em relação aos possíveis benefícios?
§ Há preparação pessoal para o empreendimento?
Professor Elcio Laiter - Empreendedorismo
Fonte-Manual de Empreendedorismo e Gestão
Luiz Antonio Bernardi-Atlas 2003 |