Luis Assib Zattar
Áudio de alta qualidade e
home theater são excludentes. O que eu quero dizer com isso? Quando
você quer áudio de alta qualidade, se preocupa somente com
o melhor desempenho possível principalmente no quesito de posicionamento
de caixa acústica. O posicionamento das caixas é muito diferente
do desejado. Normalmente, quando vai montar um home theater com 5 ou 6
caixas, você tem a posição das caixas pré-determinada,
tem pouca escolha sobre elas.
A segunda coisa, também muito
importante e normalmente esquecida, é que cada caixa dentro de um
ambiente atua como uma segunda caixa, um radiador passivo. Ela é
excitada pelo som das caixas principais, das outras caixas que estão
tocando no momento, e atua como um filtro seletivo provocando severas irregularidades
na resposta de freqüência, para dizer o mínimo. Ou seja,
quando você tem um áudio de só dois canais, não
há outras caixas na sala; quando você coloca outra caixa,
mesmo desligada ela atua negativamente em cima das outras caixas que estão
tocando no momento. Quando essas caixas estão ligadas produzindo
som ao mesmo tempo, a interação fica muito difícil
de prever, é uma coisa extremamente negativa.
Isso levou no passado um fabricante
inglês bastante famoso no meio high-end a exigir que seus revendedores
tivessem uma sala de demonstração chamada Single Speaker
Demonstration Room, uma sala com apenas um par de caixas acústicas,
não mais do que isso. E isso era motivo de enaltecer, porque lá
as caixas tocavam segundo o fabricante da melhor maneira possível.
Outras influências negativas
são as interligações entre os componentes, cada aparelho
ligado entre si. Cada conexão, cada fio, cada cabo provoca um ?efeito
antena?, por assim dizer, e isso puxa sujeira de rádio-freqüência,
de microondas e todo tipo de ondas que nós temos ao nosso redor
trabalhando no ambiente. Isso não é percebido como interferência
no sentido de que você tem que escutar o rádio para saber
que ele está lá interferindo, mas é uma maneira de
sujar o som. E os equipamentos digitais em geral jogam na rede elétrica
muito mais sujeira do que os analógicos. Essa sujeira, se não
é filtrada através de filtros de linhas, interfere negativamente
no áudio que está sendo reproduzido.
Isso nos leva a falar do ponto mais
importante das caixas em um home theater, que é a acústica.
Normalmente, há superfícies muito reflexivas. Todas as superfícies
em uma sala de home são normalmente reflexivas, a começar
pela pior de todas, que é a tela de TV. Essa tela é uma descontinuidade
no som que está sendo irradiado para trás da caixa, ele bate
e volta para você com muita intensidade, e isso é altamente
negativo porque piora o equilíbrio tonal da reprodução
da música e do diálogo, prejudica muito a inteligibilidade.
Talvez, muitas vezes nós no Brasil não sentimos tanto isso
porque vemos filmes com legenda, mas se você colocar uma música
de um cantor brasileiro ou português e tentar entender o que ele
está cantando, vai notar que se não tivesse algumas superfícies
tão refletidas, se sua acústica fosse melhor, a inteligibilidade
cresceria muito.
Como deveriam ser as salas então?
Deveriam ser muito amortecidas, para ter as menores reflexões possíveis,
por causa da ambiência que você necessita. Se você ?mata?
muito a sala, perde ambiência. A ambiência nos filmes já
está na gravação, você não tem que inventar
mais nada, tem que reproduzir aquilo que está lá, e para
isso a sala não deve contribuir. A sala, portanto, deve ser como
está, deve ser tipo live end-dead end, parte viva parte morta. Você
deve de influir nessa parte da decoração, quando tiver possibilidade
de tratamento da sala, deve sempre tentar amortecê-la o máximo
possível.
Um outro ponto extremamente importante
é o conceito de simetria, ou seja, é você ter sua parede
ou a parte próxima à caixa da esquerda exatamente igual à
que envolve a caixa da direita. Isso é muito importante porque quando
você tem tempos de reverberação próximos entre
a caixa da esquerda e a caixa da direita, medidos na posição
de audição, você tem um equilíbrio muito grande
e portanto não tem mudança de timbre quando o som passa de
uma caixa para outra, não muda as reflexões. As que estão
acontecendo com a caixa da esquerda estão acontecendo com a caixa
da direita. Não estou falando só das duas dianteiras, logicamente
isso se aplica também às caixas traseiras.
