 Revista Pay TV de tempos em tempos, as teles voltam a rondar o universo da TV por assinatura. Desde 1993, quando a então Telebrasília (operadora de telefonia no Distrito Federal, hoje parte da Brasil Telecom) iniciou os primeiros desenhos do projeto de uma vídeo-rede, a entrada de grandes empresas de telecomunicações na seara da TV paga é algo que vem se desenhando com maior ou menor intensidade. Há pouco mais de dois anos, a Telefônica deu o tom de como, provavelmente, será esta ofensiva: vai ser com tecnologias de vídeo sobre ADSL. Após um certo pânico dos operadores de cabo, a coisa acalmou, até porque o projeto da Telefônica (ou de qualquer outra tele) não saiu do papel, devido a problemas tecnológicos iniciais.
Mas cada uma destas ondas vem impulsionada por um fato novo, e a cada vez parece que a onda chegará mais perto da praia. Desta vez, quem está impulsionando a maré atende pelos nomes de Microsoft e Brasil Telecom. São dois ingredientes, por enquanto, separados, mas que ao se juntarem terão grande potencial explosivo.
A Microsoft está no centro de uma tecnologia classificada pela maioria dos especialistas ouvidos por PAY-TV como promissora o bastante para tornar passados todos os problemas anteriores envolvendo vídeo por redes de ADSL. Trata-se do Windows Media 9 (leia a seguir sobre o programa).
Já a Brasil Telecom vem com a vontade e o dinheiro para fazer a realidade acontecer. Se essa combinação de ingredientes dará certo é algo ainda nebuloso, mas sem dúvida não estamos mais falando dos projetos de vídeo-rede da década de 90, nem dos testes da Telefônica de 2001. A onda é maior e está mais próxima.
Multimídia
A Brasil Telecom, não é segredo para ninguém, tenta desde 2002 criar um produto para oferecer a empresas que precisem distribuir conteúdo a assinantes residenciais. Naturalmente, o foco da tele, que opera em dez Estados brasileiros (representando cerca de um terço do PIB nacional), recai sobre operadores de TV paga e programadoras. O princípio é simples: a Brasil Telecom tem acesso a 10,6 milhões de assinantes. Destes, 220 mil assinantes (que serão quase 400 mil até o final do ano) têm acesso banda larga por ADSL. Por outro lado, a tele, assim como todas as demais operadoras de telefonia fixa, perde espaço para as operadoras de serviços móveis. Estas empresas de celular já têm hoje mais clientes do que as teles fixas. Além disso, o celular não é mais apenas um telefone com o qual se pode andar. Visores coloridos, jogos, tons de campainha polifônicos, câmeras fotográficas digitais, capacidade de transmissão de dados em alta velocidade, mensagens com imagens e sons, portais de voz, aparelhos sofisticados com rádio, MP3 player e gravador de voz integrados - tudo isso faz com que o mercado de celulares domine cada vez um espaço que antes, acreditava-se, estava destinado apenas a empresas de telefonia fixa ou operadoras de TV paga: o mercado dos provedores de serviços multimídia.Talvez para combater a investida das teles celulares, talvez para ganhar terreno num mercado de banda larga, o fato é que em outubro de 2002 a Brasil Telecom anunciou que testaria a tecnologia de distribuição de vídeo sobre ADSL. Causou muita confusão, que teve como arena o Congresso da ABTA daquele ano. Depois disso, a empresa mostrou a bandeira branca, garantiu que não ofereceria ela própria o serviço, mas forneceria apenas a rede. A Brasil Telecom colocou-se apenas como provedora da infra-estrutura e abriu as portas para parcerias com empresas de TV a cabo que quisessem distribuir seus sinais por ADSL.
No princípio, os testes da Brasil Telecom de vídeo sobre ADSL estariam baseados em uma tecnologia da Nec que tem por trás a compressão MPEG 2. Em tese, transmitindo-se um sinal de dados de 3 Mbps seria possível ter, com a ajuda de um set-top apropriado, vídeo com a qualidade do DVD. A Viacabo/Adelphia e a Foz Telecomunicações (operadora afiliada da Net Brasil em Foz do Iguaçu) seriam as parceiras da BrT nos testes. Passado um ano, quase nada aconteceu de fato, mas muita coisa mudou. O MPEG 2 vai ficando cada vez mais no retrovisor como plataforma para a transmissão de vídeo digital. E, mais importante, a Microsoft está colocando todos os seus esforços na viabilização do Windows Media 9 (WM9), uma tecnologia de compressão derivada do MPEG 4, com algumas melhorias, e que promete fazer no mínimo a mesma coisa que fazia o MPEG 2 em um terço da taxa de transmissão.
