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Filmes para todas as idades
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Atualizado em 07/08/2008









Eram pouco mais de 11h30 da manhã, num sábado frio de novembro, e a fila diante de um multiplex no Brooklyn já dobrava o quarteirão. Meus amigos e eu tentávamos nos proteger contra o vento. Era meu dia de folga, mas fui incumbido de fazer hora-extra acompanhando três estudantes ? um deles do jardim de infância ? a uma sessão de ?O Expresso Polar?. O objetivo era sentir suas impressões vendo o filme ao lado de um crítico de cinema adulto.



A missão acabou sendo um fiasco. Fomos enganados por um website que prometia uma seção especial da fantasia neotradicionalista high-tech de Robert Zemeckis. Aqueles cidadãos atrás de nós na fila estavam ali para ver ?Bob Sponja?, que havia estreado no dia anterior diante de elogios da crítica, e também ficaram frustrados. Quando conseguiram chegar à bilheteria, as duas primeiras seções já estavam esgotadas. Mas nenhum de nós se desesperou. Depois de uma breve consulta a meus jovens colegas, comprei quatro ingressos para ?Os Incríveis?, que três de nós já tinham visto mas queriam ver de novo. Se essa escolha não desse certo, poderíamos ter tentado ?National Treasure?, mas felizmente escapamos disso.



Milhões de pessoas pelo país afora têm passado os fins de semana diante de escolhas como essas. Mais de metade das salas de cinema no multiplex do Brooklyn estavam ocupadas naquele dia por filmes com censura G ou PG (liberados para crianças), todos com farta propaganda nos canais de TV infantis e a maioria deles com expectativa de agradar também ao público adulto. Na manhã da 2a. feira, os números confirmaram, mais uma vez, o crescimento da cultura pop voltada às crianças.



?National Treasure?, uma aventura produzida por Jerry Bruckheimer e estrelada por Nicolas Cage, saiu na frente com receita de 35 milhões, seguida de ?Bob Sponja? com cerca de 32 milhões. ?Os Incríveis?, depois de dois fins de semana seguidos no primeiro lugar, acrescentou mais 26 milhões, somando o total de 175 milhões. E ?O Expresso Polar? que já havia sido declarado o fracasso do ano em termos de filme para a família, ainda assim manteve-se em quarto lugar, superando a marca de 50 milhões. Apenas dois filmes de ação estavam entre os cinco primeiros, e só um deles ? a continuação de ?Bridget Jones? ? se destinava aos adultos.



Esses números são uma crua medida de um fenômeno cultural que, nos últimos anos, vem se tornando comum: diversão infantil é o que sustenta hoje a indústria do cinema nos EUA, não apenas comercialmente mas artisticamente também. O filme mais lucrativo do ano foi ?Shrek 2?, já lançado em DVD, assim como no ano passado foi ?Procurando Nemo?. E o ogro verde parece destinado a seguir os passos do peixe cor de laranja na lista dos dez mais da crítica neste fim de ano, com certeza acompanhado da família de super-heróis de ?Os Incríveis?. Enquanto isso, a mistura de ação, efeitos especiais e literatura juvenil que determinou o sucesso da série ?Harry Potter? parece que irá se repetir com a estréia em dezembro do primeiro de sabe-se lá quantos filmes da série ?Lemony Snicket?, estrelada por Jim Carrey.







Tudo isso me faz lembrar daquele sábado e daquela fila no Brooklyn. Todos os adultos que eu podia ver ali estavam acompanhados de pelo menos uma criança. E as bilheterias de filmes como ?Procurando Nemo?, ?Shrek 2? e ?Os Incríveis? sugere que muitos adultos estão comprando os ingressos, indicando que a mistura de gerações está se tornando norma. Se esses filmes refletem uma mudança de hábitos, ou se são a causa do fenômeno, é mais ou menos como a questão do ovo e da galinha. Executivos de cinema e produtores que estão na faixa dos 30 aos 40 anos (como este crítico) pertencem a uma geração que parece presa aos prazeres culturais de sua infância. Olham com prazer para brinquedos e seriados de TV que os alimentaram quando eram mais jovens.



