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Entrevista - Revista Free Time - Fev/Mar 2009
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Atualizado em 29/07/2009

Medir o tempo sempre fez parte da evolução da humanidade.Ao longo dos séculos houve uma grande evolução a partir do sol como referencia natural dos dias até chegarmos aos relógios de quartzo, césio e até maser de hidrogênio, super precisos.

Nessa edição conversaremos com Mauro Lucchini, colecionador e restaurador de relógios antigos.

 

 

Free Time - Fale-nos um pouco sobre como e quando começou sua coleção.

 Lucchini    - Em verdade não era muito fã de relógios, porém sempre fui apaixonado por mecânica e em uma noite em que revirava meus guardados encontrei um relógio de meu avô, já falecido, que estava em péssimo estado de conservação, foi um mixto de sensações, estava enebriado pelas lembranças boas dos momentos com meu avô e certa tristeza ao ver o relógio naquele estado. Pensei comigo: Se ele estivesse aqui o relógio jamais estaria nessas condições.

Resolvi consertar o relógio e percebi como era difícil encontrar profissionais que fizessem o trabalho, fui desencorajado e aconselhado a desistir, os ?relojoeiros? diziam que não compensava ou não conseguiria.

Tomei aquilo como um desafio. Comecei a frequentar relojoarias e fornituras nos tempos vagos, conversar com o pessoal da velha guarda, comprei material, ferramentas, literatura de época especializada até encontrar um professor aposentado que dava aulas de relojoaria no SENAI nos anos 70, me apaixonei pelos relógios e dai em diante não parei mais. Quando me senti confortável restaurei o relógio que está comigo até hoje como novo.

 

1)      Free Time  - Porque essa escolha, relógios?

Lucchini - Creio que o relógio consegue reunir muitas ciências e qualidades num únco objeto. Ele reune tecnologia nos mecanismos, matemática aplicada nos cálculos de engrenagens, física aplicada no cálculo do movimento dos pêndulos, a beleza do design,  elegância e o valor da jóia, é uma obra de arte quando feito à mão, pode ser um instrumento de trabalho, uma peça decorativa, uma referência. O relógio acompanhou o desenvolvimento da civilização, evoluiu com ela. Quando o carro era apenas uma carroça com um motor rudimentar o relógio era o objeto de desejo masculino e sinônimo de status.

2)      Free Time  - De quantos itens ela é composta?

Lucchini - Se formos considerar as peças prontas, funcionando, são cerca de 120 peças. Considerando os que estão em processo de restauração passam de 400 peças.

3)      Free Time  - Quais os mais raros?

Lucchini  - Bom, posso citar um relógio Alemão pré 1920 da marca Glashütte da série especial Julius Assman que meu pai encontrou no lixo sem a caixa de ouro, obviamente a pessoa derreteu o ouro e jogou o mecanismo intacto no lixo, tem louco pra tudo!

 

4)      Free Time  - E os mais ?estranhos??

Lucchini  - Estamos restaurando um relógio de pedestal inglês que funciona com a variação da pressão atmosférica e da temperatura, se utiliza das propriedades do mercúrio e tinha a proposta de não precisar de corda. Realmente não precisa, mas exige manutenção constante e é muito delicado, por isso são poucos em funcionamento hoje.

5)      Free Time  - O sr possui algum favorito?

Lucchini - É difícil ter um favorito, muitas das peças são de uso meu, não há destino mais digno para um relógio do que o uso, ao contrário do que muitos pensam, deixar o relógio parado danifica muito mais do que o uso constante. Certamente que o relógio de mau avô tem um carinho especial, afinal, além da origem é o início de tudo, da coleção, da empresa (Lucchini Restaurações), da associação (ABRACORE) etc.

 

6)      Free Time  - O sr também restaura os relógios, fez algum curso para tal?

Lucchini  - Infelizmente não existem mais cursos no Brasil, aprendi muito com velhos profissionais, muita leitura e acima de tudo, praticando muito. Eu comprava lotes de sucata para treinar a técnica aprendida em livros. Uma das dificuldades é que como o relógio reune várias ciências, é preciso também conhecê-las para poder restaurar o relógio corretamente. Para fazer um simples pivô você precisa dominar a técnica de usinagem de metais, têmpera e somado à isso a dificuldade da dimensão das peças. Para a restauração de mostradores antigos é preciso ser um artista para repintar números, conheceros materiais, tintas, solventes etc. Se a caixa de um relógio é de madeira e está comprometida outra mão de obra especializada é necessária, pesquisa de madeiras, vernizes de época, técnicas de entalhe, enfim, muita pesquisa, dedicação e tempo empregado.

