Julio Cohen *
Você
já parou para pensar como as excelentes imagens da TV por assinatura podem
chegar a você por satélite? Ou como são armazenadas horas de imagens de
excelente qualidade nos DVDs? Ou, ainda, como é possível transportar seis
canais de áudio e centenas de canais de TV? Tudo isso é possível graças às
tecnologias criadas por um grupo chamado MPEG: Motion Picture Experts Group.
Este grupo foi formado pelos organismos internacionais de padronização IEC e
ISSO e trabalha de forma aberta, com reuniões realizadas periodicamente para
debater as conquistas alcançadas por cada um dos desenvolvedores. O MPEG
desenvolveu padrões que estão cada vez mais presentes em nossas vidas.
Equipamentos de home theater e computadores incorporam tecnologias criadas e
padronizadas por este grupo e, sem seu trabalho, muito do que hoje é
corriqueiramente utilizado talvez não existisse.
O primeiro padrão criado pelo
grupo, o MPEG-1, foi terminado em 1991, e em seguida começaram os trabalhos
para o desenvolvimento e padronização do formato MPEG-2. O MPEG-1 ainda é
largamente utilizado em informática. Faz grande sucesso por ser o padrão de
compressão de imagens utilizado pelo VideoCD, formato de vídeo doméstico
amplamente adotado na China e em outros países asiáticos, onde existem milhões
de players capazes de executar os milhares de títulos disponíveis. O mercado
do VideoCD nessa região é tão grande que a chegada do DVD não representa uma
ameaça ao formato, já que o preço dos players e discos é muito baixo. A
qualidade do MPEG-1 é comparável ao VHS, porém, é interessante notar a
grande quantidade de artifícios digitais que podem ser apresentados,
prejudicando enormemente a qualidade da imagem, principalmente em cenas de ação.
O formato MPEG-1 também
beneficiou-se do surgimento do conteúdo ?multimídia? nos computadores.
Milhares de softwares, especialmente jogos, utilizam-se de vídeos MPEG-1 para
trazer aos computadores imagens em movimento. Com a popularização da internet,
surgiram centenas de sites com vídeos MPEG-1 dos mais variados tipos.
Com o fim dos trabalhos relacionados
ao MPEG-1, o grupo passou a dedicar-se ao MPEG-2. Este padrão foi criado
basicamente para oferecer imagens de qualidade superior, com a compressão de vídeo
entrelaçado de 480 linhas, o padrão do NTSC (sistema de cores utilizado nos
Estados Unidos e outros países). Em relação ao áudio, o MPEG-2 pode
transportar múltiplos canais de áudio, ao contrário do MPEG-1, que permite a
utilização de apenas dois canais.
O MPEG-2 é a base de inovações
como o DVD, a televisão por satélite - disponível no Brasil através das
operadoras DirecTV (com algumas modificações) e Sky - e da televisão digital.
Sem ele, provavelmente, não teríamos estes meios sensacionais de
entretenimento, e hoje estaríamos longe do mundo digital cada vez mais
envolvente. O MPEG-2 é especialmente superior para imagens captadas
eletronicamente, através de câmeras de vídeo, e é por este motivo que as
grandes produções do cinema finalmente puderam ser apresentadas em todo o seu
esplendor através do DVD, formato construído sobre o MPEG-2.
Provavelmente, muitos usuários dos
sistemas DirecTV e Sky perguntaram-se por que existe tanta diferença de
qualidade entre as imagens recebidas por suas pequenas parabólicas e aquelas
armazenadas nos pequenos discos prateados de DVD. Existem várias diferenças,
que vão desde a origem das imagens até a decodificação realizada no aparelho
do consumidor. Estas diferenças são cruciais para determinar a qualidade final
da imagem. Para entender melhor
isto, vamos nos referir aos sistemas DirecTV e Sky como ?DTH?,
Direct-to-Home.
O primeiro fator a ser considerado
é a origem dos sinais. Os sistemas DTH costumam captar as imagens dos diversos
canais através dos satélites, que distribuem estas imagens de forma analógica.
Outros já transmitem o sinal comprimido e a descompressão gera falhas naturais
ao processo, que degradam a imagem. Já no DVD, utilizam-se masters digitais de
alta qualidade, muitas vezes gerados a partir de câmeras digitais ou de películas
restauradas. Por isso, é inegável que a qualidade do material a ser
transmitido pelo DTH é quase sempre inferior àquela armazenada pelo DVD.
O segundo fator determinante para a
qualidade da imagem é a compressão. O MPEG-2 é um ?codec?
(codificador-decodificador) de compressão, no qual é possível armazenar
imagens e áudio que tenderiam a ocupar muito espaço se não estivessem
comprimidos. A compressão é obtida através do descarte de material imperceptível
ao olho humano e também do mapeamento de pedaços da imagem que se repetem,
para que não haja redundância nas informações a serem armazenadas. As
imagens sempre terão perdas, algumas mais perceptíveis que outras, mas sempre
existirá algum tipo de degradação. Quando falamos em compressão,
imediatamente alguns vão se lembrar do popular utilitário de compressão ?WinZip?,
utilizado em computadores. Porém, ao contrário do MPEG, o formato ZIP não é
?lossy? (com perdas), e os arquivos comprimidos são restaurados
perfeitamente após a descompressão.
