Trago vivo na memória o dia em que, em 1990, decidi fazer minha primeira experiência com a interligação de áudio e vídeo. Áudio eu já conhecia bem, já que éramos ?parceiros? de longa data. Mas a tentativa de trazer para dentro de minha sala as sensações de um cinema ainda era algo novo para mim.
Dirigi-me à locadora mais próxima, aluguei Top Gun (aquela baboseira com o Tom Cruise) e retornei para casa com a suspeita de que aquele dia mudaria para sempre muitos de meus costumes. Interliguei o videocassete ao meu ultramoderno microsystem (em 1990, era o melhor que podia fazer) e me preparei para fazer ecoar pela sala os
estrondos gerados pelas turbinas dos caças Grumman F-14, os quais, diziam as más línguas, eram as verdadeiras estrelas do filme.
Impressionante! Nunca tinha ouvido nada igual em minha casa. Todos correram até a sala para saber o que estava acontecendo, ao mesmo tempo em que os vizinhos se acotovelavam em frente ao portão para tentar enxergar algo pela fresta da janela semi-aberta. Suspeita confirmada! Jamais voltei a assistir a filmes contando apenas com o som da TV. Estava definitivamente enredado na teia do áudio e vídeo.
Foi somente em 1994 que tomei contato com o conceito de home theater e, logo de cara, entendi que, embora fosse até algo interessante, tudo aquilo que vinha fazendo até então era apenas uma ?brincadeira?. Caso desejasse adentrar o fabuloso mundo do cinema doméstico, deveria reservar ao som estéreo a (ainda imbatível) função básica de reproduzir música. Para filmes e shows, teria que contar com o processamento de áudio multicanal, ou seja, o áudio surround. No mesmo ano, adquiri meu primeiro receiver.
Creio que os leitores, como eu, perceberam que não basta interligar TV, videocassete e DVD player ao velho conjunto de som ?3 em 1? para obter um verdadeiro cinema em casa. Isso porque home theater não é a interligação de equipamentos, tampouco um móvel dedicado a abrigar aparelhos de A/V (vemos muito disso por aí,
empresas especializadas em móveis anunciarem que ?fabricam? home theater). É um conceito, que busca trazer a sensação de envolvimento e realidade presentes em cinemas e salas de espetáculos para dentro de nossos lares, algo absolutamente impossível sem o advento do áudio surround.
Para contar com o recurso do processamento de áudio multicanal, estão disponíveis no mercado duas categorias de equipamentos: o receiver e o processador surround (ou simplesmente ?controllers?, como gostam os americanos). O primeiro é o verdadeiro ?pau-pra-toda-obra? da configuração, sendo responsável pelas
funções de pré-amplificação, conversão digital/analógica (DAC), processamento digital de sinais (surround e modos DSP), seleção de fontes para sinais de áudio e vídeo, tuner AM/FM, amplificação multicanal, e sabe-se lá
quantas ainda serão possíveis inserir em um único aparelho.
Já o processador surround enquadra-se em categoria superior, em que a qualidade (e não a praticidade) está em primeiro lugar. Destina-se basicamente a dois tipos de consumidores. Os primeiros são aqueles que desejam uma configuração de áudio e vídeo de elevado padrão, totalmente modular, mas sem prejuízo de qualidade em audições musicais. Os outros seriam os detentores de excelente configuração estéreo, que desejam ingressar no mundo do cinema doméstico, mas sem abrir mão dos equipamentos que já possuem.
Em ambos os casos, o uso de processadores surround é recomendável e, por que não dizer, obrigatório, a não ser que se almeje configurações (e salas) distintas para a apreciação de música e filmes. Como ponto negativo,
destaca-se a necessidade da aquisição de um power de no mínimo 5 canais, de 5 amplificadores monoblocos, ou ainda qualquer outra combinação que propicie adequada amplificação multicanal. Nessa hora, vale lembrar que alguns processadores possuem até 7 canais de áudio.
Ainda que existam processadores de baixo custo ? não tão sofisticados e com menos recursos, embora nem por isso de baixa qualidade ? a maioria dos processadores surround situa-se no segmento high-end. Em geral são equipamentos de alto custo (pelo menos para os padrões atuais do brasileiro), visual atraente e incorporam
recursos de tecnologia de ponta. Nesses equipamentos, a variedade de conexões é um capítulo à parte. São tantos conectores, que fica a nítida impressão de temos em mãos um jato supersônico, não um equipamento de áudio.
Praticamente tudo é possível encontrar: entradas e saídas pré-amplificadas para todos os canais, 2 ou mais ?sets? de conectores vídeo componente, entradas e saídas de vídeo em profusão (em geral, todas com conectores S-Video e vídeo composto), numerosos conectores digitais (dos tipos óptico e coaxial) e a
possibilidade de conexão de praticamente toda a sorte de equipamentos analógicos. Em alguns casos, está presente inclusive entrada analógica para toca-discos, além de demodulador RF (rádio-freqüência) para obtenção de sinal Dolby Digital a partir de laserdisc, algo muito útil para aqueles que relutam em se desfazer de seus ?bolachões? prateados. E tem mais, já que alguns modelos trazem ainda conexões balanceadas tanto para áudio analógico (o chamado XLR), quanto para sinais digitais (AES/EBU). O nível de sofisticação pode chegar à
substituição dos conectores RCA por BNC, isso no caso de conexões que façam uso de cabos coaxiais (analógicos ou digitais).
Ao adquirir um processador ? não perdendo de vista o custo monetário dos aparelhos ? deve-se optar pelo modelo com o maior número possível de conexões, de maneira a não criar impasse futuro quando for necessário acrescentar algum componente ao sistema. Útil também é observar a presença de entradas pré-amplificadas
multicanal, evitando assim trocar de equipamento toda vez que algo novo surgir no mercado. Essas entradas possibilitam a conexão de qualquer aparelho multicanal dotado de saídas pré-amplificadas analógicas.
