Métodos de Propagação do Bacurizeiro,
( Platonia insignis Mart.)
O bacurizeiro ( Platonia insignis Mart.) é uma espécie arbórea de uso
múltiplo (fruto e madeira) nativa da Amazônia Oriental Brasileira. Os frutos
dessa Clusiaceae ocupam posição de destaque na preferência dos consumidores
dos Estados do Pará, Piauí, Maranhão e Tocantins, onde concentram-
se densas e diversificadas populações naturais. A madeira apresenta
boas características físico-mecânicas e vem sendo utilizada desde o
século XVII pelos habitantes da Amazônia na construção de casas e,
atualmente, tem larga aplicação na construção naval artesanal, em virtude
da sua adequabilidade para a confecção de determinados componentes de
embarcações de pequeno porte, amplamente disseminadas nos rios amazônicos.
Não obstante as múltiplas utilidades dessa planta, seu cultivo é
inexpressivo, sendo a quase totalidade da produção oriunda de exploração
extrativista. Tal fato é em razão das dificuldades de propagação, ao
crescimento relativamente lento e ao longo período de juvenilidade das
plantas.
Para a produção de mudas, pelo processo tradicional de propagação por
sementes, são requeridos de dois a três anos para que as mudas estejam
em condições de serem plantadas no local definitivo. Ressalte-se que
pomares estabelecidos com mudas oriundas de sementes, entram em fase
de frutificação somente dez a doze anos após o plantio, sendo que plantas
mais tardias requerem até 15 anos para produzirem os primeiros frutos.
No Banco de Germoplasma de Bacurizeiro da Embrapa Amazônia Oriental,
por exemplo, em acessos implantados com mudas oriundas de sementes,
apenas 20% das plantas frutificaram aos 11 anos de idade.
Além da propagação por sementes, o bacurizeiro também pode ser propagado
por processos assexuados, particularmente pela retirada de
brotações que surgem, espontaneamente, das raízes da planta-mãe ou por
enxertia. Outros sistemas, mais recentemente desenvolvidos, são baseados
na alta capacidade de regeneração da raiz primária de sementes em
início de germinação.
Com relação à micropropagação, os resultados até então disponíveis são
bastante incipientes, não se dispondo de protocolos que permitam a
regeneração de plantas de bacurizeiro a partir da cultura de tecidos.
Ressalte-se, no entanto, que poucas pesquisas foram desenvolvidas
dentro dessa linha.
2 Métodos de Propagação do Bacurizeiro, (Platonia insignis Mart.)
Propagação por Sementes
Características das sementes
As sementes do bacurizeiro são bastante
volumosas, com comprimento médio de 5,5
cm e largura de 3,5 cm, formato oblongoanguloso,
ligeiramente côncavas na porção
onde se encontra a linha da rafe e convexas no
lado oposto (Fig. 1a). O peso individual das
sementes varia de 5,6 g a 44,0 g. Em média,
mil sementes, com grau de umidade de 39,0%
pesam 24,4 kg. O número de sementes por
fruto depende do número de óvulos que são
fecundados. Na flor do bacurizeiro, a conversão
de óvulos em sementes é muito baixa, pois
em único ovário é possível encontrar até 70
óvulos, uniformemente distribuídos nos cinco
lóculos, enquanto os frutos, normalmente
apresentam número de sementes variando
entre um e cinco. Quando mais de um óvulo,
em um mesmo lóculo do ovário, é fecundado e
apresenta desenvolvimento normal, os frutos
podem conter número superior a cinco sementes.
As sementes oriundas de óvulos situados
em um mesmo lóculo do ovário são facilmente
identificadas, pois encontram-se levemente
soldadas entre si e apresentam, no ponto de
soldadura faces planas (Fig. 1b, 1c, 1d). Tipos
de ocorrência rara apresentam frutos desprovidos
de sementes, sendo propagados somente
por processos assexuados.
Fig. 1 . Sementes oriundas da fecundação de um
(a), dois (b), três (c) e quatro óvulos (d), dentro de um
mesmo lóculo do ovário.
