Os serviços de governo eletrônico são uma das melhores alternativas para promover a inclusão digital. O e-gov consiste na oferta de serviços públicos por meio da Internet. Alguns exemplos são boletim de ocorrência e certidão negativa, por exemplo. Outras possibilidades são a marcação de consultas médicas pela Web e até mesmo a realização de consultas online. Para especialistas, o avanço do e-Gov está intimamente ligado à oferta de banda larga no País, tecnologia que deve popularizar à medida que o poder público começar a oferecer mais serviços eletrônicos para a população. "O governo é o agente propulsor. Não basta termos infra-estrutura, é preciso ter serviços para o cidadão e a oferta desses serviços depende da quebra de barreiras no próprio setor público. Agendar consultas médicas pela Internet exige uma quebra de paradigma de processos do setor de saúde, por exemplo", diz Renato Guerreiro, consultor de telecomunicações.
De acordo com uma pesquisa realizada pela consultoria IDC e pela Cisco, atualmente o Brasil tem mais de 4,7 milhões de conexões à Web em banda larga, com taxa de penetração de 2,2% na população do País. "O governo é o driver deste crescimento por dois motivos. Primeiro porque ele precisa ter um plano de eficiência para serviços públicos e segundo porque ele é o articulador da direção que o País tomará", destaca Rafael Steinhauser, presidente da Cisco Brasil. "Com a tecnologia, você pode aumentar a qualidade dos serviços públicos sem aumentar custos", ressalta.
Chile
No Chile, por exemplo, há diversas iniciativas de e-Gov, incluindo aplicações de telemedicina, como telecardiologia. No interior do país, para agilizar o atendimento e reduzir o número de óbitos, eletrocardiogramas são enviados pela Internet para especialistas que fazem o diagnóstico do paciente e indicam o tratamento. "Todos os hospitais e consultórios da área de saúde são conectados por banda larga, via IP", afirma Pedro Garcia, ex-ministro da saúde do Chile.
Outra aplicação de telemedicina no Chile é o uso de webcams para visitas virtuais a pacientes internados em hospitais distantes de suas casas. "Como o país é comprido, o acesso é difícil, gasta-se muito tempo e dinheiro. Instalamos esses equipamentos em colégios e hospitais. Com isso familiares podem acompanhar o tratamento de seus doentes", conta Garcia. Na Inglaterra, o governo mantém um site e um call center que orientam a população com dicas de saúde. Por mês, os atendentes recebem 600 mil ligações e o site tem 1 milhão de visitantes mensais.
O Chile também conta com 34 pontos de videoconferência espalhados pelo país, por meio dos quais o governo federal realiza videoconferências com autoridades regionais. Com o sistema, o governo economizou os custos de 28 passagens aéreas e hospedagem, viagens que aconteciam quatro vezes ao ano para promover reuniões. "Hoje o Chile tem 70 mil funcionários na saúde pública e a idéia é que todos tenham sua conta de e-mail. A proposta é democratizar o acesso à informação, enviando comunicados diretamete para cada funcionário. Hoje em dia as fronteiras das relações estão se rompendo", analisa Garcia, acrescentando que o projeto de e-Gov do Chile consome US$ 10 milhões por ano. A taxa de penetração de banda larga naquele país é de 4,9%.
Brasil
No Brasil, iniciativas de e-gov ainda estão nos primeiros passos. Mas há projetos de telemedicina, por exemplo, em andamento. "Telemedicina não é prover um serviço à distância, é criar uma estratégia para combater a causa", declara Chan Lung Wen, coordenador de telemedicina da USP (Universidade de São Paulo) e participante de diversas iniciativas do governo na área. Segundo Wen, telemedicina não é sinônimo de tecnlogia de ponta.
Ele usa como exemplo a realização de teleconferências para apresentar procedimentos cirúrgicos ou para buscar uma segunda opinião médica. "Essa prática, por exemplo, está ligada à humanização, a mostrar a cirurgia para médicos. É simples, poupa dinheiro do estado e dissemina o conhecimento", justifica. "Pesquisas indicam que deslocamentos desnecessários custam até cinco vezes o valor do tratamento do doente. Na Amazônia, o transporte de um doente custa seis passagens de avião", completa. A aposta do professor é que nos próximos três anos o País tenha novas aplicações de telemedicina surgindo. "O Brasil começou há três anos, é relativamente novo. Estamos na fase de estruturação do governo. Posso dizer que a falta de uma rede de banda larga para integrar soluções é o principal problema hoje", pondera.
De acordo com o Ilário Dassie, diretor da Software AG - uma das organizadoras de um evento sobre e-Gov que acontece em outubro, em Santiago, Chile -, uma pesquisa sobre governo eletrônico realizada pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e pela Software AG mostrou que há iniciativas do tipo no Brasil, mas elas são desiguais. "Há cidades super alinhadas com o que está acontecendo com o mundo e outras estão atrás. Os Estados Unidos são referência em governo eletrônico, especialmente a Califórnia. Mas isso varia muito de país para país", constata Dassie.
O executivo reforça o coro em defesa da implantação de solulções de e-gov porque, segundo ele, o governo eletrônico aumenta a arrecadação de impostos e diminui os gastos do setor público, além de disseminar a informação. Para Dassie, a principal barreira para o desenvolvimento desta prática é cultural. "Acho que a grande dificuldade é o governo sentar e analisar como as coisas são feitas, determinar o fluxo de processos e depois mudar isso", opina.