Obviamente, aparelhos deste quilate efetuam a comutação das diversas fontes de sinal a ele conectadas com extrema eficiência, rapidez e de forma silenciosa. Um recurso interessante e presente em quase todos os processadores de elevado padrão é a possibilidade de personalizar as informações do display digital, nomeando as
fontes de acordo com opções pré-estabelecidas, ou mesmo com preferências pessoais, conforme o que vier na cabeça.
O controle remoto (é obvio que ninguém vai pilotar um ?jato? desses na base da raça) sempre merece destaque, pois normalmente comanda, não só todas as funções do processador e de equipamentos da mesma marca, como também de outras. Quase sempre são do tipo ?inteligentes?, dotados de boa capacidade de memória e
função LEARN. Com tanta sofisticação, é até desnecessário dizer que processadores apresentam sintonizadores AM/FM, um recurso de importância menor.
Alguns puristas ainda olham processadores surround com certa desconfiança, já que tantas funções em um único aparelho podem por a perder a qualidade da reprodução musical em dois canais. Outra crítica fica por conta de que todo o controle de volume ocorre em meandros digitais, algo que desagrada os mais céticos, cujas preferências recaem em tradicionais potenciômetros. Notem que estamos falando de objetos de elevada qualidade, equivalente aos melhores pré-amplificadores e powers do mercado. Não é por acaso que produtos de fabricantes, como Proceed, EAD, Sunfire, Lexicon e outros, são classificados como genuinamente high-end.
No contexto puramente eletrônico, os modelos topo de linha são fabricados com o que de mais nobre é
oferecido pela indústria atual ? desde resistores, capacitores, transistores e potenciômetros, aos mais avançados chips conversores de sinal. Aliás, é obrigatório dedicar especial atenção aos DAC´s, simuladores DSP e modos
surround. Aqui também não se fazem concessões, estando presentes desde os tradicionais Dolby Pro-Logic, Dolby Digital e DTS até os novíssimos THX Surround EX, DTS ES e DTS ES Discrete (todos com canais traseiros extra) e Dolby Pro-Logic II. Isso sem contar os infindáveis modos DSP (Digital Signal Processor).
Temos ainda softwares destinados ao gerenciamento de graves e setup geral das caixas acústicas, fazendo vezes de um crossover eletrônico. Na parte da conversão digital/analógica, a exemplo do que vem ocorrendo nos receivers de última geração, os melhores modelos do mercado aceitam taxas que vão dos 16 bits/44,1kHz (CD
convencional) aos 24 bits/192kHz (DVD-Audio).
Sendo equipamentos destinados a um público mais seletivo, os fabricantes tomaram cuidados no sentido de evitar a sua rápida obsolescência (fantasma sempre a assombrar os amantes da alta tecnologia). Para isso, dentre todos os componentes possíveis em um sistema de A/V, os processadores foram os primeiros a incorporarem
dispositivos para upgrade, como a conhecida interface serial RS-232 (que timidamente começa a aparecer nos receivers). Através dela, é possível atualizar todos os softwares instalados nos chips dos circuitos de áudio e vídeo ? desde a simples personalização do painel digital até a atualização de modos surround.
Como a RS-232 é interface típica de informática (é uma porta serial, como as utilizadas para a conexão de ?mouses?), basta conectar o processador ao micro, e o computador ao site do fabricante, e então fazer o download com as atualizações. Obviamente tudo isso só será possível se o fabricante disponibilizar o serviço
através de seu web site, o que já vem se tornando freqüente.
Em alguns processadores high-end, o conceito de upgrade foi estendido ao hardware. Perfeito exemplo é o modelo Casablanca, da conceituada Theta Digital. Esse aparelho apresenta arquitetura semelhante à de um microcomputador, e todos os componentes são apresentados em forma de placas a serem conectadas em ?slots?.
Assim, o consumidor pode escolher entre várias versões do produto, bastando para isso determinar quais placas devem acompanhar o aparelho. Mas a grande vantagem fica por conta da longevidade alcançada pelo equipamento. Caso fique obsoleto, basta encaminhá-lo à assistência técnica credenciada e solicitar a
inclusão/exclusão da placa desejada, assim como nos micros. Dessa forma, o aparelho estará sempre dotado dos melhores recursos, principalmente no que diz respeito ao processamento surround e conversão digital/analógica.
Diga-se de passagem, neste particular, não se esperam grandes mudanças para os próximos anos. Se existe clara vantagem no aumento das taxas de amostragem (de 44,1kHz do CD chegou-se aos 2,8224MHz do SACD), o mesmo não se pode dizer quanto à resolução do sinal, já que os 24 bits atuais encontram-se em patamar além do necessário e da capacidade de interpretação dos seres humanos. Acima disso, as diferenças entre os valores de tensão obtidos em cada amostragem são tão pequenos, que não podem ser considerados. Resoluções acima de 24 bits só fazem sentido em laboratórios de física ou em observatórios astronômicos, onde há interesse em interpretar os tênues ruídos gerados pelo movimento eletrônico dos átomos (o ruído atômico), ou débeis sinais encaminhados por corpos celestes dos confins do universo.
Em áudio doméstico, 24 bits parecem ser o limite plausível, a não ser que a raça humana (e não os equipamentos) passe por algum intenso ciclo evolutivo, um upgrade de caráter físico/biológico, de maneira a ?jogar por terra? todas as limitações atuais quanto à audição. Passaríamos então a interpretar sons, eletrônicos ou não, de forma diversa do ocorrido atualmente, o que não deixa de ser uma inquietante e espantosa perspectiva.
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