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O que faz um filme ganhar o Oscar?
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Atualizado em 07/08/2008





Pensar em tudo que está por trás do Oscar de ?melhor filme? chega a ser engraçado ? a menos que você leve essa questão muito a sério. Louis B. Mayer e outros fundadores da Academia de Hollywood, ao criar esse prêmio, tinham em mente homenagear as verdadeiras obras de arte, e não apenas atrair mais público ou incentivar apostas sobre quem seriam os ganhadores.



Ao propor a idéia de ?melhor filme?, a Academia plantava a insinuação de que a indústria cinematográfica se esforça ao máximo para produzir trabalhos de boa qualidade. Hoje, todos sabemos que setores da indústria estão mais interessados em fazer dinheiro do que em teorias sobre o valor da arte. Mas sempre haverá um ?melhor filme do ano?, não importa qual seja o padrão geral das produções de cada temporada.



Ainda que todo mundo na indústria se dispusesse a produzir material de má qualidade (e em certos anos chega-se mesmo a acreditar que haja uma conspiração nesse sentido), um desses míseros pedaços de celulóide será premiado com a estatueta de melhor filme ? exatamente como aconteceu naquele ano de 1952.



Não quero ofender ninguém, mas seria uma tortura ter de assistir de novo hoje à superprodução ?O Maior Espetáculo da Terra?. Sim, este foi o filme que ganhou o Oscar em 52, e foi também o de maior bilheteria. Obviamente, esse resultado deu ao diretor/produtor Cecil B. DeMille o reconhecimento que a sua auto-importância exigia.



Com muito boa vontade, pode-se argumentar que a Academia premiou o filme porque este era um sincero e comovente tributo ao mito e à exuberância do show business. É um bom argumento ? mas, se você aceitá-lo, por que a Academia não escolheu ?Cantando na Chuva?, feito naquele mesmo ano, e que até hoje é uma delícia de se ver?



A melhor resposta é que muitos dos votantes de então estavam errados. E já está na hora de se admitir que esse tipo de eleitor, assim como a população que vai ao cinema em geral, também é capaz de errar, o que vale igualmente para todos nós. Em minha extensa pesquisa para este artigo, não encontrei nenhuma explicação melhor para as decisões da Academia do que esta: ?Eles erraram, e pronto?.



Isso, porém, não significa que a arte do erro também não seja fascinante. Por exemplo, em 1955, algum imbecil espalhou por Hollywood a seguinte idéia: ?Não seria ótimo se fizéssemos filmes sobre pessoas comuns com vidas vazias, daquelas que são tolas demais para serem mostradas num filme?? Pois é, toda idéia estúpida tem o seu momento, e neste caso seu nome era ?Marty?.



John Cassavetes dedicou décadas de sua vida a levar adiante suas crenças, com muito mais coração e inventividade, mas raramente foi agraciado pela Academia. Por isso, ?Marty? ganhou o Oscar de melhor filme, enquanto ?Juventude Transviada?, uma excelente criação baseada no drama dos jovens em idade colegial, foi simplesmente ignorada. Ainda bem que não adiantou muito: o filme estrelado por James Dean foi um sucesso muito maior do que ?Marty?, e continua sendo até hoje.



Mas naquele mesmo ano, ?A Noite do Iguana? não foi apenas ignorado, foi desdenhado. A tal ponto que Charles Laughton desistiu da idéia de continuar sendo diretor, e Robert Mitchum saiu com a forte impressão de que ser ator é pura perda de tempo. Hoje, é voz corrente que ?A Noite do Iguana? é melhor do que todos os que ganharam Oscar de ?melhor filme? na década de 50. Como se vê, estar errado significa que, mais cedo ou mais tarde, você terá de corrigir as coisas.



Não, não estou sugerindo que a Academia devesse deliberadamente apontar suas falhas mais graves. A coragem desse pessoal caminha em outra direção. Exemplos: condenar os campos de concentração nazistas 50 anos depois (?A Lista de Schindler?), homenagear a cultura indígena depois que ela praticamente desapareceu (?Dança com Lobos?), reconhecer que o mundo artístico do século 16 era fantástico (?Shakespeare Apaixonado?). Essa coragem pode, agora, chegar até o ponto de premiar um filme como ?Boa Noite, e Boa Sorte?, de George Clooney, que ousa desafiar a ortodoxia antitabagista da Nova América.



Outras regras muito abrangentes são evidentes quando se fala dessas premiações. Para ser escolhido, o filme tem que ser bem aceito na indústria como um todo, mesmo que seja no nível em que se aceitou ?O Paciente Inglês?, por exemplo. Melhor ainda se for mais bem aceito do que se imaginava antes do lançamento. Mas o sucesso estrondoso e vulgar pode complicar as coisas: ?O Senhor dos Anéis? teve que esperar seu terceiro episódio para ganhar como ?melhor filme?.



Ultimamente, um filme pode até ofender a América convencional ? estou falando de ?Beleza Americana?. Esse foi um avanço: de repente, a ofensa não existia mais. Mas hoje, quando tão poucos de nós vamos regularmente ao cinema que esse hábito é quase elitista, ofender já se tornou obrigação.



O sentimento de autoconfiança também tem seu apelo. A vida é dura (ainda que lucrativa) para Hollywood, e por isso são bem-vindos os filmes que nos fazem sentirmo-nos melhor (como ?Melhor É Impossível?); ou aqueles em que a política redime a honra da família (caso de ?Gladiador?), embora isso seja puro nonsense; ou ainda quando o barco afunda, mas o amor permanece (?Titanic?); ou quando os perdedores estão do lado da virtude, principalmente se foram exterminados (?Coração Valente?).



Em se tratando de uma comunidade geralmente liberal, que nunca precisa testar esse liberalismo correndo riscos, a época do Oscar serve para atitudes que realçam a decência e a responsabilidade ? contanto que façam uma boa quantidade de dinheiro. É o caso, este ano, de ?Syriana?, um filme que condena a ganância e a corrupção, embora sua trama seja impossível de acontecer na realidade.



O que estou tentando dizer é que o ganhador de ?melhor filme? na maioria das vezes não é algo que você queira ver de novo um ano depois. Mas os escolhidos ajudam a nos sentirmos bem naquele momento, e você já deve ter percebido que a vida política nos EUA tem a ver com aquilo que se está sentindo hoje. Por isso, eu não me surpreenderia se em fevereiro os cinco indicados a melhor filme do ano fossem ?Munique?, ?Boa Noite, e Boa Sorte?, ?Capote?, ?Walk The Line? e ?Syriana?.



Qual é a lição? Pode ser esta: o mundo está indo de mal a pior, mas o mundo do entretenimento continua de coração aberto, e esse coração está cheio de amor. Nunca se esqueça: o melhor filme é aquele que faria Louis B. Mayer sentir-se bem (e superior). Em outras palavras, os melhores filmes americanos do ano (por exemplo, ?Marcas da Violência? e ?Match Point?) são freqüentemente aqueles que espalham dúvidas e incertezas.



* © VARIETY



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Palavras-chave: O | Que | Faz | Um | Filme
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