Deveria haver leis contra ouvir música olhando para equipamentos de áudio.
Tendo ao alcance dos olhos os logotipos estampados nos painéis, tendemos a
acreditar que por serem os equipamentos de determinada marca, que ocorre
melhora ou prejuízo à reprodução sonora, independente de realmente
ocorrer. Muitos amantes do a/v levam a paixão por equipamentos aos extremos,
dedicando maior atenção aos predicados e recursos dos mesmos do que àquilo
que realmente interessa, a música. Críticos de plantão costumam dizer que
essas pessoas não ouvem música, ouvem equipamentos. Parece existir uma
estranha conspiração por trás disso, já que existem aqueles que reproduzem
maravilhosas peças musicais não com intuito de aprecia-las, e sim à procura
de defeitos nos equipamentos que as reproduzem. Estranho não ?
Prática comum ao mundo do áudio é a referência aos equipamentos com
adjetivos por demais subjetivos, coisas como ?impetuoso?, ?relaxante?,
?suave?, ?contemplativo?, ?agressivo?, etc. A mim soam como metáforas
incompreensíveis, uma vez que análises subjetivas podem perfeitamente ser
aplicadas a pessoas, ou até mesmo à própria música, mas não a equipamentos,
sobre os quais deveria sempre recair apenas a objetividade. Equipamentos são
concebidos por engenheiros, construídos por técnicos ou outras máquinas, e
seus desempenhos podem ser medidos através de grandezas físicas. Em resumo, e
não obstante o grau de sofisticação e o valor monetário, são apenas
máquinas, não lhes cabendo conotações subjetivas. Quanto à música, a essa
sim cabem tais adjetivos, já que
ela tem poder de nos emocionar, e a emoção é um sentimento inerente a seres
vivos.
Existe a crença de que a perfeita apreciação do áudio Hi-Fi necessita da reprodução de determinados gêneros musicais.
Jazz, óperas, clássicos orquestrais, etc, são essas as preferências da
maioria dos audiófilos, creio que por entenderem que tais estilos sejam ricos
em detalhes e dinâmica, favorecendo a reprodução em alta fidelidade, opinião
com a qual concordo. Mas também entendo que música é estado de espírito, as
pessoas ouvem aquilo que lhes faz sentir bem, ou que da melhor maneira traduz
seu momento atual. Por outro lado, tomando a concepção da expressão Hi-Fi (High
Fidelity), concluímos que seja o objetivo fazer com que a reprodução eletrônica
do som situe-se o mais próximo possível ao som original (ao vivo), de maneira
que essa alta fidelidade independe do que se esteja ouvindo, seja uma Sinfonia
de Beethoven, uma banda de Heavy Metal ou os propulsores a jato do Ônibus
Espacial. Se o som for reproduzido de forma próxima ao original, é áudio
Hi-Fi.
Notem que aqui faço referência ao som ?próximo? ou
?semelhante? ao original, nunca ?igual?. Em que pesem os avanços
registrados pela indústria eletrônica nas últimas décadas, a reprodução
eletrônica do som, mesmo em sistemas em nível High End, está tão distante do
som ao vivo quanto o número zero do infinito. Ainda que possamos obter em
nossas salas e configurações de áudio reproduções sonoras
excelentes, limpas, cristalinas, por vezes realmente emocionantes, é difícil
(talvez impossível) afirmar que o som esteja igual à reprodução ao vivo,
pois para tal afirmação ser calcada de alguma certeza, deveria o ouvinte ter
estado no local e momento da gravação, e ainda possuir em sua sala de audição
as mesmas condições encontradas no local original da gravação. Sabemos que a
mesma peça musical, se executada em salas e condições diferentes,
resultará também diferente, não necessariamente melhor ou pior, mas
certamente diferente.
Limitações físicas à reprodução
sonora em espaços pequenos são outro entrave ao som Hi-Fi. Vamos imaginar que
alguém adquira um subwoofer de notória qualidade, uma máquina capaz de gerar
graves entre 20 Hz e 200 Hz. Não seria surpresa que essa pessoa saísse a
anunciar ao mundo as maravilhas de ?seu grave? de 20 Hz. Mas, segundo os
princípios físicos da ondulatória (figuras 1, 2 e 3), a formação completa
de uma onda sonora de 20 Hz necessita de distância livre de 17 metros. Para 30
Hz, a distância cai para 11 metros. Ondas de 100 Hz necessitam 3,4 metros
livres entre fonte emissora e ouvinte para se formarem por completo.
Convenhamos, quantas residências possuem vãos livres nessas dimensões, onde não
há objetos de nenhuma espécie no caminho do som. Concluo então que nosso
feliz ouvinte ficará decepcionado ao saber que não está ouvindo freqüências
de 20 Hz, e sim reflexos (harmônicos) dessa freqüência, o que nos sugere que
o principal elo na cadeia Hi-Fi é a acústica, e não a eletrônica.