Não por coincidência, a cultura do pai-filho ? frase que acredito não existia quando eu era criança ? mudou de tal forma que contribuiu para o surgimento do gosto compartilhado entre pais e filhos. Além de criar, alimentar, vestir, ensinar boas maneiras e disciplina, agora temos que ser companheiros de nossos filhos, participando de sua vida diária de uma maneira que deveria parecer esquisita, ou até inconveniente, para nossos pais e avós.



Tudo aquilo que pertence a eles ? os jogos, as brincadeiras, os livros, os DVDs e os videogames ? parece que deve também nos pertencer. Há ainda uma grande zona de cultura pop que a maioria dos pais não se arrisca a entrar, como o Yu-Gi-Oh, mas o terrenos comum parece maior do que isso. Há filmes que devemos enfrentar pelo bem de nossas crianças ? coisas como ?Pokemon? ou ?Rugrats?, por exemplo ? mas quanto mais nos divertimos ao lado deles parece que também foram filmes feitos para nós.



Fico pasmo quando vejo esses filmes anunciados como feitos ?para a criança que existe em todos nós?. Parece que os de maior sucesso são aqueles que se prendem justamente às diferenças entre as gerações, mesmo que tentem agradar a todo mundo. Alguns, como os dois ?Shrek? ? e também o recente ?O Espanta Tubarões?, produzido pelo mesmo estúdio, a DreamWorks ? constroem essas diferenças como algo entre sofisticação e inocência. As crianças ficam com a fantasia, enquanto pais e mães raciocinam sobre as sutilezas humorísticas e alusões à cultura pop, o que inclui o uso de superstars na dublagem dos desenhos.



?Bob Sponja?, por exemplo, leva essa estratégia ao extremo, mantendo um clima de alto astral adulto, quase como uma forma de subversão. O mundo submarino criado por Stephen Hillenburg é original e, ao mesmo tempo, um pastiche de reconfigurações e coisas emprestadas de outros filmes. A primeira vez que vi Bob Sponja na TV (aliás, onde ele se sente mais à vontade), tive a sensação estranha de já tê-lo visto antes. Ou seja, se esses filmes se destinam mesmo a toda criança que existe dentro dos adultos, tentam atingir também todo adulto incipiente que existe dentro das crianças: quando jogam piadas sobre a sua cabeça, você tem algum motivo para crescer como pessoa. Claro, seus medos, frustrações e desejos também crescem, incluindo a nostalgia da infância, alimentada pelo cinema moderno.



?O Expresso Polar? ? que vi com meus filhos alguns dias depois ? é repleto dessa nostalgia, que de certa forma o anula. Como o livro de Chris Van Allsburg em que o filme é baseado, o diretor Zemeckis transforma em celebração um pacote de coisas fora de moda; ele usa tecnologia digital de ponta para celebrar velhas tecnologias, como o trem de passageiros, o fonógrafo e a câmara pneumática, mas exagera tanto no conceito de ?magia? que não consegue atingir o verdadeiro encantamento.



O filme tem seus bons momentos, como a corrida do trem sobre o mar gelado e o herói procurando um bilhete levado pelo vento, mas ao final não há muito o que dizer. E a vontade de comentar um filme após assisti-lo, pelo menos na minha família, é algo que adultos e crianças adoram.



Até agora, ?Os Incríveis? é o filme mais falado do ano, e não apenas na minha casa. Vendo-o pela segunda vez, ficou claro para mim que é uma grande obra visual ? mas na verdade trata-se de dois filmes que foram perfeitamente separados, como imagens em espelhos. Do meu ponto de vista, é uma aventura organizada em torno do prazer de se ter super-poderes, o que é exatamente como se sentem Violet e Dash, os jovens incríveis. Para mim, porém, o filme trata também da crise da meia-idade. Chega a ser comovente a forma como aborda aspectos da vida de casal ? o medo que o parceiro tem de ser traído, a ligação entre vitalidade sexual e satisfação no trabalho. São aspectos raramente mencionados nos filmes de ação destinados ao público maduro. Pode ser que estejamos diante de uma nova definição de entretenimento familiar: a família inteira pode ver o filme junta, mas cada um de seus membros irá enxergá-lo de modo diferente.



* © THE NEW YORK TIMES







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Palavras-chave: Filmes | Para | Todas | As | Idades
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