Infelizmente, a fonte de energia elétrica
mais à mão - a rede de corrente alternada domiciliar, com
110 (ou 220) volts - não serve para alimentar diretamente os circuitos
com válvulas ou transistores. Estes necessitam de tensões
e correntes contínuas, com um valor fixo e polaridade (fase) determinada.
Assim, torna-se necessário introduzir, entre a rede de C.A. e o
amplificador, um dispositivo qualquer capaz de transformar a corrente alternada
em corrente contínua, ou seja retificá-la. Este sistema é
conhecido como fonte de alimentação.
O circuito da fonte alimentação
é composto por três partes - a fonte propriamente dita, o
retificador e o filtro. Além da tomada da parede, que na verdade
inclui apenas terminais de saída da fonte propriamente dita (rede
elétrica), esta pode também ser dotada de um transformador
que se encarrega de elevar ou baixar a tensão disponível
na tomada de C.A., de retificador, de regulador e de filtros.
Portanto, a fonte de alimentação
de um equipamento de áudio é um ponto muito importante na
cadeia da reprodução sonora possível. Lembremos que
todos os equipamentos eletrônicos trabalham internamente com C.C.
e que esta deve ser o mais plana e estabilizada possível e isenta
de espúrios, a fim de que não gere ou induza distorções
ou colorações na cadeia de áudio. Quantas vezes se
culpa um amplificador de ser a causa de distorção, e depois
de exaustivos testes de laboratório e audição chegamos
à conclusão de que o problema é resultado de uma fonte
de alimentação mal projetada. É bom deixarmos claro
que só a fonte não garante a qualidade do aparelho, mas que
também não existe um bom aparelho, principalmente amplificador
, sem uma ótima fonte de alimentação. .
De forma geral, a fonte de alimentação
não é um fator determinante no custo final de um equipamento
de áudio, porém no caso específico de um amplificador
seu custo é relativamente alto e determinante na boa qualidade do
áudio. No caso dos amplificadores temos que ser ainda mais
exigentes, pois sem uma boa fonte não tocam bem.
Quando falamos em C.C. estabilizada, filtrada
e isenta de espúrios, o que vem nos à mente é a figura
de uma bateria, seja uma pilha de lanterna ou uma bateria de automóvel.
No caso específico de pré-amplicadores, considera-se sua
fonte de alimentação ideal a proveniente de um conjunto de
baterias recarregáveis, capazes de fornecer uma tensão estabilizada
por longas horas, sem a necessidade de estar conectada a C.A.. Vejam o
pré-amplicador JEFF ROWLAND (modelo Coherence), considerado hoje
um dos melhores prés fabricados.
Para amplicadores, a situação
é bem mais delicada. As quantidades energéticas em jogo são
milhares de vezes superiores, tornando o uso de baterias uma tarefa quase
imposível. Existem amplificadores alimentados a baterias, vejam
os utilizados em equipamentos de som automotivos, todos os modelos da Jeff
Rowland. Porém, trazer inúmeras baterias para dentro
de uma sala de audições é bastante complicado e caro.
Os resultados são divinos!!
Voltando à realidade, vejamos quais
as características mais importantes dos componentes da fonte de
alimentação de um amplificador de áudio. Em primeiro
lugar devemos observar o tipo de transformador utilizado. O tipo ideal
é o transformador torroidal, devido a suas características
de baixas perdas, baixíssima impedândia (resistência
interna) e relativa imunidade a induzir ruídos nos amplificadores.
Normalmente são responsáveis por mais de 50% do peso de um
bom amplificador. É bom deixarmos claro que a maioria dos fabricantes
de amplificadores, principalmente os mais sérios, só utilizam
transformadores toroidais nos seus powers.
Outro componente fundamental é o
capacitor eletrolítico. Da mesma forma que o amplificador, deverá
ser de qualidade, e principalmente de alto valor. Podemos considerar um
ótimo valor 0,1 Farad para cada 100W RMS reproduzidos, valor dificilmente
utilizado, por questões volumétricas. Os fabricantes que
utilizam valores aproximados a este normalmente utilizam a fonte de alimentação
separada do corpo do amplificador.
