
Era 1992 e um encontro de ONGs, sediado no Rio de Janeiro, trazia para o Brasil muito mais do que discussões sobre
questões humanas e ambientais. Batizado de Fórum Global, o evento reuniu milhares de jornalistas de todo o mundo. Para dar vazão à informação produzida no evento, foram utilizados diversos meios de comunicação, incluindo uma novidade: a tal da Internet.
A World Wide Web, significado do famoso www usado em todas as páginas Internet, ainda era restrita ao meio acadêmico. Para acessar a Internet era preciso ter uma parafernália eletrônica luxuosa para a época: computador, linha telefônica e modem.
Os impensáveis 28.800 Kbps permitiam ao internauta ver páginas estáticas com um logo no meio e uma meia dúzia de links, nada de muito atrativo. Conteúdo com áudio e vídeo ainda era coisa de ficção científica. Naquele tempo, sucesso mesmo faziam os chats como o IRC, uma herança dos tempos das BBS, Bulletin Board Systems, sistema de troca de arquivos entre usuários anterior à Internet.
Cheiro de negócio
Três anos depois do Fórum Global, em 1995, surgiram no Brasil os primeiros provedores comerciais de acesso à Internet. Inicialmente, apenas a Embratel permitia acesso à Rede. Mas em seguida surgiram os primeiros provedores de acesso comercial, como o Mandic e Inside Information System. ?Naquela época tudo se resumia em duas palavras: esperança e especulação?, diz Eldes Saullo, empresário à frente da Brainter, empresa especializada em desenvolvimento Web e multimídia, um dos que estavam lá quando tudo ainda era novidade.
Bob Wollheim, que, entre outras coisas, fundou a empresa de investimentos em tecnologia Ideia.com, foi desacreditado quando resolveu transformar sua gráfica em um negócio de produção multimídia e criar websites. ?Ninguém me entendia, nem mesmo minha mulher. Mas a Internet cheirava a negócios?.
As novidades pipocavam. Cadê?, WebMotors, Aonde?, WebGuide, Fulano, O Elefante foram alguns dos sites que surgiram na onda da Internet. Mas o potencial da Rede também fez grandes cadeias varejistas se lançarem no mundo virtual. E a carreira de muitos profissionais ganhou novo impulso com a Internet.
Carlos Alberto de Lima, hoje consultor Web, não tinha idéia do que era a tal Internet até que o projeto do Ponto Frio.com, primeira loja virtual, pousou sobre a sua mesa. ?Achei que era uma grande oportunidade para virar a minha carreira?. Ele agarrou a chance e tornou-se referência por ter lançado a primeira loja online do Brasil.
Corrida do ouro
Dos provedores comerciais, a Internet passou a provedores gratuitos e grandes portais. Em sua maioria, os pequenos provedores foram vendidos para grandes grupos. Idéias brilhantes se transformavam em dinheiro rapidamente e gigantes estrangeiros chegavam ao Brasil. ?Presenciei investidores colocando dinheiro em vento?, relembra Eldes Saullo.
Com a euforia, a Web acabou perdendo a confiabilidade, negócios faliram e investidores desapareceram. Era a bolha da Internet, que afetou empresas pontocom em todo o mundo e também chegou ao Brasil, embora em proporções menores. ?Foi surpreendente como as marcas grandes entraram rápido no negócio e, ao mesmo tempo, não entenderam muito bem a Internet?, constata Wollheim.
Desafio
A recuperação foi lenta, mas hoje a Internet se firma como mídia eficiente, concorrendo com a TV na preferência dos brasileiros mais jovens. Apesar de mais madura, a Web no Brasil ainda tem inúmeros desafios e possibilidades a serem exploradas. Vírus e ataques hackers com proporções cada vez maiores, pequena taxa de penetração da Web são bons exemplos. ?O potencial da Rede ainda é subtilizado?, analisa Bob Wollheim.
Para Gustavo Viberti, criador do Cadê?, um dos ícones de sucesso da Web nacional, a Internet provocou muitas mudanças na vida das pessoas, mas é preciso que essas possibilidades sejam estendidas para mais gente. Viberti aposta que a próxima ?onda? da Internet nacional será a inclusão. ?O desafio agora é incluir. Apesar do grande crescimento, a taxa de penetração da Internet no Brasil ainda é pequena?. No Brasil, a grande Rede ainda é uma adolescente.