Foi bem no início de 1953, pouco depois do lançamento em Wolfsburg, que a Volkswagen exportou para o Brasil as primeiras Kombi, junto com alguns Fusquinhas pioneiros. A importadora foi a Brasmotor do amigo Miguel Etchenique, um homem de visão que representava a Chrysler, mas achou que valia a pena apostar naqueles veículos diferentes. A coisa deu certo e abriu espaço para a implantação da fábrica em São Bernardo do Campo, poucos anos depois.
O Fusquinha ficou popular desde a sua chegada. Mas com a Kombi não foi tão fácil. Os criadores do ?carro do povo? tinham inventado um veículo de motor traseiro, refrigerado a ar, feio e esquisito, mas que era econômico, prático e resistente. O sucesso do carrinho permitiu que dessem luz verde para a outra boa idéia de se usar a plataforma do Fusca para as funções de um mini-ônibus, um furgão e um carro de passageiros.
Pouca gente acreditava que a Kombi tinha a mesma distância entre eixos que o Fusca e era apenas 23 centímetros maior, por causa da carroceria. E foi preciso um anúncio da Alcântara Machado Publicidade para que ficasse claro que aquela ?coisa? tinha 15 janelas, transportava nove passageiros (ou até mais) e ainda permitia a colocação de um ?rack? na capota para carregar qualquer tipo de tralha.
Lembro o velho amigo José Alcântara Machado, fundador da grande agência, comentando com o Alex Periscinoto que a segunda boa idéia da Volkswagen foi ?pegar um Fusca, desatarraxar a carroceria, ajeitar a plataforma e depois levantar quatro paredes até que o resultado ficasse parecido com uma miniatura das antigas lotações?.
Como colunista do jornal O Globo, eu trouxe para o Brasil a idéia dos testes de automóveis, que eram uma atração das grandes publicações internacionais naqueles anos. Fiz mais de 20 testes, inclusive o da ?Volkswagen Kombi?, que, sem nenhuma originalidade, defini como ?um veículo grande por dentro e pequeno por fora?. No texto, lá se vão quase 50 anos, lembrei que eu estava na estrada, vindo de Brasília, quando ?parei em um posto de gasolina onde chegou, pouco depois, um veículo estranho que vinha de Curitiba. Trazia uma família em mudança: sete adultos, um cachorro, uma gaiola de passarinho, três crianças e sete malas.
O carro era uma verdadeira festa. Tinha feito uma viagem sem problemas, sem nada quebrado e com reduzido consumo de combustível. Era uma Kombi?. Rodei 1500 quilômetros no teste da Kombi e não tive dificuldade em "aprender a dirigir à maneira dos motoristas de ônibus, sentado sobre as rodas dianteiras". Aos leitores de então, adverti que ninguém deveria procurar conforto em uma Kombi e sentenciei: ?Ela não chega a tratar os passageiros como sacos de batata, mas está longe de ser um Cadillac?. Desde 1957, até hoje, foram produzidas mais de 1,2 milhão de Kombi no Brasil.
E a cada mês continuam sendo fabricadas mais 1400 unidades do ?pão de forma? que nasceu com o nome pomposo de Kombinationfahrzeug e continua fazendo sucesso. O que me faz lembrar do velho tio Publio Dias, que gostava de colocar apelido em tudo e batizou a "coisa" de "Komber", explicando: "É mais nobre e pomposo. E, quando estou na direção, ninguém me chama de barbeiro, já que tenho a cara do motorista de família".
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