Conclui-se, pois, que os dois componentes
qualitativos determinantes de uma boa fonte de alimentação
para amplificador são o TRANSFORMADOR DE FORÇA e os CAPACITORES
ELETROLÍTICOS. Não podemos esquecer que outros componentes
são inseridos em uma fonte de alimentação para que
a energia possa fluir da tomada de força até as caixas de
som. Componentes estes que retificam a CA, transformado-a em CC pulsante,
que por sua vez é filtrada pelos capacitores eletrolíticos,
que suprem o amplificador sonoro.
Portanto, temos uma cadeia de componentes
interligados em série, isto é, como se fosse uma linha de
produção industrial. Cada componente da cadeia é responsável
por um processo e tem influência na qualidade total do produto final,
que no caso de um amplificador é o som, o áudio, a mágica,
a música, os sonhos e tudo o mais que a música permitir.
Todo cuidado deve ser tomado não só com o projeto da fonte
de alimentação, pois uma fonte mal projetada
realmente acaba com o som, mas também com a conexão à
tomada de força, que é de responsabilidade do proprietário
do equipamento, e o uso de bons filtros de linha. Lembre-se: cada componente
colocado na cadeia de seu equipamento de som produz algum efeito, que pode
ser conveniente ou não.
Vamos falar um pouco mais de capacitores
eletrolíticos, um nome um tanto incomum. Estes componentes eletrônicos
estão diretamente ligados às chamadas ?reservas de energia?
de um amplificador sonoro. Isto porque sua característica é
o acúmulo de energia, quase como se fosse uma bateria, porém
com uma condição excepcional, isto é, carrega-se com
extrema velocidade e descarrega-se da mesma forma. Levando-se em conta
que um amplificador sonoro é alimentado por CC e que através
de seus circuitos especializados a transforma em sinais elétricos
senoidais, que por sua vez são aplicados a transdutores elétricos
(alto-falantes) e finalmente transfomados em energia sonora, temos que
a primeira reserva de energia disponível é aquela armazenada
nos capacitores eletrolíticos, e que quanto maior for esta reserva
melhor será o som reproduzido.
Outros tipos de capacitores também
são utilizados nos circuitos de fontes de alimentação,
porém suas funções são principalmente relativas
a desacoplamento de sinais indesejáveis. Trocando em miúdos,
servem como filtros, eliminando os sinais de altas freqüências,
hoje tão comuns em nossas casas, por exemplo, ruídos gerados
por lâmpadas fluorescentes, computadores, impressoras, scanners,
lâmpadas de vapor de alta pressão, lâmpadas eletrônicas,
calculadoras eletrônicas e mais uma enormidade de artefatos eletrônicos
disponíveis em nossos lares, que do ponto de vista de um amplificador
de áudio, são fontes de ruídos, que podem ser facilmente
misturados ao material sonoro que estamos reproduzindo, causando distorções
indesejáveis. Devemos sempre ter em mente o que pretendemos
de um equipamento de som, queremos reproduzir sons da forma mais
fiel possível, sem acrescentar ou retirar nada de conteúdo
musical.
Vamos fazer agora algumas observações
sobre os transformadores utilizados em amplificadores sonoros. Da mesma
forma que os capacitores eletrolíticos, os transformadores de potência
são diretamente ligados ao fornecimento de energia. Como seu próprio
nome indica, são responsáveis pela transformação
da CA disponível, 110 volts nas capitais e 220 volts no interior,
em níveis necessários para a alimentação dos
circuitos de um amplificador sonoro. Esta tensão tanto pode ser
menor que 110 ou 220 volts, como geralmente no caso de amplificadores transistorizados,
como maior, no caso de amplificadores valvulados. Sua principal característica
é ser transparente ao amplificador, isto é, apresentar um
impedância (resistência à passagem do sinal) mais baixa
possível. Em outras palavras, fornecer a energia que o amplificador
necessita sem ser sobrecarregado.
Considera-se para fins práticos
uma relação de 1 para 10, isto é, 1 watt de potência
de um amplificador necessita de 10 watts de potência disponível
de seu transformador de força. Valor dificilmente alcançado
por amplificadores comerciais, com raras e caras exceções.
