
Um e-mail chega à sua caixa de entrada, alertando-o sobre o terrível risco de uma substância química que pode causar náuseas, queimaduras, danos irreversíveis aos pulmões, erosão na superfície terrestre e muitos outros problemas graves. O nome do inimigo incolor: "monóxido de dihidrogênio", também conhecido como H2O ou simplesmente ?água?. Um príncipe africano pede, por e-mail, sua conta de banco ?emprestada? para depositar sua fortuna de US$ 1 bilhão, para evitar o confisco durante a bancarrota do governo de seu pai. Certamente, você já recebeu uma destas mensagens ou outra qualquer, que lhe alertasse para o fim do mundo ou oferecesse benefícios incondicionais, a troco, é claro, de que você repassasse à sua lista de e-mails a pulha virtual.
Rastrear alguém que cria uma mensagem destas é mais ou menos como rastrear o autor de uma piada. Mas refutá-las, na maior parte dos casos, não é um drama. Isso é o que faz, por hobbie, o pernambucano Gevilacio Aguiar Coelho de Moura, administrador do website Quatrocantos.com. ?Algumas dão mais trabalho e exigem mais pesquisa para refutar. Tenho aqui algumas cujas refutações foram iniciadas e que daqui a mais alguns dias (ou meses) serão concluídas?, conta Moura.
Outras são óbvias. É o caso de um e-mail que traz fotos de uma criatura bizarra, meio gente meio cão, que alimenta três filhotes igualmente híbridos. A mensagem conta que o ser é fruto da experiência de ?dois cientistas franceses cujos nomes não foram divulgados?. Mas, se formos atrás da origem das imagens, descobriremos que os bichos são uma escultura em silicone da artista plástica Patricia Piccinini. Em seu website oficial, há o seguinte depoimento: ?imagens de criaturas do trabalho ?The Leather Landscape? foram roubadas do website de Patricia sem sua permissão e usadas em um hoax (texto fantasioso). Isso deixou a artista muito triste de saber que muitas pessoas foram enganadas e perturbadas por esta história?.
A maioria dos hoaxes não passa de brincadeiras ? muitas vezes de mau gosto, é verdade ? virtuais. Moura tem sua tese sobre os motivos que levam alguém a criar uma lenda da Internet: ?Talvez haja semelhança com a intenção das pessoas que criam vírus de computador. Não esses mais recentes, os que roubam senhas de bancos, mas aqueles de 'antigamente' como o ?ping pong? (vírus italiano que dificilmente causa algum prejuízo à máquina infectada; o único efeito é uma bolinha que quica pela tela) e o ?happy new year? (vírus búlgaro que inutiliza o command.com em algumas máquinas e mostra a mensagem ?querida Nina, você me faz escrever este vírus; Feliz ano novo?). Querem aparecer?.
Isso se vê na quantidade de lendas que surgem a partir de histórias inventadas por sites de humor. Por exemplo, o site cômico de Cingapura Talking Cock inventou o personagem Mohamed Binantang, que rendeu boas gargalhadas a quem recebeu e encaminhou o e-mail ?O pior emprego do planeta?. O texto conta a história do funcionário de um zoológico de Cingapura cujo suposto emprego era masturbar as feras todas as manhãs para recolher amostras de sêmen para o banco de esperma da instituição. Ao fim do e-mail, o autor propõe uma reflexão: "Você já reclamou do seu emprego?". A página inicial do Cingapura Talking Cock traz a declaração ?enfatizamos que integridade jornalística, retidão e confiabilidade de informações, análises e tratamentos sérios, design de qualidade e estratégias inteligentes de e-commerce são coisas que podem ser encontradas em outras publicações e websites?.
Se não forem levados a sério, a maioria dos tais hoaxes pode até ser divertida. Eles sempre existiram; com a Internet, sua propagação foi simplesmente acelerada, como observa Gevilacio Moura: ?Os mitos e as lendas existem desde que o homem aprendeu a falar. As lendas e os mitos se repetem ou são reinventados ao longo da história. Algumas existem há várias décadas, como a Blasfêmia contra Jesus, que menciona um filme em que Jesus e seus apóstolos seriam apresentados como homossexuais. Ela circulava por cartas, que mais tarde foram xerografadas e depois divulgadas via fax. A Internet tornou mais fácil a sua divulgação?, constata.