A escolha errada pode comprometer o funcionamento de todo o sistema
DA REDAÇÃO DA REVISTA HOME THEATER
Comprar uma caixa acústica
para o canal central: à primeira vista, nada mais simples. O importante
num home theater, costuma-se pensar, são as caixas frontais direita
e esquerda e as traseiras; para colocar ali, em cima do TV, qualquer uma
serve... Pode estar aí o começo das dores de cabeça.
Freqüentemente menosprezado, inclusive por "especialistas", o canal
central funciona como uma espécie de referência do desempenho
de todo o conjunto - para o bem ou para o mal.
Eficiência, timbre, posicionamento
- fatores que são importantes para as demais caixas - no caso da
caixa central tornam-se simplesmente fundamentais. E é fácil
entender por quê. O canal central concentra a maior parte dos diálogos
dos filmes e é o maior responsável pela chamada imagem sonora,
conceito que define até que ponto o som que se ouve reproduz fielmente
aquilo que se vê na tela. Este, aliás, foi o grande ovo de
Colombo da Dolby ao criar o sistema surround, nos anos 70. Até então,
acreditava-se que o som estéreo era o mais próximo da perfeição.
Com a descoberta de que se podia adicionar um terceiro canal entre os dois
principais, o cinema percebeu que podia, finalmente, "invadir" as casas
do mundo inteiro.
O canal central passou a ser tão
importante que os fabricantes desenvolveram o modo de processamento Phantom,
que nada mais é do que a simulação de canal central
a partir de apenas duas caixas laterais. Para entender essa importância,
é preciso saber como são feitos os filmes hoje. Após
a filmagem, o diretor reúne-se com sua equipe de montagem numa sala
conhecida tecnicamente como editing room (ou monitoring room). Trata-se
da réplica de um cinema de verdade, com tela grande e falantes espalhados
pela sala. Tudo é controlado pelos engenheiros de som através
de uma mesa digital multicanais, conectada a players que contêm as
várias partes do filme: diálogos, trilha musical, sons da
própria locação onde o filme foi feito, diálogos
adicionais que o diretor queira incluir e efeitos sonoros dos mais variados
tipos.
Nessa mini-sala de cinema, a equipe
conta com um equipamento de áudio superior ao dos melhores cinemas.
Todas aquelas partes sonoras terão que ser misturadas, e para isso,
além de amplificadores e equalizadores, são utilizadas caixas
acústicas de primeira linha. Pois bem: o canal central é
que serve de base para toda a montagem. Três grandes caixas acústicas
(ou conjuntos de caixas) são colocadas atrás da tela, cada
uma incluindo tweeter (falante de agudos), midrange (para os sons médios)
e woofer (graves) de alta capacidade.
A função do canal central
nesse processo não é simplesmente reproduzir os diálogos,
como se costuma pensar, mas reforçar o chamado palco sonoro proporcionado
pelos outros dois canais frontais. No centro da ação estão
também parte dos efeitos e da trilha musical, elementos essenciais
num filme. Dessa forma, a equipe de produção consegue "cobrir"
todas as lacunas deixadas pela gravação original, de forma
que diálogos, efeitos e música combinem harmoniosamente -
e que um não "apague" os demais.
É bom lembrar que no cinema a tela
em geral é do tipo transparente, com milhares de pequenos furos
para permitir a passagem do som que sai da caixa (ou caixas) situada atrás
da tela. Isso não é de graça. Além de concentrar
os diálogos, esse canal central é otimizado (pelo menos nos
bons cinemas) com três finalidades: garantir que todos os espectadores,
mesmo os sentados no fundo da sala, ouçam claramente o que dizem
os atores; controlar a diretividade do som, para que atinja o público
antes de rebater nas paredes ou no teto; e preservar o balanço tonal
e a gama dinâmica da trilha sonora, de forma que fique o mais clara
possível.
Mais de 50% dos sons de um filme saem
pela caixa central. Portanto, mais do que qualquer outra, ela precisa estar
totalmente sincronizada com a ação que se passa na tela.
E isso independe até da posição das pessoas na sala.
É o que garante a um grupo de, digamos, cinco pessoas poder assistir
juntas a um filme e todas perceberem a sensação de envolvimento
com a mesma intensidade - claro que cada uma sentada num lugar da sala.
Apesar dessa importância, é
um erro colocar duas caixas centrais num home theater, como alguns fazem.
O fato de se ter duas caixas fazendo o mesmo trabalho não "dobra"
a qualidade do som, pelo contrário, pode torná-lo mais abafado,
sem definição. Também é errado montar sistemas
em que a potência do canal central é inferior à dos
outros dois. Na maioria dos conjuntos, a caixa central tem sensibilidade
ligeiramente mais baixa, e por isso mesmo irá exigir mais potência
do amplificador (ou receiver). Ou seja, precisa ser pelo menos tão
boa quanto a direita e a esquerda.
DICAS PARA A ESCOLHA
Sua sala de home theater será tanto
melhor quanto mais conseguir se aproximar de uma sala de cinema. Mas, se
você usa caixa central inferior às demais, esse objetivo estará
seriamente comprometido. Num equipamento Dolby Pro-Logic, talvez isso não
fique tão claro, mas ao partir para um Dolby Digital ou DTS você
irá sentir falta de uma caixa central de melhor nível.
A primeira recomendação
ao comprar uma caixa para canal central é comprar, junto com ela,
todas as caixas do sistema. Isso mesmo: um conjunto completo de 6 caixas,
de preferência da mesma marca, o que garante homogeneidade de timbre
entre elas. A maioria dos grandes fabricantes oferecem conjuntos completos,
geralmente construídos a partir de um mesmo projeto. Isso é
importante porque entre os fatores decisivos no desempenho de uma caixa
estão seu design interno e os componentes utilizados em sua fabricação.
Mesmo entre modelos de uma mesma marca,
porém, pode haver diferenças técnicas sensíveis;
o ideal é combinar caixas do mesmo padrão. Se você
já tem um conjunto e só não está satisfeito
com a central, há vários aspectos a considerar. Dê
preferência a um modelo do tipo full-range, capaz de responder tanto
graves como médios e agudos. E cujo tamanho seja semelhante ao das
frontais.
Atualmente, a maioria dos modelos são
do tipo horizontal, com um tweeter posicionado entre dois outros falantes
(geralmente, dois woofers). Foi a fórmula considerada até
hoje a melhor para garantir boa dispersão e diretividade do som
num sistema surround. Os modelos verticais usados no início do sistema
THX foram deixados de lado, por causa de sua excessiva dispersão
vertical, que prejudica a inteligibilidade.
Como qualquer produto para home theater,
a escolha da caixa central deve ser feita preferencialmente a partir de
um projeto que define claramente a posição das caixas. Toda
caixa central é blindada magneticamente, de forma a poder ser colocada
junto ao TV sem provocar distorções na imagem. Mas, além
disso, precisa estar coretamente alinhada com as demais caixas, para garantir
a uniformidade do som.
Especificações como
impedância (no mínimo igual à do receiver), sensibilidade
(o ideal é acima de 90dB) e resposta de freqüência (20-20.000Hz,
com distorção de no máximo 3%) também são
importantes na escolha. Mas o fundamental mesmo é saber ouvir. Antes
da escolha final, procure ouvir a caixa de olhos fechados, até mesmo
desligando as outras caixas e se concentrando no que está a sua
frente. Deixe que seus ouvidos tomem a decisão.
|