Luciano Guimarães
O final do século 20 trouxe grandes avanços tecnológicos ao campo do
entretenimento doméstico. O DVD tomou de assalto os lares americanos e segue o
mesmo caminho no Brasil. A TV Digital deixou as pranchetas dos estudiosos e já
é realidade. Entretanto, embora não seja de hoje que som e imagem caminhem
juntos, sempre considerei que a qualidade do áudio estava algo à frente. Se
nos últimos anos os avanços nesse setor nos fizeram reavaliar nossos costumes
auditivos (notoriamente com o advento do áudio digital multicanal), em termos
de imagem ainda faz-se uso da mesma tecnologia utilizada no início das
transmissões de TV.
O DVD e a
TV Digital vieram colocar a imagem no mesmo patamar de desenvolvimento do áudio,
de forma que, pela primeira vez, o áudio hi-fi passou a ter uma companheira à
altura. Ainda assim, o principio de formação de imagem permaneceu até então
inalterado, pois ainda se faz uso do processo de campos com ?varredura entrelaçada?
(interlaced scan). Atualmente, já no curso normal do desenvolvimento dos
players DVD e da TV Digital, os fabricantes começam a introduzir novo conceito
de formação de imagens: ?varredura progressiva? (progressive scan).
Para entender as diferenças entre os dois sistemas é necessária noção,
ainda que básica, sobre como as imagens de vídeo são formadas.
As imagens
que chegam aos nossos lares, seja via satélite ou mesmo através de um DVD
player, são preliminarmente captadas por câmeras profissionais, e é nesse estágio
que se começa a definir os padrões de formação de imagens. Após passar pelo
conjunto óptico da câmera, a imagem deverá ser interpretada por um
dispositivo tecnicamente conhecido como CCD (Charge-Coupled Device). Após
receber o sinal luminoso, o CCD o explora através de um feixe de elétrons e
com freqüência constante. A esse trabalho de exploração damos o nome de
?varredura?, que acontece de duas formas: na vertical, a uma freqüência de
60Hz (a mesma freqüência fundamental de nossa rede elétrica), e na
horizontal, com freqüência de 15,75KHz. Assim, o sensor formador de imagens é
explorado 60 vezes por segundo na vertical e 15.750 vezes na horizontal. O que
nos interessa aqui é a exploração no sentido horizontal.
A
imagem formada em televisores é composta de linhas horizontais, sendo que a união
de todas as linhas disponíveis forma a imagem por completo. Se o leitor se
aproximar bastante da tela de seu televisor, verá claramente as linhas das
quais estou falando. O padrão utilizado para transmissões no Brasil faz uso de
525 linhas horizontais (480 ativas e visíveis) em varredura entrelaçada. Em
tal processo, a imagem é dividida em dois campos: campo de linhas pares e de
linhas ímpares. Primeiramente, o feixe de elétrons passa formando as linhas ímpares,
na seqüência 1,3,5, 7... até 525 (total de 263 linhas ímpares), levando para
isso 1/60 de segundo. Após essa passagem inicial, o feixe retorna ao ?início?,
para então começar a formar as linhas pares, na seqüência 2,4,6, 8... até
524 (262 linhas pares), levando para isso iguais 1/60.
Um dos
inconvenientes do vídeo entrelaçado se manifesta quando da captação de
imagens em movimento, pois os dois períodos de tempo necessários para formação
de uma imagem completa se mostram excessivos. Após a formação do campo ímpar,
o objeto filmado não mais estará no lugar original, só que ainda faltará a
formação do campo par. Assim, faz-se uso de circuitos de correção, o que
torna a imagem levemente distorcida nas bordas, e muitas vezes com brilho e
cores inconstantes.
Há muito já
se estuda uma maneira mais eficaz (e rápida) para formação de imagens. Desde
meados da década de 90, inúmeras empresas passaram a testar a formação de
imagens através de varredura progressiva. A Toshiba do Japão foi a primeira
empresa a investir pesadamente na nova tecnologia, estendendo tal recurso a seus
DVD players e televisores compatíveis com SDTV e HDTV. Mas em que a imagem
progressiva difere da entrelaçada?
Na imagem
entrelaçada existem dois campos de linhas a serem interpretados e formados; já
na progressiva existe um único campo. O feixe de elétrons efetua a varredura
no sensor, passando a formar imagens em linhas em ordem crescente e de forma seqüencial
(1,2,3,4, 5... 525), gastando nesse processo 1/60 de segundo; exatamente o mesmo
tempo necessário para a varredura de um único campo (par ou ímpar) na imagem
entrelaçada. Isso significa que a varredura progressiva permite maior
quantidade de informações de vídeo no mesmo espaço de tempo. Para isso
acontecer, a velocidade de varredura deve ser maior, no caso 31,5KHz (o dobro da
velocidade em varredura entrelaçada). O vídeo progressivo elimina os problemas
manifestados na captação de imagens em movimento, pois consegue formar imagens
completas na metade do tempo, o que elimina estágios de correção, tornando as
imagens mais nítidas. Esse é um dos motivos pelos quais o vídeo de varredura
progressiva mostrou-se ideal para transmissões de TV Digital.