Extração e beneficiamento das sementes
O processo de extração das sementes envolve,
primeiramente, a abertura dos frutos que, em
decorrência da consistência rígido-coriácea da
casca, tanto pode ser efetuada com o auxílio de
uma faca ou com impactos efetuados sobre a
superfície do fruto. O segundo processo é mais
indicado por não provocar ferimentos nas sementes
e possibilitar maior rendimento de mão-deobra.
Após a abertura, as sementes são extraídas
da cavidade interna dos frutos, juntamente com
a porção da polpa que está aderida ao
tegumento. Essa porção da polpa é então removida,
manualmente, com o auxílio de uma tesoura
ou faca, pois as despolpadoras mecânicas,
disponíveis no mercado, não removem, com
eficiência, essa estrutura, além de provocarem
danos mecânicos acentuados nas sementes.
Com o processamento manual, resíduos de polpa
ainda permanecem aderidos às sementes, sendo
conveniente removê-los. Para tanto, as sementes
devem ser mantidas imersas em água, durante
48 a 72 horas, para que ocorra a fermentação
desses resíduos, o que torna mais fácil sua
remoção. Em seguida, as sementes devem ser
lavadas em água corrente até que se apresentem
com a superfície do tegumento limpa.
Após a extração e remoção da polpa, as sementes
devem ser semeadas imediatamente,
pois apresentam comportamento recalcitrante
no armazenamento, ou seja, não suportam
secagem. Sementes oriundas de frutos conservados
sob refrigeração, em temperaturas igual
ou inferiores a 10°C, perdem a viabilidade.
Germinação e formação de mudas
O principal obstáculo para a formação de
mudas de bacurizeiro por via sexuada é o
tempo requerido para que as sementes completem
o processo de germinação, devido apresentarem
um tipo particular de dormência, cujo
sítio de ação está localizado na gema apical. O
grau de dormência varia entre sementes, o que
condiciona acentuada desuniformidade na
emergência do epicótilo e, conseqüentemente,
c
a
b c d
Métodos de Propagação do Bacurizeiro, ( Platonia insignis Mart.) 3
no período de formação das mudas. Outros
fatores que limitam a implantação de pomares
com mudas oriundas de sementes é o fato de o
bacurizeiro ser uma espécie essencialmente
alógama e o longo período de juvenilidade das
plantas. O primeiro fator condiciona acentuada
segregação, mesmo quando as plantas são
oriundas de sementes de um mesmo indivíduo. A
longa fase jovem das plantas propagadas por
sementes faz com que as mesmas só entrem em
fase reprodutiva 10 a 12 anos após o plantio.
O processo germinativo de sementes dessa
espécie apresenta características peculiares,
distinguindo-se quatro eventos morfológicos
bem definidos no tempo, conforme discriminados
a seguir:
a) O primeiro evento consiste na ruptura do
delgado tegumento pela raiz primária (Fig. 2) e
ocorre entre 12 e 35 dias após a semeadura,
ocasião em que a porcentagem de sementes
com raiz primária rompendo o tegumento
atinge valor de 100%.
Fig. 2. Fase inicial da germinação de sementes de bacuri.
b) O segundo evento é representado pelo
crescimento vigoroso da raiz primária, que
atinge 210 dias após a semeadura, comprimento
em torno de 180 cm. A taxa de crescimento
da raiz primária, nos primeiros 60 dias, é
inferior a 1 cm/dia, aumentando nos períodos
subseqüentes, até 120 dias, quando então
decresce, sendo particularmente baixa após
atingir 180 cm e até o momento do início da
emergência do epicótilo. Nessa fase, as raízes
secundárias, embora numerosas, são de tamanho
diminuto, com comprimento em torno de
3,2 cm (Fig. 3).
Fig. 3. Fase de crescimento
da raiz primária de sementes
de bacuri.
c) O terceiro evento é o mais lento e
desuniforme, e consiste na emergência do
epicótilo (Fig. 4). Em pequena proporção de
sementes, geralmente inferior a 2%, esse
evento manifesta-se 180 dias após a semeadura.
No entanto, para a grande maioria das
sementes, esse evento só ocorre 500 dias
após a semeadura. A gema apical, em algumas
sementes, apresenta grau de dormência tão
acentuado, de tal forma que a emergência do
epicótilo é extremamente lenta só se verificando
em períodos superiores a 900 dias após a
semeadura. Por ocasião da emergência do
epicótilo, a raiz primária apresenta comprimento
superior a 180 cm.