 

7)      Free Time  - Onde o Sr. busca novas aquisições?

Lucchini - Boas oportunidades aparecem a todo momento, basta estar atento. Se existe um segredo para boas aquisições é estudar, conhecer o assunto, avaliar internamente as peças, saber se os defeitos são superficiais, se as peças podem ser consertadas e isso não se sabe da noite pro dia.

Com o advento da internet o mundo está à sua disposição, você consegue encontrar peças à venda no mundo todo, e não tenha dúvida, se eu encontrar algo interessante para mim ou para tirar algumas peças para meus restauros eu compro mesmo, hoje, com um pouco de cuidado a compra on-line é muito segura.

 

8)      Free Time  - O que o sr poderia nos contar sobre os relógios e sua história através dos tempos?

Lucchini - De tudo o que se sabe e já está publicado o que mais me fascina é o que anda não descobrimos. Só para citar um exemplo, se acreditava que os mecanismos modernos  dos relógios datavam do ano de 1500 D.C. em diante, porém, depois da descoberta do ?Mecanismo de Antiquitera? num naufrágio na Grécia datado de aproximadamente 100 A.C. acho que ainda há muito a se descobrir. O mecanismo é mais complexo que muitos relógios atuais, tem funções que se acreditam ser astronômicas, mas nem os cientistas tem certeza. Leio publicações do mundo todo e  também já restauramos relógios para muitos paises, cada restauração é um desafio, não é raro recebermos mecanismos com mais de 200 anos e passarmos meses estudando o seu funcionamento antes de restaurar pois não há referência alguma publicada sobre a peça. Se algum profissional disser que conhece tudo sobre o assunto está faltando com a verdade.

 

9)      Free Time  - O Sr. é membro fundador da ABRACORE, Associação Brasileira de Colecionadores e Restauradores de Relógios, como funciona essa entidade?

 

Lucchini - Quando nós concebemos a idéia da ABRACORE , hoje uma entidade legalmente constituida, pensamos em uma entidade que pudesse reunir o máximo de informações sobre o relógio e sua restauração, uma fonte de referência e consulta para colecionadores e profissionais do ramo e também pudesse oferecer algo à sociedade. Como esse mercado é gigantesco e muito carente de profissionais nós idealizamos parcerias com outras fundações e associações para ensinar alguns segmentos da restauração a menores carentes. Os menores aprendem marcenaria artística aplicada à confecção de novas caixas de relógio de mesa, parede, carrilhões, fazem estojos personalizados em madeira de reflorestamento e reciclada. Estudantes de cursos de usinagem aprendem a usar seu conhecimento na confecção de engrenagens de relógios caixas e aros de metal, enfim, é uma gama enorme de aplicações.

Importante ressaltar que a ABRACORE é sem fins lucrativos e o resultado obtido com as restaurações é repassado integralmente aos menores.  Inclusão Social é isso. O ponto fundamental nesse processo é avalorização do ser humano, resgate de valores como respeito mútuo, respeito à hierarquia, civilidade, patriotismo, enfim, formação do cidadão de bem. Isso é Responsabilidade Social.

Nossa página da Internet tem o primeiro museu virtual do relógio da América Latina, é um museu aberto, dinâmico e democrático, todo mundo que tem uma peça rara pode enviar os dados e fotos para ser disponibilizado nesse museu. Tão importante quanto os dados do relógio em sí é a história que o envolve, essas peças carregam histórias de família e merecem ser resgatadas e publicadas. A página conta com informações e artigos sobre o relógio e sua história.

Há uma seção de classificados gratuitos onde focamos não só o comércio de relógios e ferramentas mas abrimos a oportunidade para que profissionais da área ofereçam seus serviços e consequentemente onde colecionadores busquem serviços.

A nossa biblioteca virtual disponibiliza artigos, literatura técnica, catálogos, revistas e demais publicações da área, tudo isso com o cuidado de respeitar os direitos autorais, priorizamos obras que já são de domínio público.

Existem ainda a seção de eventos, cidadania e qualquer pessoa pode se cadastrar e contribuir com informações, artigos, fotos e qualquer material que queira doar à ABRACORE, basta se cadastrar gratuitamente no site. A partir do próximo ano vamos publicar um periódico aos cadastrados com todo o universo da relojoaria, contamos com os colaboradores para sujestão de pauta e matérias.

Mauro Lucchini

Conselheiro - ABRACORE

www.abracore.org.br

 

Palavras-chave: Restauração | Coleção Conserto | Relógios Antigos | Carrilhão | Relojoaria
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