A medalhistica e o historiador I
Leandro Pereira dos Santos
Introdução: O presente artigo é dividido em duas partes. A primeira parte se constitui em um estudo sobre as ciências auxiliares do historiador, em especial a medalhistica, que se relaciona com o assunto da segunda partem, no qual veremos a relação do estudo das medalhas com o historiador.
1 ? As ciências auxiliares do historiador.
Antes de iniciarmos esse tópico, uma pergunta ainda permeia as mentes dos estudantes dos cursos de graduação em História, historiadores e estudiosos da área. É uma pergunta que aparenta ser simples, mas que pode dar uma belíssima dissertação de mestrado ou até mesmo uma tese de doutorado, pois é de extrema importância para todos nós. A pergunta: O que é História?
A história se constitui em uma ciência, na ciência onde seu objeto de estudo é o ser humano enquanto agente modificador do tempo, como nos confirma Marc Bloch:
?A história é busca, portanto escolha. Seu objeto é o homem, ou melhor, os homens, e mais precisamente... homens no tempo.? (BLOCH,2001,p.24)
A história é uma busca, uma ação no espaço físico e no tempo cronológico. Simplificando a resposta do artigo e a de Bloch, a história são as marcas que os homens deixam no tempo e no espaço. Quando o homem faz alguma ação esta deixa marcas no tempo e essas marcas nos levam a uma pergunta: como estudo essas marcas?.
Para o estudo da história existem as ciências auxiliares, que podemos enumerar as seguintes: historiografia, sociologia, antropologia, paleografia, omelética, numismática, filateria, medalhistica, filosofia, teologia e outras mais. As únicas ciências que vamos abordar nesse pequeno artigo são a historiografia e a medalhistica.
A historiografia é o estudo de um discurso histórico, ou seja, dos textos históricos. Como nos diz Feitas:
?A historiografia pode conceber a si mesma, no fluxo da prática dos historiadores, como espaço investigativo no qual até o simulcro consegue ser trazido a luz com grandeza de conhecimento?. (FREITAS,2003, p.9)
A historiografia é a ciência que leva o homem a investigação da história, ou seja, leva o homem a investigar seus rastros no tempo, utilizando para esse propósito os textos históricos. No contexto brasileiro tivemos a historiografia positivista, marxista, escola dos ?Analles? e a Nova história cultural. Para auxiliar no processo historiográfico o historiador dispõe de uma ciência que não é muito popular no Brasil, como a numismática e a filateria, mas de grande importância: a medalhistica.
De acordo com o site do museu paulista (USP) a medalhistica é uma ciência que é comemorativa pela vocação, pois se dedica ao estudo das medalhas, ordens e homenagens civis e militares, além das religiosas.
Para entender-mos em que funções a medalhistica podem ajudar o historiador temos que nos aprofundar um pouco no estudo da própria historiografia. A primeira forma de historiografia existente foi a historiografia teocrática, ou seja, uma historiografia pautada nas ações dos deuses e heróis no cotidiano humano, como nos confirma Collingwood:
?Na história teocrática, a humanidade não é agente, mas parcialmente um instrumento e parcialmente um objeto passivo, das ações registradas... O mito, pelo contrário, não diz respeito a qualquer ação humana. O elemento humano foi completamente eliminado e as figuras da narrativa são apenas deuses.? (COLLINGWOOD, 1987, p.24)
Vale lembrar que a historiografia teocrática é a mesma utilizada na Bíblia cristã, pois se analisada através do víeis histórico Deus sempre influencia o cotidiano do povo hebreu. Outra forma de historiografia que temos nesse período é o mito, só que o mito não segue uma linha cronológica, ou seja, não se tem dados o suficiente para prever e se fazer um estudo histórico sobre aquele fato histórico, como nos salienta novamente Collingwood:
?... porque relata os acontecimentos um após o outro, numa ordem definida ? a forma rigorosamente temporal ou semi-temporal: o narrador usa a linguagem da sucessão temporal como uma metáfora em que ele não considera como verdadeiramente temporal.? (COLLINGWOOD, 1987, P.24)
Para alguns historiadores, como os positivistas e marxistas, a história teocrática e o mito são uma espécie de semi-história, nem se encaixando na ciência histórica. No ano 700 AC a cronologia humana começa a ser contada ,e nesse contexto surge Heródoto , um estudioso da história Grega que faz um logo percurso até a Pérsia para colher fontes documentais e depoimentos sobre as guerras Médicas. Seu discípulo, Trucídides dá continuidade ao seu trabalho, publicando mais trabalhos sobre a história da Grécia, influenciando assim significadamente a historiografia do Império Romano, quando os historiadores romanos e biógrafos dos imperadores começam a quebrar o gelo da semi-história (COLLINGWOOD, 1987,p.28-29) começaram lá na antiga Grécia, dando base para os cronistas medievais e modernos, até chegar ao século XIX.
1.1 ? A historiografia positivista.
Essa pequena introdução foi feita somente para se ter uma idéia de como surgiu o estudo historiográfico e de qual maneiras as ciências auxiliares ajudam na troca cognitiva de conhecimentos entre o sujeito e o objeto (SCHAFF, 1987). No século XIX o mundo estava se desenvolvendo rapidamente em todos os aspectos, principalmente no aspecto industrial, onde todos os dias se desenvolviam novas tecnologias de produção de manufaturas, lógico que influenciadas pela revolução industrial. Nesse contexto se promove uma rápida valorização das ciências exatas, em especial a matemática, química, física e outras mais. Nesse cotidiano, tudo era passado pelo ?crivo? das ciências exatas, até mesmo a história, onde todo o fato tem que ter uma ampla gama de documentos e relatos que deveriam por obrigação comprovar aquele fato. A história ganhou um caráter científico e exato, como queria Heródoto, pois o fato era questionado por base do documento, como nos confirma Toledo:
? Pelo desenvolvimento Vigoroso das técnicas de investigação a serviço das críticas externas e internas de fontes históricas, acompanhada de abundante documentação e investigação de fontes documentais...? (TOLEDO, 2001, p.103)
Esse método historiográfico é conhecido como método cientificista, ou método positivista, por causa da doutrina criada pelo francês Auguste Comte. Na doutrina de Comte, a humanidade passava por três fazes: a faze escura, a faze científica e a faze positiva. Na faze escura, o homem estava cego pelos mitos e contos, o que é diferente da faze científica, onde a observação e as leis naturais ocupavam o lugar da escuridão, culminado assim na faze positiva, onde toda a crença seria abolida e a história e a sociologia seriam as novas crenças, lógico que apoiadas pelos documentos e fatos.
Nesse contexto das ciências auxiliares se desenvolvem várias ciências, que não tratarei nesse artigo, mas uma em especial: a medalhistica, que será assunto do próximo artigo.
Referencias Bibliográficas:
BLOCH, Marc. Analogia d História ou o ofício do historiador. Rio de janeiro, Jorge Zahar, 2001.
COLLINGWOOD, R.G. A idéia de História. Rio de Janeiro, Martins Fontes, 1987.
TOLEDO, Franciso Sodéro de. Marxismo: uma reflexão. IN: Revista Idéias e argumentos. São Paulo, Unisal, 2001.
SANTOS, Leandro Pereira. Numismática Brasileira. Disponível em : www.mercadolivre.com.br/guias. Acessado em: 06/04/08. |