 Evolução das câmeras motiva os fabricantes a aprimorar recursos para suprir as demandas da cinematografia digital e da HDTV.
A tecnologia de construção de objetivas para utilização em vídeo ganhou um estímulo importante para seu avanço nos últimos anos com o desenvolvimento da cinematografia digital e da captação em alta definição (HD). O uso cada vez mais freqüente de câmeras de vídeo por diretores de fotografia formados no trabalho com película trouxe novas exigências para esses fabricantes, que têm procurado suprir as demandas com lançamentos de produtos diferenciados a cada ano. Mas o desenvolvimento tecnológico nessa área não fica restrito às necessidades de profissionais de cinema. De olho na popularização da HDTV, o mercado de broadcast também ganha reforço em suas possibilidades estéticas, com o surgimento de recursos como a memorização eletrônica de movimentos de zoom e os estabilizadores de imagem.
No caso da cinematografia digital, uma das preocupações dos fabricantes é transformar o design das lentes, tornando-as mais operacionais para aqueles que estão acostumados a trabalhar com objetivas para cinema. Uma das diferenças principais do trabalho com lentes em cinema e em vídeo é a maneira como o operador manipula os diversos ajustes de foco, zoom, íris etc. A manipulação em vídeo é muito menos precisa, e muitos dos recursos são utilizados de maneira automática, especialmente em telejornalismo. Funções, como a abertura da íris, são deixadas, muitas vezes, para a própria sensibilidade eletrônica da câmera, e zoom e foco são controlados manualmente "ao alcance de um botão", como se costuma dizer nessa área.
Os hábitos do cinema são diferentes. Para começar, lentes zoom, a regra no mercado de vídeo, que normalmente exige agilidade e não comporta sucessivas trocas de objetiva durante o trabalho, não são as mais queridas pelos diretores de fotografia formados na cultura da película e da tela grande. Não são tão precisas quanto as fixas, podendo acarretar perda de definição quando se pensa numa imagem que será muitas vezes ampliada no momento de sua exibição. Para dar conta dessa preferência, os fabricantes de lentes se empenharam em lançar séries de lentes fixas com aplicação para câmeras de vídeo, especialmente HD.
Controle manual Em segundo lugar, os cultores da cinematografia fogem de ajustes automáticos como o diabo da cruz. Enquanto o operador de vídeo trabalha com um olho no visor e um dedo no botão (ou uma mão no corpo da lente), os operadores de câmeras de cinema mal encostam nas lentes. Para isso, existe a figura do foquista - muitas vezes exercida pelo assistente de câmera -, que faz mensurações precisas para ajustes de foco durante a rodagem dos planos. E o foquista não trabalha com um olho no visor, mas ao lado do operador e de olhos (e mãos) no corpo da objetiva, que necessita, portanto, de um design que lhe permita acompanhar com precisão as correspondências entre as distâncias medidas e suas marcações. Os controles de íris também devem ser de fácil operacionalidade manual, permitindo ajustes de abertura muito mais precisos do que os de câmeras de vídeo voltadas para o padrão televisivo. Esse design também deve levar em conta que o trabalho de câmera num set de filmagem envolve uma série de acessórios, como filtros, matte-boxes e follow-focus, anexados ao corpo da objetiva.
Por todos esses motivos, os fabricantes de lentes têm procurado desenvolver produtos que sejam idênticos, na sua forma, aos utilizados para câmeras de cinema. É comum que operadores de câmera de cinema reclamem, por exemplo, que o zoom de câmeras de vídeo roda "ao infinito", o que dificulta a precisão. Para tanto, as lentes desenvolvidas para cinematografia digital contam com varetas para um maior controle de toda a gama de zoom disponível.
Prismas sofisticados Outro aspecto que permite a maior utilização do vídeo na cinematografia é o grande desenvolvimento na qualidade e na quantidade dos cristais que compõem o corpo óptico das lentes. Os cristais funcionam como os pixels numa câmera de vídeo - quanto maior a concentração cristalina, maior a definição e a qualidade da imagem. As novas lentes contam com uma concentração bastante alta, que corresponde às 1250 linhas da alta definição. Graças a isso, capturam os feixes de luz com muito maior precisão.
Lentes para cinema não necessitam de prismas tão sofisticados para atingir uma qualidade ótima, porque as câmeras têm uma forma de ler a imagem bastante diferente da tecnologia HD. Em câmeras de cinema, a luz atinge uniformemente o plano da imagem. Uma câmera HD conta com alguns filtros (infravermelho e ultravioleta, por exemplo) que dividem a luz em seus elementos verde, azul e vermelho no momento em que esta entra no mecanismo da câmera. Por isso, o elemento óptico das objetivas para HD deve ser tremendamente sofisticado, evitando anomalias na imagem captada. Outras características do vídeo, como a perda de luminosidade da imagem do centro para suas bordas e a tendência para a mudança do campo de visão acarretada por mudanças de foco - o efeito conhecido como "breathing" -, também devem ser corrigidas com o recurso de materiais especiais.
É também comum a utilização de prismas asféricos para redução das distorções em grandes angulares, aumento da resolução nos cantos da imagem, diminuição da ocorrência de "flares" e reflexos, e controle de aberrações cromáticas. Os elementos asféricos, existentes em algumas objetivas da Zeiss e da Fujinon, por exemplo, levam vantagem sobre os esféricos na maneira como a luz passa por eles. Os feixes de luz que passam pelas bordas de um elemento esférico caem em pontos diferentes do plano focal daqueles que passam pelo centro, causando as chamadas aberrações esféricas, que necessitam da inclusão de novos prismas para serem corrigidas. Em materiais asféricos, o feixe de luz segue a mesma direção em todos os pontos do plano focal, eliminando a necessidade de prismas de correção e permitindo maior compactação e maior leveza nas objetivas.
