Na pequena cidade de Paju, Coréia do Sul, uma nova fábrica está chamando a atenção da população. É uma construção gigantesca, onde provavelmente caberiam oito estádios de futebol. O prédio principal, com uns 8m de altura, já está concluído, mas vários caminhões e tratores pesados transportam para dentro robôs industriais e outras máquinas que devem custar vários milhões de dólares.
No final deste ano, quando for concluída a um custo de US$ 5 bilhões, a fábrica ? propriedade da LG.Philips Co., joint-venture entre os dois gigantes da indústria ? será a maior do mundo na produção de painéis de cristal líquido e também a maior unidade fabril de TVs LCD do mundo. Será então chamada de G7, ou a 7a. geração do LCD, capaz de produzir enormes chapas de vidro, com 195x226cm ? portanto, bem maiores que as usadas na fabricação dos TVs convencionais.
A fábrica de Paju é apenas parte de um imenso arsenal que está sendo montado, em altíssima velocidade, por coreanos, japoneses e taiwaneses, na disputa pelo mercado global de televisores. A LG.Philips pretende investir um total de US$ 25 bilhões na próxima década em Paju, para expandir sua capacidade de produção de displays G7. Por sua vez, a Samsung gastará US$ 20 bilhões para construir a sua unidade de LCD, em Tangjeong, em joint-venture com a Sony. A japonesa Sharp deve investir US$ 1,4 bilhão para montar uma fábrica de onde sairão chapas de vidro ainda maiores que as de Paju, enquanto a ChiMei, de Taiwan, segue no mesmo rumo.
Esses movimentos todos certamente terão grande influência sobre o tipo de TVs que iremos assistir na próxima década. Quanto maiores as chapas de vidro que uma fábrica é capaz de produzir, maior o número de painéis LCD que podem ser feitos com uma mesma chapa. E não apenas isso: podem ser produzidos também TVs com telas maiores. Só para dar uma idéia: com uma chapa G7, os técnicos podem construir até oito displays de 42?; com uma chapa da geração anterior (G6), são apenas três displays.
O ganho de produtividade está agitando a indústria. Os preços médios dos TVs LCD de 20? despencaram, de US$ 5.000 no ano 2000 para menos de US$ 600 atualmente, pois cada nova geração de fábricas introduz maior eficiência e custos mais baixos. A queda de preços fez o mercado crescer, com previsões de que irá dobrar este ano, atingindo um total de 26,6 milhões de unidades em todo o mundo, de acordo com o instituto de pesquisas DisplaySearch. Os lucros das empresas vêm caindo também, mas os analistas de mercado acreditam que no próximo ano haverá uma retomada para os fabricantes de TVs LCD.
A chegada da geração G7 significa também que esses TVs irão se tornar mais acessíveis ? e não apenas um brinquedo para privilegiados. Analistas e executivos da indústria esperam que o preço de um modelo de 42? irá cair para menos de US$ 1.500 nos próximos três anos, sendo que atualmente custam o dobro disso. ?Nossa nova fábrica permitirá um volume de produção suficiente para atender a um mercado de massas?, diz Bruce Berkoff, diretor de marketing da LG.Philips.
A democratização das telas grandes e finas ajudará a criar sistemas de home theater sofisticados para as famílias pelo mundo afora. Mas, se o LCD esá em expansão, o que isso significa para o segmento de plasma que hoje domina essa categoria de produto? Na verdade, o plasma tem maior fatia do mercado de telas a partir de 40? porque, até agora, os fabricantes de LCD enfrentaram problemas de qualidade. Por seu lado, os fabricantes de plasma não conseguiram produzir modelos menores porque o plasma tende a perder seu brilho quando em tamanho reduzido. Além disso, sempre foi mais barato fabricar plasmas de tamanho grande, pois essa tecnologia requer vidros menos sofisticados e mais baratos que os usados no LCD.
Mas agora o LCD significa uma ameaça para empresas como Matsushita (Panasonic) e Pioneer, que são as maiores defensoras do plasma. ?Pode-se prever uma disputa acirrada entre plasma e LCD, na faixa de 40?, em 2006?, diz Duke Koo, vice-presidente de vendas globais da LG.Philips. Os fabricantes de plasma hoje controlam 88% do segmento de displays finos de 40? ou mais, e é claro que não pretendem abrir mão de um só pixel desse mercado. A Matsushita, que sozinha detém um quarto do mercado global de plasma, acaba de investir US$ 860 milhões numa nova fábrica que será inaugurada em outubro. A empresa projeta vendas de 2,1 milhões de unidades este ano, enquanto a Pioneer (com 85 de market-share), também está aumentando sua produção.
Como o plasma é uma tecnologia mais barata, os fabricantes vêm conseguindo competir em preço com o LCD, apesar das quedas registradas ultimamente. Um plasma de 42?, que será vendido no próximo Natal nos EUA por algo em torno de US$ 1.800, deverá cair para US$ 1.150 até 2007. Além disso, os fabricantes insistem que em telas maiores o LCD ainda sofre com problemas de distorção na imagem e má definição nas cores. ?Um TV de plasma pode ser assistido de qualquer ângulo sem perder a clareza, diz Massaki Fujita, chefe da divisão de plasmas da Matsushita. ?Para os membros de uma família que assistem televisão juntos, essa é uma diferença importante?. De seu lado, os fabricantes de LCD respondem que as principais marcas já resolveram esses problemas, com a vantagem de que seus modelos gastam menos energia e têm maior durabilidade. Estão em jogo aqui bilhões de dólares (em 2004, as vendas de TVs finos totalizaram US$ 21 bilhões). Analistas independentes acham que o plasma acabará confinado às telas maiores (50? ou mais), enquanto o LCD dominará o restante do mercado. ?O LCD tem maior potencial como economia de escala?, diz Daniel Kim, da Merril Lynch. Por esse raciocínio, o plasma será mais usado para televisores, enquanto o LCD tem a sua disposição todo o segmento de informática, com cerca de 200 milhões de monitores por ano. Some-se ainda os milhões de displays para celulares, câmeras, PDAs e players do tipo MP3. ?Os lucros vindos da produção de notebooks, monitores e aparelhos móveis nos garantem recursos para investirmos nas novas gerações de fábricas?, diz Cho Yeong Duk, vice-presidente da divisão de LCD da Samsung. Com certeza, são fábricas que irão revolucionar a indústria.
* © Business Week
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