Fig. 4. Emergência do epicótilo na sementes do bacuri.
4 Métodos de Propagação do Bacurizeiro, (Platonia insignis Mart.)
d) No último evento ocorre a abertura do
primeiro par de folhas, estando a plântula,
então, com todas as suas estruturas essenciais
claramente definidas. Ressalte-se que, precedendo
a abertura do primeiro par de folhas, o
epicótilo cresce cerca de 3 cm a 6 cm, desenvolvendo
dois a cinco pares de folhas
escamosas (catáfilos) opostas.
Para a formação de mudas por sementes, o
mais indicado é a semeadura direta em sacos de
plástico com dimensões mínimas de 18 cm de
largura, 35 cm de altura e espessura de 200 m,
contendo como substrato a mistura constituída
de solo, esterco curtido e pó de serragem, na
proporção volumétrica de 3:1:1. Recipientes
com largura maior não são necessários pois,
até a muda atingir seu completo desenvolvimento,
o sistema radicular está representado,
em sua maior parte, pela raiz primária, com
raízes secundárias abundantes, porém, de
comprimento diminuto.
A semeadura em sementeiras, com posterior
repicagem para sacos de plástico, não é aconselhável,
pela dificuldade que se tem na retirada das
plântulas do substrato, em função do grande
comprimento da raiz primária. Eventualmente,
pode-se utilizar esse processo de semeadura, mas
a repicagem deve ser processada logo após o
início da emergência da raiz primária, ou seja,
entre 12 e 35 dias após a semeadura. No caso de
sementes que completam a germinação em
sementeiras, durante a operação de repicagem, a
plântula deve ser retirada do substrato com
segmento de raiz primária nunca inferior a 20 cm
de comprimento. Nessa situação, é necessário o
corte das folhas pela metade para reduzir a perda
de água e, as plântulas, após a repicagem, devem
ser mantidas em ambiente com bastante sombra
(70% de interceptação de luz), até o lançamento
de novas folhas, quando então poderão ser levadas
para viveiro com 50% de interceptação de
luz. Mesmo com essas medidas, a sobrevivência é
inferior a 60% e o crescimento das mudas é
retardado, pois haverá necessidade de certo
período para o lançamento de novas folhas e para
regeneração do sistema radicular, que foi cortado
durante a operação de repicagem. Enquanto a
muda obtida através de semeadura direta está em
condição de ser plantada no local definitivo 4
meses após a emergência do epicótilo, as
repicadas somente estão plenamente formadas 6
meses após serem repicadas.
A disposição dos sacos de plástico no viveiro,
até que 50% das sementes germinem pode ser
um ao lado do outro (Fig. 5). Posteriormente,
com o aumento da porcentagem de germinação
e com o crescimento das plântulas, há
necessidade de dispô-los em fileiras duplas,
distanciadas entre si em 40 cm (Fig. 6). Esse
procedimento tem por objetivo evitar o
estiolamento das mudas.
Fig. 5 . Disposição inicial dos sacos de plástico no viveiro.
Fig. 6. Disposição das mudas em fileiras duplas.
O ordenamento dos sacos em fileiras duplas
exige poda da raiz primária, pois nessa ocasião
essa estrutura apresenta comprimento muito
superior à altura do recipiente, estando em sua
maior extensão abaixo da superfície do solo.
Para essa operação, é necessário que os sacos
de plástico sejam individualmente inclinados
em cerca de 45°, efetuando-se, então, com
um canivete ou faca, a poda da raiz primária,
Métodos de Propagação do Bacurizeiro, ( Platonia insignis Mart.) 5
no nível do solo. Em muitos casos, a simples
inclinação do recipiente já provoca o
seccionamento da raiz. Essa mesma operação
deverá ser repetida quando a muda estiver completamente
formada, ou seja, com altura entre
40 cm e 45 cm, diâmetro basal entre 0,8 cm e
1,0 cm e com 20 a 22 folhas pois, nesse momento,
a raiz primária já apresenta novamente comprimento
superior à altura do saco de plástico. É
recomendável que essa segunda poda seja efetuada
15 a 20 dias antes do plantio no local definitivo.