A compressão feita pelos sistemas
DTH é realizada ?on-the-fly?, isto é, imediatamente após a captação das
imagens de outros satélites. A imagem destes satélites é captada num grande
centro, como o da DirecTV em Colorado Springs, nos EUA, comprimida e
retransmitida para o satélite. Portanto,
não existe intervenção manual no processo de compressão. Como estes sistemas
utilizam satélites que devem transmitir centenas de canais, entre eles canais
para outros países, pacotes, etc., deve-se utilizar taxas de compressão mais
altas que no DVD. Além disso, a taxa de compressão varia de canal para canal.
Os satélites são equipados com ?transponders?, que são capazes de
transmitir uma quantidade variável de canais de vídeo.
Portanto, quanto maior a compressão,
maior a quantidade de canais transmitida. Para cada canal é definida a taxa de
transmissão, e normalmente ela fica em torno de 3 Mpbs??? (megabits por
segundo). Esta desigualdade na taxa de transmissão faz com que alguns canais
tenham imagens muito ruins, enquanto outros, como os canais de filmes,
especialmente os ?pay-per-view?, tenham uma qualidade muito boa, semelhante
à do DVD. Os sistemas mais modernos permitem que seja utilizada compressão
variável. O sistema monitora cada canal e vai variando, entre limites pré-determinados,
a compressão de cada um.
A compressão nos DVDs é bastante
diferente. Os discos passam por um processo de autoria, geralmente efetuado pelo
estúdio ou por uma empresa especializada. A compressão utilizada nos DVDs também
é variável. Nas cenas de ação, por exemplo, pode-se utilizar menos compressão
e os artifícios digitais simplesmente não aparecem. Nas cenas mais lentas, com
menos movimento, mais compressão é utilizada, economizando o espaço limitado
do DVD. Como cada vez mais se está adotando DVDs de dupla camada, nos quais
podem ser armazenados 9Gb de dados, o trabalho de compressão pode ser
direcionado para que seja obtida uma qualidade ainda melhor de imagem. A
compressão é feita por uma equipe especializada e normalmente leva tempo, por
isso a qualidade final é muito superior às melhores transmissões do DTH.
A transmissão das imagens é outro
fator determinante para a qualidade final das imagens. Os sistemas DTH estão
sujeitos a problemas de instalação, como antenas mal direcionadas ou
simplesmente rajadas de vento. Além destes fatores, explosões solares causam
indesejáveis interferências eletromagnéticas nos satélites. Chuva e neve são
fatores de imensa importância para a qualidade do sinal. Às vezes, com chuvas
muito fortes, temos a interrupção total do sinal ou então a degradação das
imagens, com desagradáveis efeitos, como paralizações ou enquadrinhamento da
imagem. Já o DVD sofre bem menos com a transmissão. Os dados estão
armazenados no próprio disco e a descompressão é feita dentro do mesmo
aparelho. Arranhões e sujeira no disco afetam a reprodução, porém não se
pode considerar que estes sejam problemas sérios, já que o formato prevê a
correção dos erros causados pelos arranhões, e o DVD não sofre a interferência
de fatores climáticos e de instalação que afetam o DTH.
Ao final de todo o processo, a
descompressão dos sinais MPEG-2 é feita nos DVD players e decoders DTH, que são
conectados de forma semelhante a TVs e/ou projetores. Utilizam também o MPEG-2
os personal video servers (PVS), aparelhos que armazenam inteligentemente horas
de programação de TV.
Não podemos deixar de citar um
detalhe que envolve o áudio do DVD. O MPEG-2 é um formato de compressão de vídeo
e áudio. Ficou
definido que o formato de áudio padrão dos DVDs região 1 seria o Dolby
Digital, porém também se previu a utilização do PCM (Pulse Code Modulation,
o formato descomprimido dos CDs de áudio). Nos DVDs região 2, europeus, seria
utilizado o MPEG-2. Porém, na prática, isso não aconteceu, já que foram lançados
títulos em Dolby Digital e, posteriormente, DTS. Pouquíssimos títulos foram
lançados com áudio multicanal MPEG-2.
O futuro trará novos serviços
baseados em MPEG-2. Alguns deles, como o sistema de transmissão de alta resolução
ATSC, o padrão norte-americano, utilizam o MPEG-2. Portanto, vamos conviver
ainda por vários anos com o MPEG-2. Por ser um formato aberto, criado por um
comitê democrático, sugestões e adaptações podem ser feitas. Portanto, o
mundo digital, que cada vez oferece mais inovações, trará dispositivos que
provavelmente terão incorporado o excelente padrão MPEG-2.
* Julio Cohen é colaborador da revista HOME THEATER.
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