Fonte: http://www.renatovivacqua.com/HTML/artigos/mpb_mais_rica.htm
O país caiu na breguice?
Os grandes compositores já estão entrando na fase do cansaço. Caetano, Gil, Milton Nascimento, Chico Buarque. E não acredito que a nova geração irá fazer música preciosa como esses que eu citei.
Afinal, que tipo de música se faz hoje?
São bolerões. Suas letras são muito indigentes. A música baiana a axé-music - é uma música pra pular brasileira. Com raríssimas exceções, são poucos os compositores que aliam uma melodia interessante com uma letra interessante. São músicas feitas para pular e para suar. O pagode, outro tipo de música, também foi desvirtuado. Começou como samba de roda. Um dos poucos grupos que mantém o pagode em sua pureza é o grupo Fundo de Quintal. O resto é samba bolero. Aí a gente pega o controle remoto da televisão e ás vezes vê um conjunto cantando em três canais diferentes ao mesmo tempo. Não há quem agüente. Vira arroz de festa. Ninguém agüenta ouvir uma música de qualidade duvidosa com tanta saturação. Mas não sou radical. Ainda prefiro essa música do que aquela de má qualidade vinda do exterior. Uma música que está sobrevivendo heroicamente é o forró que ainda não conseguiu ser deformado totalmente. Temos o Dominguinhos que o vem preservando.
Quais são os ingredientes para se fazer uma boa música?
É muito difícil. Acho que se trata de uma algo inato. O talento já nasce com a pessoa. Não resta dúvida que a primeira coisa é o talento. Segundo, um pouco de sorte para se chegar às gravadoras ainda é muito difícil. O Tom Jobim dizia que a música é 95% de transpiração e 5% de inspiração. Mas eu concordo mais com mais com Carlos Drummond de Andrade que dizia que se precisa de inspiração até para atravessar a rua. Então são esses três ingredientes: o talento, a inspiração e a sorte.
Quais são, ao seu ver, os grandes compositores brasileiros?
A música é temporal. Ou seja, a música não tem época. Ser saudosista, dizer que antigamente as músicas eram muito melhores é um erro. Existia bagulho, como dizia Ary Barroso, naquela época. E o próprio Ary barroso era bem melhor como musicista do que como letrista. Os mais completos, para mim são dois: Chico Buarque e Noel Rosa, pela regularidade do encanto da produção. Da beleza da produção. Raramente a produção desses dois decaiu o nível. Existem outros como Lamartine Babo, Chiquinha Gonzaga. Lupicínio Rodrigues foi um dos maiores letristas da música brasileira. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gonzaguinha. Eu seria injusto se deixasse de citar alguns outros como Wilson Batista e Geraldo Pereira da área do samba. Vale também lembrar do talento de João Gilberto, com a bossa nova.
Quais são os principais marcos da história da MPB?
Como eu disse, a Chiquinha Gonzaga fez a fixação da música carnavalesca com Abre Alas. Essa música foi cantada durante uns dez anos nas ruas. A partir de 1917, surgiu o primeiro samba gravado chamado Pelo Telefone, um marco porque saiu do maxixe para o samba. Aí depois tivemos, por influência européia, a fase carnavalesca das marchinhas. Tivemos várias fases. Veio a fase do samba canção que era um samba mais lento. Tivemos a fase do samba de fossa, aquele que a Maysa cantava. Foi contra isso que o pessoal da bossa nova se insurgiu porque achava aquela coisa muito melosa. Apesar de algumas letras pueris, temos que reconhecer que a bossa nova faz propaganda do Brasil lá fora muito maior do que o Itamaraty.
E a Jovem Guarda?
A Jovem Guarda era aquele negócio descompromissado politicamente. Roberto Carlos dava entrevista e dizia que era de direita mesmo. Eu tenho essa entrevista guardada. Era uma anestesia geral com aquele tipo de música estimulada pelo governo. Os pais não gostavam, mas o governo revolucionário gostava. Os pais não gostavam de ver os filhos com aqueles cabelões. Mas os filhos, entretidos com a Jovem Guarda, não pensavam em política.
A bossa nova contrapôs a Jovem Guarda?
A bossa nova era uma música elitista, nascida nos apartamentos. Dizem que no apartamento da Nara Leão. Outros dizem que não. Mas não se pode negar que a bossa nova, justamente, evitou a bolerização. Ela criou uma postura mais crítica. E o principal é que se expandiu pelo mundo, deslumbrando os músicos de jazz. Garota de ipanema é uma das dez músicas mais tocadas no mundo. Enfim, a Jovem Guarda não teve o sucesso e a dimensão da bossa nova, pelo menos com grande duração.
E o rock brasileiro?
Até o rock brasileiro, que eu não era contra porque evitava que a gente engolisse um rock de péssima qualidade lá de fora, também está meio entorpecido.
A que o senhor atribui esse entorpecimento?
Não sei. Isso precisa de uma análise sociológica profunda para saber o que está acontecendo. Não sei se é a desesperança. As pessoas estão procurando coisas mais fáceis, mais deglutíveis. Então estão preferindo essa música de fácil consumo. Tem um cunho social também. Mas ainda tem gente boa.
Cite alguns fatos pitorescos da MPB?
Villa Lobos e Ary Barroso morriam de ciúmes um do outro. Viviam se espicaçando. Antônio Maria, autor de Ninguém me ama, que os bossanovistas detestavam, também tinha richa com o Ary Barroso. Um dia, eles estavam juntos na boemia, já tinham tomado muitas. O Ary Barroso disse ao Antônio Maria: canta Aquarela do Brasil aí. O Antônio Maria cantou toda a música. Em seguida, o Ary Barroso perguntou: agora me pergunta se eu sei cantar Ninguém me Ama? O Antônio Maria: Você sabe cantar Ninguém me Ama? Ary Barroso retrucou: "Não sei e nem quero aprender". Villa Lobos era muito enciumado. Mas o Getúlio Vargas era um ditador que lhe prestigiou muito.
Qual a posição de Mário de Andrade que também pesquisou a MPB?
Foi uma grande personalidade de nossa cultura, que tinha formação musical clássica. Foi um polivalente. Foi ótimo escritor, um pesquisador e folclorista notável. Deve-se muito da preservação da memória brasileira a Mário de Andrade que passou por todos os sertões pesquisando todo tipo de música.
Qual a comparação que o senhor faz entre a MPB e a música de outros países?
A MPB é a mais rica do mundo. São 16 gêneros musicais. Não acredito que exista outra música no mundo com essa mescla. Mas agora passa por uma crise. Eu acredito que ela vai sair da UTI. Não se trata de um caso perdido. A mídia ainda vai, de repente, se conscientizar que precisa dar mais espaço a outros compositores. Não sei ainda se estamos nos refazendo o golpe de 64 que praticamente esmagou tudo que surgia de novo. Talvez ainda estejamos pagando um tributo àquele tempo de censura. O brasileiro está voltando a ter inspiração. Tem lugar para todo mundo, mas precisa melhorar o nível. Do modo que a música de má qualidade está sendo aceita, principalmente a divulgada pela televisão, ninguém quer mudar as coisas. Não acho que essa música deva ir para o limbo, mas deve ter uma dimensão bem menor do que a que está tendo atualmente.