
A cantora Marisa Monte diz que está preparada para, algum dia, enfrentar um fiasco completo em sua carreira. Espero ansiosamente, sei que vai acontecer um dia.Por enquanto, ela só conhece - e muito bem - o outro lado da moeda, o sucesso absoluto. Seus discos vendem em média 700 mil cópias. E não é o lançamento de seu primeiro DVD, Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (EMI/Phonomotor), que vai mostrar-lhe o gosto amargo do fracasso. Com uma canção inédita (A Sua), e músicas de repertório que não tinha gravado em CD (caso de Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo, de Roberto e Erasmo, e Ontem ao Luar, de Catulo da Paixão Cearense), a produção da Conspiração Filmes deve ter um belo desempenho nas prateleiras neste fim de ano.
Todos os meus shows, desde o primeiro, têm o registro em película, ela diz, lembrando que sempre buscou um registro audiovisual bacana e de qualidade técnica superior de sua carreira. Este primeiro DVD foi gravado em três shows no ATL Hall, no Rio, entre 28 e 30 de julho deste ano.
O CD homônimo, Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, vendeu 1 milhão de unidades. São cinco discos lançados, 4,5 milhões de unidades vendidas, um respeitável nível de independência artística e um timing empresarial que ela usa com sabedoria - Marisa tem um selo (Phonomotor) e uma produtora (Monte Criação e Produção) para gerir suas ambições artísticas.
Tanto controle não acaba tirando o romantismo da coisa toda? Marisa acha que não. Eu não acho que tem de ser mambembe para ser romântico, e conquistar a independência artística também é uma ambição romântica, afirma. O fato de manter um selo e um escritório de produção não interfere em sua criação, observa, mas ajuda a viabilizá-la.
E também ajuda a revelar para o País uma riqueza artística pouco conhecida da maioria. Já havia gravado no ano passado Tudo Azul (Warner/EMI), o primeiro disco da Velha Guarda da Portela.
Agora, investe no trabalho-solo daqueles veteranos compositores e instrumentistas. É o caso de Argemiro da Portela, músico que vai completar 80 anos em 2002. É o autor de um dos mais cantados sucessos da MPB, A Chuva Cai (A chuva cai lá fora/ Você vai se molhar/ Já lhe pedi, não vá embora/ Espere o tempo melhorar...). Marisa Monte produziu e está mixando seu álbum de estréia, com participação de Paulão 7 Cordas e Mauro Diniz.
Ele começou a compor com 55 anos, ela conta. Quando dei de cara com as composições inéditas dele em um caderno, com mais de cem músicas, fiquei encantada: é totalmente filosófico, lírico, poético.Ainda assim, seo Argemiro não ficou tão entusiasmado a princípio. Ele é tímido, e estava com problemas de saúde, labirintite, lembra a cantora. Ele me dizia: me deixa quieto tô meio cansado, minha filha!Outro bamba da Portela que estréia em disco, também pelo selo Phonomotor, é Jair do Cavaco, que foi parceiro de Nelson Cavaquinho. Este Marisa não produziu - foi o pessoal da Acari Produções. Ela apenas vai lançar, com orgulho, em março. Argemiro da Cuíca e Jair do Cavaco: e ainda tem gente que não gosta dessa mulher.
Fonte: Agência Estado
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