Compressão
"Transmitir vídeo sobre ADSL é, basicamente, um problema de compressão. Hoje, com o MPEG 4 e, especificamente, com o WM9, é possível entregar vídeo com qualidade de áudio e imagem equivalente a um DVD com uma taxa de 1 Mbps a 1,5 Mbps. E essa taxa é algo bem mais próxima do que as teles conseguem oferecer no ADSL", diz Marcos Galassi, fundador da LabOne e um dos pioneiros em projetos de transmissão de imagem por Internet no Brasil.
É claro que, como qualquer outra tecnologia, o WM9 pode não vingar. Mas não é isso que está aparecendo no horizonte. Hoje, o padrão é muito bem aceito no meio profissional de vídeo e cinema, já é usado para fazer a distribuição de conteúdo para salas de cinema digital no Brasil e, impulsionado por uma agressiva política comercial, deve se tornar padrão.
A Brasil Telecom aposta que essa tecnologia resolverá o gargalo que o MPEG 2 apresentava. As redes de ADSL, em tese, podem oferecer acesso de até 8 Mbps no downstream (da central para a casa do assinante). Mas essa taxa é teórica, sendo na prática atenuada pela configuração das centrais, distância entre as centrais e a casa do assinante, número de emendas no fio de par trançado, entre outras variáveis.
"A transmissão de vídeo sobre ADSL dependia de tecnologia, fabricação e investimentos. A questão tecnológica está muito bem encaminhada com o Windows Media 9. A Microsoft está colocando todo o seu poder de mercado sobre os fabricantes para que eles incorporem esta tecnologia aos novos hardwares que estão sendo desenvolvidos. E as teles poderão fazer os investimentos se julgarem que há espaço a ser ocupado", ressalta Fabiano Carneiro, consultor que até recentemente desenvolvia o projeto de digitalização e novos serviços da Net Serviços e foi um dos principais idealizadores dos projetos das teles para a criação das vídeo-redes nos anos 90. Ele estima que, depois que o Windows Media 9 se tornar uma tecnologia comum a diversos fabricantes de equipamentos, a tecnologia de vídeo sobre ADSL leve dois anos para ganhar mercado, mas isso depende de uma disposição de investimentos das teles, que por sua vez passa por modelos de negócio rentáveis ou pela simples necessidade de ganhar um mercado que está sendo perdido para as empresas de celular.
"A Microsoft está apostando que essa tecnologia será o padrão de transmissão de imagem por redes IP e está se esforçando para fechar o maior número possível de parcerias com fabricantes de hardware para tornar o WM9 um padrão de uso", diz Paulo Cesar dos Santos, gerente de desenvolvimento de negócios da Microsoft no Brasil. "Acreditamos que o vídeo sobre ADSL é uma das principais aplicações para a tecnologia", completa.
Até o final do ano, a Brasil Telecom garante que inicia os testes de transmissão de vídeo sobre ADSL em parceria com a Viacabo/Adelphia na cidade de Itajaí/SC, usando a tecnologia da Microsoft. Os testes estão prometidos desde outubro do ano passado, mas esbarraram em uma infinidade de obstáculos.
Problemas
O primeiro problema foi convencer o setor de TV por assinatura que os testes em si não configuravam uma afronta direta ao setor. A BrT precisou então mostrar uma política de parcerias. Depois veio o problema com a Net Brasil.A empresa, responsável pela negociação de conteúdo para a Net Foz (que seria a parceira nos primeiros testes) recusou-se a autorizar a operadora a ceder à Brasil Telecom qualquer um dos canais com quem mantém contratos para os testes. Com isso, a operadora de Foz do Iguaçu ficou com um headend cheio de equipamentos, mas não pôde levar os testes para além de alguns poucos usuários. "É uma pena que as experiências tenham atrasado tanto, pois para nós é muito importante que a tecnologia se mostre viável e assim possamos economizar na construção da rede", diz Marina Ghisi, diretora da Foz Telecomunicações. Ela lembra que a empresa, que cabeou 10% de Foz do Iguaçu, enfrenta concorrência na cidade e ainda precisa lançar redes de cabo em mais 80% dos domicílios, por conta do contrato de concessão. Para a empresa, poder utilizar a infra-estrutura da Brasil Telecom para entregar o conteúdo seria uma economia e tanto. "Até porque, não é só fazer a rede, mas também temos que ficar pagando os postes na cidade inteira para ter uma penetração inferior a 20% com a nossa rede própria", lembra a executiva.