Por vezes testemunhei afirmações que apregoam que o som de um bom home
theater é melhor do que o som ao vivo. Concordo parcialmente com essa afirmação,
dependerá do home theater e da qualidade da mídia utilizada. Mas, se a
configuração de áudio e vídeo é formada por equipamentos Hi-Fi ou High End,
como pode a reprodução eletrônica se mostrar melhor do que a reprodução ao
vivo, se o conceito que rege tais equipamentos é o de exatamente reproduzir o
som de maneira o mais fiel possível ao original. Assim , o som não deveria
ficar melhor, nem pior, e sim semelhante. Embora
seja eu assíduo ouvinte dos mais variados gêneros musicais, não escondo minha
predileção por Rock e Pop Music. Já estive presente a inúmeros eventos do gênero,
desde Madonna a Guns N´Roses, de Iron Maiden a Rolling Stones, de AC/DC a Tina
Turner, sendo que possuo muitos desses shows documentados em LD (Laser Disc) ou
DVD, e posso afirmar que o som ao vivo e reproduções eletrônicas são
irremediavelmente diferentes entre sí. E quando o DVD está codificado em áudio
multicanal (DD ou DTS), aí a diferença é brutal, e sempre com clara vantagem
para a reprodução ao vivo, pois não me lembro, dentre as
inúmeras vezes em que estive em estádios de futebol ou ginásios, da
sensação de envolvimento, como se o som viesse de todos os lados. Isso é
comum em um bom home theater e fantástico para a apreciação de filmes, mas
completamente irreal quando se trata de shows. Quem já esteve num desses
eventos sabe que em momento algum ocorre a tal sensação de envolvimento, e que
as características do som se alteram constantemente. Mais ou menos público,
pessoas que se movimentam nas arquibancadas, variações de temperatura
ambiente, umidade do ar, tudo isso interfere sobremaneira na reprodução
musical, e essas particularidades não podem ser incluídas em um disco DVD.
Sou defensor de que a boa reprodução eletrônica do som não é
composta de essência, e sim de detalhes. Tomemos por exemplo qualquer música
dos Rolling Stones. Se reproduzida em uma configuração genuinamente
High End, será fácil reconhecer a voz de Mick Jagger, a bateria de Clarlie
Watts e a guitarra de Keith Richards. Caindo para um microsystem, desses de
procedência duvidosa, ainda assim ficará fácil identificar quem está
interpretando a música, creio que ninguém confundirá a voz de Mick Jagger com
a de Axl Rose, certo? Descendo ao fundo do poço, se ouvirmos a mesma música
reproduzida por um rádio de pilha, ainda assim todos reconhecerão se tratar
dos Stones, dificilmente alguém achará semelhança entre a voz de Mick Jagger
e a do Pato Donald. Mas então qual a explicação para isso? A questão é que,
face todas essas mudanças de configurações, a música permaneceu a mesma, e
cerca de 90% da reprodução eletrônica não sofreu alterações. Os 10%
restantes formam aqueles detalhes dos quais falei.
Obviamente que não sou insano
em ponto de afirmar que sons provenientes de sistemas High End sejam iguais aos
de um rádio de pilha. Detalhes ou não, as diferenças são audíveis. O que
digo é que, deixando certos preciosismos de lado, a beleza do acontecimento
musical supera os atributos dos equipamentos, contanto que estejam reproduzindo
músicas que nos sejam do agrado.
Por outro lado, se a diferença entre esses equipamentos é formada
apenas por detalhes, pode-se questionar se é válido investir dezenas de
milhares de dólares em configurações High End. A resposta é sim, pois
dependerá dos objetivos e propósitos de cada um. Há quem pague US$ 10 mil por
uma viagem de 2,5 horas entre Londres e Nova York a bordo de um supersônico
Concorde. Outros preenchem cheques de US$ 1 milhão de dólares para possuírem
uma Ferrari. Assim como qualquer um desses exemplos, a perfeição em reprodução
sonora via meios eletrônicos é um sonho. Mas, quanto vale um sonho? Bem, para
alguns pode valer uma verdadeira fortuna.
Finalizando, se ao ouvirem ?Sympathy for the Devil? dos Rolling
Stones começarem a sorrir e marcar o
compasso da música com os pés; se ficarem estarrecidos ante a beleza da voz de
Ella Fitzgerald interpretando ?Summertime? de George Gershwin, em dueto com
o não menos fantástico Louis Armstrong; se a emoção tomar conta de vocês ao
reproduzirem em seus DVD players a narração final do filme ?Os Eleitos? (The
Righ Stuff, 1983), ou ainda se uma solitária lágrima lhes correr pela face
frente à maravilhosa interpretação de Elvis Presley para a música Unchained
Melody, naquela histórica gravação de 21/06/1977...se coisas desse tipo
ocorrerem, é porque suas configurações de áudio lhes satisfazem e bastam,
pois foi conseguido o mais difícil, que é tornar a reprodução eletrônica do
som um acontecimento emocionante. Essa é, em meu humilde entender, a alma do áudio
Hi-Fi.
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