Para facilitar a adubação das mudas, é importante,
quando da disposição dos sacos em fileiras
duplas, que dentro de um mesmo conjunto de
fileira sejam colocadas plantas em estádio de
desenvolvimento semelhante, por exemplo: fileiras
de sacos contendo sementes com epicótilo em
início de emergência, fileiras de sacos cujas
plântulas estejam com um par de folhas, fileiras
de sacos com plântulas apresentando dois a três
pares de folhas e assim por diante.
A adubação orgânica é efetuada por ocasião da
disposição dos sacos em fileiras duplas, adicionando-
se 200 mL a 300 mL da mistura de terra
preta com esterco de galinha curtido. Essa
mistura deve ser preparada na proporção
volumétrica de 1:1 e adicionada somente aos
recipientes cujas mudas já apresentem pelo
menos o primeiro par de folhas. Nos demais
recipientes, a adubação orgânica será efetuada
à medida que ocorrer a abertura do primeiro
par de folhas. A primeira adubação mineral
deverá ser realizada uma semana após a adubação
orgânica e repetida a cada sete dias, até
que as mudas estejam completamente formadas.
Para minimizar os custos com mão-deobra,
as adubações minerais poderão ser
efetuada irrigando-se as plantas com adubo
líquido. Resultados satisfatórios têm sido
obtidos com produtos comerciais que apresentam
6% de nitrogênio, 6% de P 2O5, 8% de
K 2O, 0,5% de magnésio, 0,5% de enxofre e
micronutrientes. O produto comercial é previamente
diluído em água na proporção de dois
mililitros por litro de água, irrigando-se cada
muda com, aproximadamente, 100 mL.
Propagação Assexuada
O processo de propagação assexuada mais
utilizado para o bacurizeiro é a enxertia por
garfagem no topo em fenda cheia. Nas populações
naturais, a regeneração se processa
eficientemente por brotações oriundas de
raízes de plantas adultas, mesmo após a derrubada
da planta-mãe. Essas brotações também
podem ser usadas para formação de mudas,
mas a taxa de sobrevivência das brotações no
viveiro é muito baixa, não se recomendando a
utilização desse método para produção de
mudas em escala comercial. Outros processos,
mais recentemente desenvolvidos, envolvem a
formação de mudas ou porta-enxertos a partir
da regeneração de segmentos de raiz primária.
Nesse caso, a semente é parte importante na
formação da muda, mas a plântula obtida não
será totalmente originada do embrião.
Propagação por regeneração da raiz
primária
Nesse sistema de propagação, são utilizadas
sementes, não sendo necessário, no entanto,
que estas completem o processo de germinação,
pois as mudas serão obtidas a partir de
estacas de raiz primária. As mudas podem ser
obtidas através da regeneração de estacas de
raiz primária com comprimento entre 7 cm e 8
cm, oriundas de sementes espalhadas em
sementeira ou através da regeneração do
segmento de raiz primária de sementes espalhadas
diretamente em sacos de plástico.
No primeiro caso, as sementes são semeadas
em sementeiras com profundidade de 1,20 m,
contendo como substrato areia e serragem
misturadas na proporção volumétrica de 1:1.
Decorridos 120 a 150 dias da semeadura, a
maioria das sementes já apresenta raiz primária
com comprimento superior a 1,10 m e são,
então, removidas, com cuidado, do substrato de
semeadura. A raiz primária é, em seguida,
dividida em segmentos com comprimento entre
7 cm e 8 cm, desprezando-se o terço inferior da
mesma, pois apresenta diâmetro reduzido e é de
difícil regeneração. De cada raiz primária é
possível obter-se aproximadamente 10 estacas.
6 Métodos de Propagação do Bacurizeiro, (Platonia insignis Mart.)
Após a obtenção das estacas, estas são plantadas
verticalmente, em sacos de plástico com
as mesmas dimensões dos usados no sistema
de propagação por sementes e contendo o
mesmo substrato. Durante a operação de
plantio, a porção proximal da estaca deve ser
orientada para cima e a porção distal para
baixo, pois, caso contrário, a plântula obtida
apresentará conformação anormal, ou seja, a
raiz emergirá da parte distal da estaca e dirigirse-
á para baixo, em função do geotropismo
positivo e, a parte aérea que originar-se-á da
porção proximal, dirigir-se-á para cima, em
função do geotropismo negativo.