A Brasil Telecom não fala oficialmente sobre os testes. A única manifestação veio de Waldir Morgado, diretor de produtos e serviços da BrT durante apresentação ao Conselho de Comunicação Social, em agosto, quando o assunto foi discutido. Mais uma vez, a BrT ressaltou que quer ser apenas provedora de infra-estrutura para quem tiver a outorga para a prestação de serviços de TV paga. Os operadores de TV paga até acreditam que a BrT tenha boas intenções, mas lembram que serviços de PPV e video-on-demand podem ser prestados por qualquer empresa com outorga para prestar serviço de comunicação multimídia (SCM).
Extra-oficialmente, o que se sabe é que no momento em que os testes de Itajaí começarem, eles deverão durar entre 60 e 90 dias, período que os testes em Foz do Iguaçu deveriam ter durado se não fossem os problemas com a Net Brasil. As diferenças entre as experiências em Foz e Itajaí ficam por conta da tecnologia. Na cidade paranaense, os equipamentos da Nec eram para testar a transmissão do vídeo sobre a rede ADSL usando compressão por MPEG 2. Em Itajaí, os testes serão com WM9/MPEG 4. A operadora de telecomunicações quer conhecer a tecnologia para então definir um plano de negócios, dizem fontes próximas.
Modelo de negócios
Mas ao que tudo indica a Brasil Telecom tem já alguns esboços do que poderia ser seu plano comercial. Para a Net Foz, por exemplo, a tele sugeriu alguns caminhos do que poderia ser um acordo futuro: percentual sobre a receita por usuário e percentual sobre o faturamento. "É melhor ter um modelo assim do que ter um modelo em que tenho que arcar com todos os custos da rede sozinha", diz Marina Ghisi.
A parceria para a terceirização da rede pode ser, na teoria, um grande negócio. Mas, na prática, isso aconteceu em (poucos) casos isolados. Apenas a Way TV, em Minas, trabalha com modelo de rede terceirizada. Em Belo Horizonte, a Multicanal, nos idos dos anos 90, também adotou esse caminho. Mas desperdício e falta de sinergia entre empresas de telecomunicações e de TV paga é que constituem a regra no Brasil.
Brasília
Para se ter uma idéia, a vídeo-rede da Telebrasília foi construída, ficou pronta e hoje chega com um par de fibra até a entrada de cada superquadra de Brasília (o equivalente, em termos populacionais, a um quarteirão grande numa cidade como São Paulo). Desse par de fibra, sai uma rede coaxial bi-direcional que vai até cada prédio da superquadra. É uma rede de fazer inveja a muita operação de TV a cabo e que hoje não serve para absolutamente nada. A rede está totalmente ociosa, parada desde 1996, quando o governo colocou na geladeira os projetos das vídeo-redes por conta da legislação de TV a cabo e pela falta de interesse das operadoras. A mesma coisa acontece, em escala menor, em Goiânia.
Algumas pessoas que se envolveram no projeto da vídeo-rede da Telebrasília na década de 90 estão hoje desenvolvendo os projetos de ADSL da Brasil Telecom, o que representa uma experiência importante quando o terreno político é tão minado. São pessoas que sempre acreditaram em integração entre teles e empresas de TV paga para a distribuição de conteúdo, mas que sabem que nada disso acontece com facilidade. O que se comenta no mercado é que a Brasil Telecom talvez tenha seus olhos voltados, sobretudo, para as crescentes receitas do pay-per-view e para o promissor video-on-demand, que complementariam melhor o serviço de ADSL oferecido hoje.
O problema é que, para viabilizar a entrega de pay-per-view ou vídeo-on-demand na tela do televisor será necessário, além do modem ADSL, um set-top que decodificará o fluxo de dados para sinais de vídeo. O set-top para ADSL custa US$ 150, em média, enquanto um set-top digital para redes de cabo baseado em tecnologias convencionais já custa em torno de US$ 80. Além disso, existe o custo do próprio modem de ADSL, que gira hoje em torno de R$ 300 e é indispensável para esse modelo de negócios. No cômputo final, tecnologias de vídeo por ADSL custam bem mais caro se olhadas apenas na ponta do assinante, mas é preciso fazer a conta do custo de rede e sob qual modelo de negócios, pois a aposta do mercado é que a operadora não terá mais que arcar com os custos dos modems ADSL. Vale lembrar que o ADSL é hoje a grande aposta das teles para aumentar a receita média por assinante. Já são quase 700 mil acessos ADSL instalados. Só a Brasil Telecom investiu nessa tecnologia mais de R$ 120 milhões nos últimos três anos - desde que lançou o serviço - e não pretende parar de investir tão cedo. O mesmo vale para Telefônica e Telemar, para citar as maiores, que ainda não têm planos declarados de entrar no segmento de vídeo sobre ADSL.
