
BERLIM (Reuters) - Michael Kurz clica em um programa de computador e pressiona a tecla para um dó médio em um teclado próximo. O computador realiza milhões de cálculos em alta velocidade e o som de um órgão Hammond B-3 é emitido pelos alto-falantes.
Músicos de jazz, blues e rock há muito demonstram imenso carinho pelo som, peculiar do órgão Hammond B-3, mas se queixam de arrastar o instrumento, que pesa cerca de 130 quilos, para suas apresentações -- se é que eles têm dinheiro para comprá-lo, para começar. Os avanços tecnológicos agora permitem que os computadores recriem o som de instrumentos tradicionais como o B-3 por uma fração de seu custo original. A Native Instruments, uma empresa de Berlim, vem interpretando papel chave nessa revolução do software musical. O que estamos fazendo só se tornou possível quando os computadores ganharam velocidade suficiente, diz Kurz, criador do software B4 da empresa, que simula o som de um B-3. Apenas nos últimos cinco a sete anos tornou-se possível realizar processamento em tempo real.
Esse avanço quer dizer que um computador moderno não gera atraso perceptível entre o acionamento da tecla e a produção do som criado pelo computador, que necessita de cerca de quatro milhões de cálculos por segundo para gerar o som trêmulo de um B-3. Outros programas, em lugar de usarem o computador para criar sons, executam amostras gravadas de instrumentos reais, de modo que um computador potente oferece reproduções quase perfeitas do som de um piano de concerto ou de um violão.
FIM DA LINHA PARA OS SINTETIZADORES?
A Native Instrumentos, que se autodenomina a maior produtora de software de sintetização musical do mundo, tem uma equipe de 55 funcionários, entre os quais um russo, alguns norte-americanos, e muitos holandeses e alemães.
Kurz, o criador do software B4 -- muito querido por entusiastas de todo o mundo -- parece ter saído diretamente do departamento de elenco de um filme sobre o rock dos anos 70. Usa uma camiseta tingida e cabelos longos e cacheados que fariam inveja a Robert Plant. Já outros funcionários da empresa se parecem mais com o público da Love Parade, a celebração da música techno que acontece a cada verão em Berlim.
A pergunta chave para a Native Instrumentos e empresas semelhantes é se o software está prestes a fazer com os órgãos e sintetizadores aquilo que os processadores de texto fizeram com as máquinas de escrever.
No estúdio, isso já aconteceu, em muitos casos, diz Craig Anderton, músico e autor de muitos livros sobre música eletrônica. Isso é especialmente verdade para os instrumentos de época, difíceis de encontrar e manter em ação.
Mas no palco, os instrumentos tradicionais continuarão a ser populares por algum tempo ainda. Um motivo para o avanço lento do software no palco é a natureza instável dos computadores, e sua aparência inócua.
Os velhos órgãos também têm seus defensores, embora as versões sintetizadas atuais soem quase idênticas. A Hammond lançou seu órgão B-3 original em 1955, com sons produzidos por 96 rodas de tamanhos variáveis agindo em conjunto e acionadas por um teclado de dois andares e pedais de baixo. No entanto, com o boom dos sintetizadores nos anos 80, a Hammond encerrou a produção do B-3 original.
Agora, os projetistas de software e a empresa que sucedeu à Hammond original estão agindo com relação ao conselho de Laurens Hammond, de procurar inspiração no passado.
A coisa inteligente para um inventor é misturar os velhos truques já usados, ele disse certa vez. Um novo B-3, a ser lançado pela Hammond Suzuki do Japão, custará 23,17 mil dólares. O software B4, que produz sons muito semelhantes com um computador auxiliado por uma placa de som e um teclado de piano, está à venda por 200 euros.
A Hammond poderia abrir um processo, mas é uma empresa amistosa e não vai fazê-lo, disse Michael Maier-Falkenstein, gerente geral da Hammond Suzuki na Alemanha, Áustria e Europa Oriental. Mas se o B4 realmente conquistar um grande público, talvez façamos alguma coisa. A Native Instrumentos diz que não existe direito autoral sobre sons, e que seu produto é legal mesmo que ganhe prêmios por reproduzir com perfeição um B-3.
Outros fabricantes de instrumentos parecem resignados a ver o software ganhar papel dominante na música eletrônica. A mudança virá, mas não será de 100 por cento, diz Tsutomu Katoh, chairman da Korg, uma fabricante japonesa de sintetizadores, à Reuters. As pessoas continuarão a tocar usando sintetizadores, diante do público.
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