
Um pequeno universo de dimensões atômicas é uma das bases da nova ciência tecnológica do futuro. Esta constatação não saiu de um livro de futurologia, nem de um filme de ficção científica. Estamos falando de uma vertente da ciência que é recente e está cada vez mais presente no nosso cotidiano.
A Nanotecnologia é a arte de manipular a matéria pelo átomo, utilizando a medida nanômetrica, a bilionésima parte do metro - algo quase 100 mil vezes menor que a espessura de um fio de cabelo -, para criar novos materiais, substâncias e produtos. Esses novos materiais fabricados molecularmente substituirão os tradicionais e serão mais eficientes e econômicos.
Admirável mundo novo
No admirável mundo da nanotecnologia, remédios ?circulam? pela corrente sangüínea até chegar ao órgão doente, um equipamento eletrônico é capaz de avaliar a qualidade de bebidas e é duas vezes mais sensível que o paladar humano, ímãs em micro esferas de plástico ajudam a retirar manchas de óleo do mar.
Alguns recentes inventos da Nanotecnologia já estão na rua. É o caso dos carros da Mercedes Benz da Alemanha que já são cobertos por um verniz tão liso que qualquer coisa que tentar riscá-los acaba deslizando porque suas moléculas são mais densas e não deixam tantos espaços vazios. Na engenharia doméstica, já existe uma embalagem que dobra a validade dos alimentos porque os nanocompostos de argila inseridos no produto bloqueiam o oxigênio (um protótipo desse já foi desenvolvido pela Unicamp), dificultando, assim, a deterioração da comida. A Suzano Petroquímica pretende investir US$ 20 milhões de dólares nos próximos dois anos em pesquisa e desenvolvimento em Nanotecnologia.
"Essa tecnologia pode ser aplicada em diversos segmentos. É um mundo de oportunidades. A única limitação é a criatividade do homem", diz Claudio Marcondes, gerente de novos produtos da Suzano Petroquímica. O objetivo da companhia é manipular as resinas de polipropileno a serem usadas nas embalagens para alimentos e de peças automotivas. "Imagina uma embalagem que avise ao consumidor que o alimento está fora da validade. A Nanotecnologia vai ajudar nesse sentido", completa.
Mais, muito mais
E não pára por aí. Em poucos anos CD/DVDs terão capacidade de armazenar centenas de Gigabytes de informação, o que permitirá, por exemplo, que em um único CD ou DVD reúna uma quantidade de informação comparável a uma biblioteca com milhares de livros.
Na medicina do futuro, existirão adesivos para tratar câncer de pele. Por serem sensíveis à luz, os compostos inseridos no adesivo têm a capacidade de danificar as células cancerígenas e formar uma crosta, que será substituída por tecidos sadios. A manipulação das nanosubstâncias pode fazer com que as moléculas dos princípios ativos de remédios se tornem mais rentáveis, deixando-os mais baratos e com menos efeitos colaterais.
Novas tecnologias que usam nanopartículas embebidas em tecidos poderão produzir, por exemplo, vestimentas especiais capazes de alterar propriedades físico-químicas como maleabilidade, dureza, resistência mecânica e à corrosão. Já imaginou sua roupa servindo de material para engessar um osso fraturado? Mesmo hoje já é possível sintetizar materiais plásticos e cerâmicos que são resistentes a perfurações de projéteis ou à corrosão por agentes químicos.
Investimentos
A Fundação Nacional de Ciências - NSF dos Estados Unidos estima que de 2010 a 2015 os investimentos na área de materiais, produtos e processos industriais baseados em nanotecnologia deverão chegar a US$ 1 trilhão. Para acompanhar a evolução mundial nessa área, o MCT (Ministério de Ciência e Tecnologia) prevê criar o Grupo de Trabalho de Nanotecnologia que vai elaborar o Programa de Nanotecnologia e a inserção no Plano Plurianual 2004/07 do Programa de Desenvolvimento da Nanociência e da Nanotecnologia.
Resultados no Brasil
Um dos projetos que mais tem chamado atenção é a ?Língua Eletrônica?, um sensor gustativo com capacidade de diferenciar padrões básicos de paladar - doce, salgado, azedo e amargo -, em concentrações abaixo do limite que o ser humano consegue identificar. A novidade foi desenvolvida pelo pesquisador da Embrapa Instrumentação Agropecuária, Luiz Henrique Capparelli Mattoso, em parceria com Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, com o apoio do MCT.
O meio ambiente também sai ganhando com os avanços obtidos no estudo da nanotecnologia. Um trabalho desenvolvido na Universidade Federal de Goiás permite a limpeza de manchas de óleo no mar de maneira mais barata e eficaz que os métodos utilizados atuais. O processo consiste em jogar em cima da mancha um pó formado de micro esferas de plástico de 0,1 milímetro contendo nanopartículas magnéticas. O pó não deixa que a mancha se espalhe e depois é puxado com uma bomba que separa o óleo, a água e as esferas magnéticas, permitindo o reaproveitamento de todos os elementos.