Popular
Os modelos de venda do ADSL também estão ajudando a popularizar o a tecnologia. A BrT, por exemplo, foi a precursora em um modelo de vendas do ADSL baseado quase que inteiramente na rede de revendas diretas ao consumidor: quem compra e instala o modem é o usuário. A operadora não subsidia, não tem trabalho para instalá-lo nem precisa dar a manutenção. É o mesmo modelo que a própria Viacabo/Adelphia está adotando agora para os cable modems.
Superado o problema do custo, resta saber como a tecnologia de transmissão de imagens por ADSL se comportará em grande escala. Há operações comerciais em curso em países como Coréia e Japão (que, como uma fonte do setor de telecomunicações analisa, não podem ser tomados como parâmetro), mas há também casos de operações em funcionamento na Inglaterra (na cidade de Hull), no principado de Mônaco e no Canadá. Todos em MPEG 2. Se a Brasil Telecom conseguir viabilizar a tecnologia baseada em Windows Media 9, pode ser a primeira a utilizá-la no mundo. A lista de possíveis problemas é gigantesca e ainda não há resposta satisfatória para todos eles, Por exemplo, as DSLAM das teles, que são as centrais que ligam os modems ADSL às redes das operadoras, podem não suportar o tráfego; as redes de par trançado podem enfrentar problemas pela idade, quantidade de emendas e instalações precárias; e sobretudo as teles podem não saber como tratar um conteúdo sofisticado como um filme. É aí que entram, por exemplo, empresas como a ATV, empresa de integração tecnológica dirigida por Nestor Amazonas, que durante a última década dedicou-se ao desenvolvimento de negócios para a TVA e para a Abril . É a ATV quem está fazendo a ponte entre os provedores de conteúdo, a Brasil Telecom, a Viacabo e entre os fornecedores de tecnologia que vão gerenciar o conteúdo a ser entregue durante os testes.
"Esse é o momento em que todos estão conhecendo seus papéis e conhecendo as tecnologias envolvidas. No fundo, estamos todos em busca da verdade sobre essa nova realidade", diz Paulo Martins, CEO da Viacabo. Ele não esconde a sensação de ameaça que uma tele do tamanho da Brasil Telecom, presente na maior parte das 15 cidades em que sua MSO opera, representa, mas sabe que é melhor que a tecnologia de vídeo sobre ADSL seja conhecida por uma empresa parceira do que por uma empresa estranha.
A ABTA e a Anatel colocam seus "poréns" aos testes de vídeo sobre ADSL. Naturalmente, querem evitar que o mercado de operadoras de TV a cabo seja predado pelas teles. Entre advogados especialistas em TV por assinatura, também há uma lista de obstáculos legais. Os engenheiros vão colocar mais uma série de problemas a esta tecnologia. Até que a onda acabará batendo na praia.
No rumo das parcerias
Enquanto a terceirização de redes não surge, as operadoras de TV paga caminham para parcerias comerciais com empresas de telecomunicações. Dois bons exemplos ilustram essa realidade, um daqui e outro dos EUA.
Por aqui, a Sky e a Brasil Telecom estão lançando uma promoção conjunta nas praças onde a operadora de telefonia atua (região Centro-Sul do Brasil). A idéia é vender assinatura da Sky de forma combinada com o serviço de ADSL da tele, o Turbo.
A promoção consiste na contratação de uma determinada configuração de pacote da Sky. Este pacote inclui ponto adicional, pacotes de pay-per-view, desconto na instalação e habilitação, desconto em mensalidades etc. Ao mesmo tempo, o serviço de ADSL da Brasil Telecom vem com desconto de R$ 50 na mensalidade e R$ 50 na instalação. Ao todo, a Sky diz que o assinante que contratar esse pacote acaba tendo descontos e vantagens que chegam a R$ 990.
Já a BellSouth, uma das maiores operadoras de telefonia fixa dos EUA, lançou uma ampla campanha de venda conjunta de pacotes de serviços com a DirecTV (daquele país). A estratégia começa no início de 2004 e complementa a parceria já existente de cobrança única para os serviços das duas operadoras. Os clientes da BellSouth poderão adquirir serviços empacotados conjuntamente com a DirecTV por preços mais baixos. A estratégia nada mais é do que um passo rumo ao "one-stop-shopping".
Fonte: Revista Pay-TV
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