
A troca de arquivos musicais pela internet foi a primeira grande explosão do som pela rede. Mas outras se seguem, usando a mesma filosofia de dividir, compartilhar e somar. Agora, a própria criação é bafejada pelo espírito internético, e surgem grupos que produzem músicas a partir de retalhos transmitidos pela rede.
Eles rejeitam a filosofia da propriedade intelectual, do copyright, a que opõem o copyleft e o uso de programas de código aberto. A música não é de ninguém e é de todos: trocando pedaços das canções, eles remixam, adicionam gravações e trocam andamentos.
Um exemplo é o coletivo Re:Combo, que começou em 2001 como um grupo de música eletrônica que tinha como ponto em comum o apreço pela tecnologia e a falta de tempo, diz o pernambucano H.D. Mabuse.
Foi ele quem, ao lado do DJ Tarzan, desenvolveu o conceito original. Para combater essa falta de tempo, escolhemos como modus operandi a composição remota, com troca de arquivos de computador entre seções de gravação em casas diferentes, basicamente a casa de DJ Tarzan e a minha.
Usando os programas Acid e Fruity Loops, eles trocavam trechos musicais no formato WAV. Depois de fechadas, as músicas eram gravadas em MP3 e OGG (o formato MP3 em sua versão de código aberto, open source).
Como decorrência natural do projeto, e para evitar a troca dos arquivos em CD-R, criamos um site, onde as musicas eram oferecidas para download, em formatos abertos, dentro do espirito da licença GPL (Licença Pública Genérica) do GNU, conclui.
O grupo reúne DJs, professores de história, artistas plásticos, advogados, jornalistas, animadores, programadores e músicos de todos os cantos do Brasil. Há pólos na Bahia, no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Rio Grande do Norte e em Pernambuco.
Os participantes têm um interesse em comum, explica o coletivo no site, que é a produção de obras livres das amarras da propriedade intelectual.
Trabalhando com músicas inacabadas e pedaços soltos de gravações individuais, o processo de criação é mais importante que o fim em si. Não existem músicas prontas, uma vez que elas estão sempre abertas a novas intervenções. As versões acabam, mas a música nunca acaba, diz o produtor.
Projeto vai ao exterior
Os projetos paralelos dos integrantes do Re:Combo incluem desde os informativos on-line Manguebit, Nemo e O Carapuceiro, o repositório de audiovisual livre Hippopota.mus, projetos experimentalistas individuais e uma banda de punk rock (Amídalas Lenhadas) até outros coletivos semelhantes, como o Esquadrão Atari (de Belo Horizonte), a LSDiscos (de São Paulo) e o tradicional Maracatu Leão Coroado.
Mas o grupo não fica restrito ao Brasil. Aos poucos, os tentáculos do Re:Combo ganham o mundo. Temos uma lista de discussão paralela em inglês e colaboradores estrangeiros, como Fernando Llanos, no México, Mona e Floe, na Romênia, Vibri, no Uruguai, e mais uns brothers e sisters nos EUA, mapeia Mabuse.
O grupo ainda tem conexões com coletivos estrangeiros, como o americano OFFline, em offline.area3.net/wartime, e o indiano Opus-Open Plataform for Unlimited Significations, em www.opuscommons.net.
Para participar, basta entrar em contato com o grupo. A única exigência é simpatizar com a causa, a produção artística criativa, democrática e livre das amarras do conceito criminoso e antipático de propriedade intelectual, resume Mabuse. O Re:Combo é descentralizado e livre. Nosso objetivo é executar os projetos por prazer. Cada um faz o que quer e quando pode.
Fonte: Folha de São Paulo
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