Fabricantes Os principais fabricantes de lente para cinematografia digital são Zeiss, Canon, Fujinon, Angenieux e Cooke. A Zeiss, empresa fortemente estabelecida no mercado de objetivas cinematográficas, optou por trabalhar apenas com lentes fixas (as chamadas "prime") para câmeras HD. Sua linha, conhecida como DigiPrime e comercializada a partir de 2001, conta com as lentes Distagon T5, T7, T10, T14, T28, T40 e T70. O passo inicial do fabricante alemão nos rumos da cinematografia digital foi dado um pouco antes, com o lançamento, em parceria com a Thales Angenieux, do adaptador CLA 35 HD, que permite o uso de lentes 35 mm em câmeras HD. Esse equipamento foi desenvolvido também em parceria com a Sony, para utilização com sua câmera CineAlta High Definition 24p. Opticamente, o CLA 35 HD reduz a imagem das lentes cinematográficas em cerca de 2,5 vezes, para que esta se adapte aos chips de 2/3?? das câmeras HD sem perda na qualidade da imagem. Apesar do sucesso qualitativo, esses adaptadores são pouco operacionais, pois adicionam cerca de 20 cm ao tamanho das lentes e 1,4 kg ao seu peso e requerem uma inversão eletrônica da imagem na câmera.
Os franceses da Angenieux não investem tanto na tecnologia de objetivas para cinematografia digital, contando apenas com lentes do tipo zoom - os modelos 11.5 x 5.3 HD e Optimo 12 x 9.7 HD. Esse também é o caminho da inglesa Cooke, que comercializa apenas uma lente "cine-style", a zoom S4 HD.
Os japoneses da Fujinon e os americanos da Canon (cujo representante no Brasil é a empresa Debetec) são os fabricantes que contam com a maior linha de produtos nesse segmento, incluindo lentes "prime" e zoom. A Fujinon conta com a série de lentes fixas HAeF5, HAeF8, HAeF12, HAeF16, HAeF20, HAeF34, HAeF40 e HAeF54, com as zoom HAe3x5, HAe5x6, HAe10x10, HAe12x9.5 e com as zoom compactas HA10x5B-10, HA13x4.5B-10, HAc15x 7.3B e HAe17x7.8B10. A linha para cinematografia digital da Canon é conhecida como HD-EC e é formada pelas zoom HJ21x7.5B KLL-SC e HJ11x4.7B KLL-SC e as fixas FJ5, FJ9, FJ14, FJ24 e FJ35.
Futuro: HDTV São esses (Fujinon e Canon) os dois fabricantes com maior penetração no setor de broadcast e os que mais apostam na popularização de lentes HD para o mercado em geral, inclusive de SDTV - tem sido freqüente, principalmente nos Estados Unidos, a aquisição desse tipo de objetiva por clientes que trabalham com câmeras standard, provavelmente já com um olho na revolução da HDTV. Essa aposta justifica os altos investimentos tecnológicos em objetivas para o mercado de vídeo feitos por essas empresas - ao contrário das demais áreas, a revolução digital torna a construção de lentes cada vez mais dispendiosa.
Fujinon e Canon contam com lentes HD compactas (para o mercado broadcast) com maior capacidade de zoom, chegando a 100x. Essa tecnologia é possibilitada pelo aprimoramento na qualidade dos prismas - há alguns anos, uma objetiva com capacidade de zoom de 10x tinha um peso e um tamanho bastante complicados para sua manipulação, já que todas as lentes que a compunham tinham que ser espalhadas ao longo de sua estrutura. Atualmente, a qualidade dos prismas permite que se concentrem as lentes da objetiva em uma pequena área, resolvendo-se a capacidade de zoom pela simples movimentação dos elementos dentro desse espaço.
Menos trepidação Na qualidade dos prismas estão também alguns dos segredos de "upgrades" nos recursos para captação de eventos como os esportivos, um tipo de espetáculo que tende a ganhar peso no mundo da HDTV. Atualmente, por exemplo, há lentes como a Digisuper 100 xs, da Canon, que vai de 9.3 mm a 930 mm (ou 18.6 mm a 1860 mm, com extensor) sem trepidações na imagem captada. Essa capacidade era um problema há alguns anos, pois lentes com zoom tão potente teriam sérios problemas de estabilidade - a imagem podia tremer pelo simples efeito de uma trepidação no solo causada por um tráfego intenso, quase imperceptível, ou pela agitação das torcidas numa arquibancada. Isso porque o feixe de luz, ao penetrar no prisma, acaba sendo desviado de seu caminho pela trepidação, causando tremor na imagem.
A Canon desenvolveu a tecnologia do Optical Shift Image Stabilizer (Shift-IS), um sensor eletrônico que detecta se um determinado feixe de luz está saindo de seu "caminho" e corrige-o automaticamente. A tecnologia OS-Tech, da Fujinon, tem um funcionamento semelhante.
Essas empresas ainda trabalham com lentes que permitem a conversão de formatos de 16:9 para 4:3 (em vez do contrário), o que evita perdas nas dimensões da imagem. O sistema é batizado de Crossover, pela Canon, e Vformat, pela Fujinon. O fabricante americano ainda acaba de lançar a lente J22ex7.6B, para SDTV, que conta com "presets" para memorização dos mais variados ajustes. A novidade deve ser bastante utilizada pelo mercado de broadcast e, segundo os representantes da Debetec, deve chegar às objetivas HDTV até o final de 2004.
Fonte: Tela Viva
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