A brotação da parte aérea é desuniforme,
ocorrendo entre 35 e 145 dias. Ao final de 150
dias, cerca de 70% das estacas já apresentam,
no mínimo, o primeiro par de folhas completamente
desenvolvido, e sistema radicular regenerado
(Fig. 7). Nessa ocasião, os sacos contendo
as plântulas ou as estacas nas quais a
regeneração da parte aérea ainda não se processou,
devem ser dispostos em fileiras duplas,
em blocos separados. Por esse processo de
propagação, as mudas estão aptas para serem
plantadas no local definitivo, cerca de 6 a 8
meses após a colocação das estacas no
substrato.
Fig. 7. Plântulas oriundas de estacas de raiz primária,
com todas suas estruturas essenciais.
Os procedimentos de adubação das plântulas
devem ser iniciados a partir do momento em
que os sacos são ordenados em fileiras duplas,
quando então, deverão ser adicionados 200 mL
a 300 mL da mistura de terra preta com esterco
(proporção volumétrica de 1: 1). Semanalmente,
as plantas devem ser irrigadas com a
mesma formulação e dose de adubo mineral
indicada para o sistema de formação de mudas
por sementes.
A utilização desse sistema de propagação
somente é indicada quando se dispõe de pequena
quantidade de sementes e se deseja
obter o maior número possível de plantas pois,
normalmente, as mudas assim obtidas apresentam
crescimento mais lento que as mudas
oriundas de sementes e são menos vigorosas,
com diâmetro do caule bem menor, o que exige
tutoramento, tanto na fase de viveiro como
após o plantio no local definitivo, da maioria
das plantas. Esse sistema também não contorna
os problemas concernentes ao longo período
de juvenilidade das plantas e os decorrentes da
segregação.
O sistema em que se utiliza a semeadura direta
em sacos de plástico, com posterior separação
da raiz primária da semente que a originou é
mais eficiente que o anterior e mais fácil de ser
executado. Nesse sistema, a porcentagem de
regeneração da parte aérea é maior e não há
necessidade de tutoramento das mudas na
fase de viveiro, pois estas são mais vigorosas,
em função de que o segmento de raiz é maior e
a sua porção terminal permanecerá inicialmente
intacta.
Os procedimentos para obtenção de mudas por
esse sistema obedecem as seguintes etapas:
a) A semeadura deverá ser efetuada em sacos
de plástico com 18 cm de largura, 35 cm de
altura e espessura de 200 m, contendo como
substrato a mistura de três partes de solo, uma
de serragem e uma de esterco curtido. Os
sacos deverão ser completamente cheios com
Métodos de Propagação do Bacurizeiro, ( Platonia insignis Mart.) 7
essa mistura e a semente colocada sobre o
substrato, de tal forma que o ponto de onde
emergirá a raiz primária coincida aproximadamente
com o centro do recipiente (Fig. 8a). Em
seguida, coloca-se um anel protetor de plástico
rígido ou alumínio, com altura entre 7 cm e
8 cm e diâmetro entre 10 cm e 11 cm. Esse
anel é preenchido com pó de serragem,
recobrindo totalmente a semente (Fig. 8b).
Garrafas de refrigerantes tipo PET, com capacidade
para dois litros podem ser usadas para a
confecção desses anéis, obtendo-se até três
anéis de 7 cm de altura de cada garrafa.
b) Decorridos 70 a 100 dias da semeadura,
ocasião em que a raiz primária da quase totalidade
das sementes já atingiu a parte inferior do
recipiente, o anel é retirado, removendo-se,
concomitantemente, o substrato, de tal forma
que a semente e a porção basal da raiz primária
fiquem expostas (8c). Após essa operação,
a raiz primária é separada da semente que a
originou (Fig. 8d), com um corte transversal
efetuado com canivete a uma distância de
0,5 cm a 1,0 cm da semente. O substrato, em
volta do segmento da raiz primária, que permaneceu
no saco de plástico, deve ser comprimido
com os dedos visando deixar 1,0 cm da
parte superior da raiz exposta à luz.