Os transfomadores apresentam quanto ao seu método construtivo duas
formas mais usuais, núcleo de ferro de alto teor de silício
plano no formato E I e no formato torroidal. Os toroidais têm as
características ideais para amplificadores, ideais para alimentar
quaisquer equipamentos eletrônicos. Suas principais características
são baixíssimas impedâncias, isto é, são
capazes de fornecer a energia necessária para a alimentação
de um amplificador sem queda de tensão, são mais compactos,
irradiam pouquíssimo ruído, e servem como filtros naturais.
Quando comprar seu próximo amplificador
sonoro, procure se informar do tipo de transformador utilizado em sua fonte
de alimentação; se for toroidal, existem boas possibilidades
de estar escolhendo um bom produto. Transformadores exercem um fator
sensível no preço de um amplificador sonoro. Esta regra não
vale para todos ao equipamentos eletrônicos, e sim especificamente
para equipamentos de áudio. Outras características importantes
em um transformador são aspectos relacionados a sua construção
física. Vamos enumerar alguns que acreditamos serem importantes:
não deve vibrar, não deve esquentar, não deve emitir
ruídos. Estas características são alcançadas
utilizando-se materiais isolantes à base de resinas, óleos
e de blindagens metálicas.
Diríamos que o melhor transformador
é aquele que de tão perfeita sua construção
não revela sua existência ao amplificador. Isto é,
o amplificador comporta-se com se estivesse ligado diretamente à
rede elétrica. Voltando aos exemplos, alguns fabricantes para eliminar
a possibilidade de possíveis ruídos constróem os transformadores
banhados em óleo, como é o caso da Cary; outros mais perfeccionistas
ainda enrolam seus transformadores somente com fio de prata pura, como
é o caso da Audio Note.
Se juntarmos todas estas características
ideais de fontes de alimentação e de seus componentes, chegaremos
à conclusão de que cada equipamento em nosso sistema deveria
ter uma fonte de alimentação particular, o que geralmente
acontece. O CD tem sua fonte particular, o pré-amplificador também,
o sintonizador de FM também, mas e o amplificador? Na grande maioria
do casos apresenta uma fonte de alimentação comum para dois
amplicadores se for estéreo; pior ainda se for multicanal, normalmente
são cinco ou seis amplificadores para uma fonte de alimentação
única. Se considerarmos os receivers integrados, aí temos
o pior caso possível, isto é, uma fonte de alimentação
servindo para alimentar os amplificadores, os pré-amplicadores,
o sintonizador de FM, o pré de fono, o decodificador , etc.
É algo como uma salada de frutas:
tem um bom gosto ao paladar, mas não conseguimos identificar fielmente
a característica de cada fruta, pois todas interagem entre si. Neste
último caso, somente um grande trabalho de engenharia é capaz
de minimizar os efeitos da interação entre os componentes
do receiver, porém milagres não existem. Prefira montar seu
home ou sistema de áudio com os melhores equipamentos que o seu
bolso possa comprar, preferencialmente amplificadores dual mono, até
porque temos no mercado uma grande quantidade de amplificadores com construção
dual mono. Só para citar um exemplo, os amplificadores da Balanced
Audio Tecnology têm até dois cabos de força separados,
sintonizadores de FM, pré-amplificadores com fontes em gabinete
separado, transportes de CD e DA separados. Mais uma dica: mantenha os
equipamentos digitais, tais como computadores e seus acessórios,
o mais longe possível. Se isto não for possível invista
em bons e caros filtros de linha e cabos de interconexão o mais
curtos possível, pois quanto menos trabalho o sinal tiver para transitar
melhor será o nosso áudio.
BIBLIOGRAFIA
1 - Walters, Earl ? Como projetar áudio
amplificadores, Antenna-Empresa Jornalística SA.
2 - Ferriol, A.. A. ? Diseño y
calculo de audioamplicadores, Editorial Técnica Popular.
3 - Briggs, G. A. and Garner, H. H. ?
Amplifiers the why and how good amplification, Wharfedale Wireless Works.
4 - Treimaine, Howard M.- Audiociclopedia
Vol. I E II, Marcombo Boixareu Editores
5 - Zarate, Enrique C. ? Audio amplicadores
, Editoria Radio Lectura
6 - Balsa, Jorge ? Estereofonia Practica,
Editorial Hobby, Com e Ind..
* Protasio Nene é
fotógrafo; Paulo Chachamovitch é engenheiro. Ambos são
colaboradores da revista HOME THEATER.
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