Inicialmente,
a proposta da Toshiba em disponibilizar saídas de vídeo progressivo em seus
DVD players encontrou obstáculos, já que a varredura progressiva era incompatível
com o já existente sistema anticópias ?Macrovision?. Como agravante, havia
o fato de a maioria dos televisores existentes no mercado mundial serem incompatíveis
com o vídeo progressivo, uma vez que faziam uso de formato entrelaçado para
imagens.
Passado
esse período inicial marcado por incompatibilidades (tanto técnicas como
conceituais), vários fabricantes decidiram apostar na nova tecnologia, e já
disponibilizaram ao mercado norte-americano diversos players e transportes DVD
com conexões vídeo componente, que entregam sinal de vídeo progressivo. É o
caso da própria Toshiba, Pioneer, Panasonic, JVC e Samsung, além de empresas
do segmento high-end, como Proceed (Transporte PMDT) e EAD (e seu TheaterVision),
isso só para citar alguns. Detalhe: a varredura progressiva só poder ser
utilizada através de conexões de vídeo componente, o que obriga que todo
player ou transporte Progressive Scan possua no mínimo um set de conectores
desse tipo.
Em 1999, a
Pioneer causou espanto ao anunciar seu primeiro player Progressive Scan (modelo
DV-434) por preço inferior a US$ 500 no mercado americano. Para uma tecnologia
nova (o que sempre implica em alto custo) e pouco usual, esperava-se aparelhos
com preços mais elevados. Mas, como no mundo da tecnologia de ponta não
existem milagres (pelo menos não quando o assunto é financeiro), a redução
no preço final do aparelho veio acompanhada de recursos apenas básicos e de um
gabinete de resistência questionável.
Para
garantir o sucesso dos novos equipamentos, os fabricantes se viram obrigados a
equipá-los igualmente com saídas de vídeo entrelaçado, possibilitando assim
ao usuário escolher o formato mais adequado à sua utilização. Como toda
novidade é benéfica ao aquecimento do mercado, a maioria dos lançamentos
chega recheada de recursos, mostrando que as empresas não pouparam despesas.
Necessário
foi também o desenvolvimento e lançamento no mercado de televisores e
projetores capacitados a explorar a novo formato. Vale aqui destacar que todo
disco DVD traz imagens originalmente gravadas em vídeo progressivo. Assim, os
players (inclusive aqueles instalados em nossas residências) efetuam
internamente a conversão para o formato entrelaçado, de maneira a torná-los
utilizáveis junto a televisores comuns. O indispensável estágio de conversão
é responsável por perdas de qualidade, de forma que melhor se faz utilizando a
imagem em seu formato original.
Isso
significa que para assistir imagens
progressivas será necessário trocar o TV ou projetor? Infelizmente sim, exceto
caso seu equipamento já possibilitar compatibilidade com formatos de DTV (TV
Digital). Quando se fala em TV Digital, é plausível imaginar receptores com a
maior qualidade de imagem possível. A transformação de sinais de imagem em bits possibilita inúmeras manipulações,
mas principalmente a transmissão de imagens com maior quantidade de informações
sem perda de qualidade.
Existem
vários padrões de resolução para a TV Digital: 480i (?i? de interlaced,
ou ?entrelaçado?), 480p (progressivo), 720p e 1080i. O formato SDTV
(Standard Definition TV) faz uso das definições padronizadas para transmissões
digitais, utilizando imagens com 480 linhas ativas (entrelaçadas ou
progressivas). Já o padrão HDTV (High Definition) utiliza 720p ou 1080i, sendo
estes verdadeiramente de ?alta definição?.
Mas, pelo
menos inicialmente, toda essa tecnologia não estará acessível ao grande público,
pois os DVD players com saída de vídeo progressivo já lançados ainda
apresentam preços elevados até mesmo para o alto poder aquisitivo do
consumidor norte-americano (o que dizer então quando chegarem ao Brasil?). Mas
espera-se breve reversão nesse quadro, já que os fabricantes acenam com novos
lançamentos ainda para o 1º semestre de 2001, por preços abaixo de US$ 500
nos EUA. Já quanto ao preço de televisores e projetores compatíveis com o
formato... bem, isso já é outra história!
Obs.:
veja na edição #57 da revista HOME THEATER uma tabela comparativa com os DVD
players já lançados que possuem circuitos de processamento progresive scan.
* Vinicius Barbosa Lima é colaborador da revista HOME THEATER.
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