A ESTRATIFICAÇÃO
Na falta de mudas de certas espécies no mercado, tanto pela raridade quanto pelo alto preço cobrado, compensa em muito começar com sementes. Algumas dessas espécies podem precisar de estratificação.
O que é estratificação?
A estratificação é um tipo de quebra de dormência aplicado a sementes de espécies de clima temperado.
Ela pode ser natural ou artificial. Esta última visa simular com temperaturas na faixa de 1 a 3°C (refrigeradores) e pelo tempo certo o que ocorre na natureza.
A química da estratificação
O clima temperado possui as estações muito bem definidas. A produção de sementes nessas áreas ocorre sempre no outono, mas como o inverno é muito frio e nivoso nenhuma planta pequena sobrevive, assim as sementes esperam quietinhas sob a neve (como se sabe, a neve é um isolante térmico, abaixo dela a temperatura raramente é inferior a 0°C), mantendo-se assim intactas para germinar na primavera. Isso assegura a sobrevivência da espécie.
E como é que as sementes fazem isso? É um mecanismo lapidado com a evolução, a natureza é simplesmente perfeita. Mas antigamente este era um mistério sem precedentes, acreditava-se que elas tinham alguma "inteligência" ou germinavam por interferência divina, pouco tempo depois foi suposta a existência de um "relógio biológico". Há séculos jardineiros europeus tentam germinar estas sementes em estufas aquecidas durante o inverno, resultado: nunca germinam. Descobriu-se então que o responsável pela germinação não era o calor da primavera, mas sim o frio do inverno. Recentemente este mistério foi em parte elucidado pela descoberta do inibidor Ácido Abscísico (ABA), presente em grande quantidade no embrião destas sementes, e que em baixas temperaturas por alguns meses torna-se instável e acaba por ser degradado. Supõe ao ABA a existência de dormência em sementes de clima temperado. Sendo verdade ou não, vamos trabalhar com esta hipótese.
Nossa estratificação terá em vista abaixar os níveis de ABA e assim obter a germinação tão almejada.
Obs.: Existem outras formas de dormência fisiológica que não envolvem ABA, tais como a imaturidade do embrião ou inibidores diversos, onde a estratificação também poderá ser indicada.
A estratificação é realmente necessária?
Depende. Ela é indispensável para algumas espécies, sem o qual não germinam, como os Acers. Em outras é opcional, como nos Pistaches, Zelkovas, algumas espécies de Pinus, Sequoias, Ginkgo, etc.
Este "opcional", é algo muito comum na literatura norte-americana, mas moldá-lo às condições climáticas tropicais foi um desafio. São sementes que possuem dormência leve, exigem apenas temperaturas amenas (uma ampla faixa de 5 a 25°C) o que também varia bastante de espécie para espécie. Tais faixas de temperatura no entanto não existem em algumas regiões, e mesmo no sul e sudeste podemos ter problemas com a viabilidade das sementes ao aguardar a estação apropriada. Assim com testes chegamos a um consenso de quais dessas "opcionais" devem ser estratificadas e quais não precisam, logo estas sementes poderão ser semeadas em qualquer região do Brasil e em qualquer estação do ano (conforme instruções).
O melhor exemplo é o Ligustrum japonicum, nativo do Japão (clima temperado), adaptou-se perfeitamente ao clima tropical, mas ainda guarda necessidades de sua origem, suas sementes precisam de temperaturas amenas para germinar, na ausência destas basta estratificar para obter os mesmos resultados.
Como fazer a estratificação?
Na natureza a estratificação ocorre sob a neve, nos climas tropicais e subtropicais a estratificação deverá ser feita na geladeira. (IMPORTANTE: não use freezer ou congelador, apenas geladeira).
O processo é simples, só exigirá um pouco de paciência e tempo.
Os métodos variam muito, porém os mais importantes são: umidade certa + temperatura certa + tempo. O substrato, posição ou forma como serão dispostas as sementes não faz diferença, será da preferência e dos materiais disponíveis de cada um.
Passo-a-passo:
1) Ponha as sementes de molho em água (temperatura ambiente) por 6 a 12 hs. Em seguida seque-as levemente com um papel toalha.
2) Você pode usar qualquer recipiente para estratificar as sementes: vaso, saquinho plástico, zip-lock, potinho de filme fotográfico, pote de margarina, devidamente limpos, e que possam ser fechados. Pode usar também um substrato: terra esterilizada, vermiculita ou até papel toalha, previamente umedecidos, de forma que não esteja encharcado nem seco demais. Pode-se também não usar nenhum substrato (só as sementes), particularmente acho mais fácil assim. Qualquer um destes métodos é igualmente efetivo. Lembre-se: apenas umidade certa + temperatura certa + tempo
3) Misture as sementes no substrato, ponha no recipiente, feche-o e leve à geladeira. No caso de não usar substrato é ainda mais simples, é só pegar as sementes (depois do molho e enxugadas) pôr no recipiente, fechá-lo e levar à geladeira.
4) O sinal de que estratificação está completa é quando um número razoável de sementes começa a eclodir na geladeira. Isso significa que os níveis de ABA foram apropriadamente reduzidos. Autores indicam a eclosão de pelo menos 15%. Do contrário mantenha-as até o tempo máximo (conforme instruções). Se uma ou outra germinar antes do tempo deverá ser retirada e plantada à sombra.
5) Passado o tempo máximo, retire as sementes e semeie-as normalmente à sombra, aguarde eclosão em 15-30 dias.
Considerações Importantes:
Umidade: Não deixe as sementes úmidas demais. Na dúvida, é melhor tender ao seco do que ao encharcado.
Temperatura: 1-3°C, geladeira. Não deixar congelar.
Assepsia: É importante que o recipiente esteja limpo, assim como o substrato (caso use).
Boatos:
Molho em água a 39°C por 8 horas: Algumas pessoas afirmam que o molho em água (antes da estratificação) deve ser feito a tal temperatura. Primeiro: não há como controlar a menos que tenha um termômetro e fique ali 8 hs na frente das sementes controlando. Segundo: não há absolutamente nenhuma referência verdadeira a tal procedimento em livros sobre o assunto. Por fim: na natureza isso não ocorre, o umedecimento das sementes é feito pelas chuvas do outono ou com o degelo da neve durante os veranicos.
Aplicação de GA3: Esse é o ácido giberélico. Não funciona para a maioria das espécies de clima temperado, testamos em sementes de Acers, Sequoia, Taxus, Fraxinus, Populus, Picea, Pinus e outras, em estudo com testemunhas e procentagem variando de 50 ppm a 2000 ppm, o GA3 não demonstrou resultados positivos, as testemunhas foram melhores. Este procedimento também carece de estudos, não há literaturas a respeito. Conclusão: a estratificação é ainda o melhor método de quebra de dormência em tais espécies.
Molho em água por 3 meses: Um picareta que vendia sementes no Mercado Livre indicava às pessoas a pôr as sementes em água e colocar na geladeira por 3 meses. Não se deve colocar sementes em água por mais que 12 hs, a menos que seja uma espécie aquática, do contrário o embrião morrerá. Nenhum dos clientes que compraram sementes com tal vendedor conseguiu resultados, mas infelizmente tais instruções foram postadas às cegas na internet. Caso encontre-as não siga-as.
Tirar a asinha ou a casca da semente de Acer: Tirar a asinha é indeferente. Quanto à sâmara, é preferível que não retire-a, ela serve como proteção biológica e mecânica e nada impede na germinação.
Autor: Leonardo Oliveira
Data: 16/03/2008 |