O sinal musical responsável
pela ambiência e pela sensação de profundidade, principalmente
em música, é um sinal extremamente delicado. Esse sinal é
facilmente corrompido tanto pelos meios elétricos da reprodução
quanto pelos meios acústicos. Então, já que nos elétricos
isso envolve equipamentos melhores e outras variáveis nos meios
acústicos, é mais simples você fazer o lado esquerdo
igual ao lado direito. Como eu disse, quando os tempos de reflexões
são parecidos você tem uma imagem muito ampla e principalmente
estável. Quando se mexe na posição principal de audição,
o som não muda junto com você, permanece firme, estável.
Resumindo, você tem que ter uma sala amortecida usando pouco vidro,
muito plana, estofados, tapetes, tudo que absorve som; quanto mais morta
melhor.
Um outro ponto é sobre reflexão
primária, que seria a primeira reflexão que ocorre no ponto
de audição, quer dizer, o som sai da caixa e tem a onda direta
que vai direto da caixa para você. Essa é a onda direta, a
reflexão primária é quando ela bate em uma superfície
apenas e vai a você. Então, essa é uma reflexão
que tem que ser absorvida porque é muito forte em intensidade. Quando
o som bate em várias paredes antes de lhe atingir, ele já
vem bastante amortecido, vem com menos intensidade, interfere menos. Agora,
quando ele é forte, bate em uma superfície só e principalmente
se é uma superfície muito reflexiva ? como, por exemplo,
a tela de TV, que é sempre uma superfície de reflexão
primária - é muito importante se você conseguisse absorver.
As caixas para home theater, via
de regra, devem ter uma resposta de freqüência não excessiva
nos graves, porque quando a resposta é muito ampla nos graves você
provoca mais reflexões e ondas estacionárias dentro da sala.
As ondas estacionárias são definidas pelas dimensões
da sala e que você não pode mudar.
Então, quando você
tem uma resposta que coincide - vamos dizer, se a caixa não tiver
uma resposta muito regular, for cheia de picos e vales, e um desses picos
ou vales coincidir com as dimensões da sala - você vai ter
uma severa irregularidade na resposta de freqüência.
Isso normalmente poderia minimizar se
você tivesse acesso quanto ao posicionamento melhor da caixa acústica,
mas normalmente você não tem, normalmente a caixa acústica
já está pré-destinada a sua posição
no projeto do arquiteto. E aceitar isso está errado, temos que dizer
para as pessoas que elas têm que valorizar o dinheiro que estão
gastando e pensar melhor sobre essas coisas. Não deixar o arquiteto
pintar e bordar e nós ficarmos como um mero passador de fio. É
trabalho do instalador, é trabalho do revendedor questionar e fazer
as pessoas pensarem sobre isso.
Uma coisa que às vezes você
tem na estante é a possibilidade de escolha. Seria a posição
lateral, a distância entre as caixas ou a distância delas para
o centro. Para isso, você deve ter um ângulo, uma fórmula
que funcione bem simples. Você tem mais ou menos 60º entre as
caixas e o ouvinte. Agora, caixas de altíssima performance podem
ser colocadas desde que bem posicionadas, sem móvel, sem TV no meio,
se nada disso implica em ângulos maiores. Mas normalmente caixas
de performance mais limitada se você abre muito você fica com
uma sensação de ?buraco? no centro, quer dizer, o som não
enche. No filme logicamente enche por causa da caixa central mas na música
não.
Sobre esse assunto de posicionamento
de caixas, para muitas pessoas que nunca ?brincaram? com isso, nunca testaram,
eu sugiro que cada um de vocês que tem um par de caixas acústicas
em casa, ou um home theater, ou um sistema só de áudio, que
ligue com dois pedaços de fio bem simples, bem compridos, que permitam
você brincar com a caixa em todas as posições. Pegue
uma peça de música que é mais fácil de perceber
e comece colocando a caixa no canto, depois põe só encostada
na parede do fundo, depois você vai afastando e vai verificando e
anotando as diferenças que dá. Vocês vão ficar
surpresos com a influência do posicionamento da caixa, e entender
por que muitas vezes o audiófilo briga e quer a caixa no meio da
sala e não pode mexer 1cm para lá nem para cá.
* Luis Assib Zattar é
diretor da Som Maior, distribuidora no Brasil das caixas B&W. O texto
acima foi extraído de sua palestra durante o 2º Home Theater
Workshop, realizado em São Paulo em agosto de 99.
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