Os sacos de plástico devem ser mantidos em
viveiro, com cobertura de tela de plástico que
permita 50% de interceptação de luz e podem
ser mantidos justapostos (Fig. 5), por até 130
dias após o corte da raiz primária. A partir de
então, devem ser dispostos em fileiras duplas
(Fig. 6), pois a quase totalidade dos segmentos
de raiz já apresentam epicótilo regenerado e
com folhas. As fileiras, preferencialmente,
devem ser orientadas no sentido leste-oeste e
distanciadas entre si em cerca de 40 cm, para
evitar o estiolamento das mudas.
O início da regeneração da parte aérea torna-se
visível, em alguns segmentos de raiz, 35 dias
após o corte. Por volta de 105 dias, a porcentagem
de segmentos de raiz com início de
regeneração do epicótilo atinge valor superior a
90%. Uma pequena proporção de segmentos,
geralmente inferior a 5%, demanda maior tempo
para que ocorra a regeneração, requerendo
períodos superiores a 180 dias. Após o início da
regeneração, são necessários cerca de 18 dias
para que ocorra a abertura do primeiro par de
folhas, e quatro a cinco meses para que a muda
esteja completamente formada, ou seja, com
altura entre 40 cm e 45 cm, diâmetro basal
entre 0,8 cm e 1,0 cm e com 20 a 22 folhas.
Fig. 8. Disposição da semente sobre o substrato (a);
colocação do anel de plástico (b); retirada do anel de
plástico (c); e separação da raiz primária da semente (d).
8 Métodos de Propagação do Bacurizeiro, (Platonia insignis Mart.)
A utilização desse sistema permite a formação
de mudas ou porta-enxertos de bacurizeiro no
prazo de 12 meses, conforme esquematizado
na Fig. 9.
Fig. 9. Seqüência da formação de mudas de bacurizeiro
através da regeneração da raiz primária de sementes em
início de germinação.
Os seguintes procedimentos de adubação
devem ser adotados para que as mudas estejam
aptas para o plantio, com a idade de um ano:
a) Logo após a abertura do primeiro par de
folhas, efetuar adubação orgânica, adicionando-
se, em cada recipiente, 200 mL a 300 mL
da mistura de terra preta com esterco de
galinha, na proporção volumétrica de 1:1.
b) Semanalmente, irrigar as mudas com adubo
foliar contendo 6% de nitrogênio, 6% de P 2O5,
8% de K 2O, 0,5% de magnésio, 0,5% de
enxofre e micronutrientes. Essa formulação
deverá ser previamente diluída em água na
proporção de dois mililitros do produto comercial
por litro de água, aplicando-se, aproximadamente,
100 mL do produto diluído por planta.
Propagação por brotações naturais de
raízes de plantas adultas
O bacurizeiro apresenta capacidade de emitir
abundantes brotações a partir de raízes de
plantas adultas. O número dessas brotações é
particularmente expressivo após a derrubada
da planta-mãe, podendo cobrir quase que
totalmente a superfície do solo (Fig. 10),
dependendo do número de plantas derrubadas.
Esse processo de regeneração natural, aparentemente
constitui-se em método fácil para
formação de mudas. No entanto, a quase
totalidade dessas brotações não apresenta
sistema radicular independente (Fig. 11). Assim
sendo, quando da retirada da brotação com
parte do segmento de raiz que a originou, a
sobrevivência é muito baixa, pois o
enraizamento das brotações é muito difícil,
mesmo com o uso de substâncias indutoras do
enraizamento, como o ácido naftaleno-acético
e o ácido indol-butírico.
Fig. 10. Brotações espontâneas
oriundas de raízes de bacurizeiro adulto.
Fig. 11. Brotação oriunda de raiz de
bacurizeiro adulto, sem sistema
radicular independente.
Semeadura Muda
Ní vel do solo
12 meses
70 a 100 dias
Métodos de Propagação do Bacurizeiro, ( Platonia insignis Mart.) 9
Resultados mais satisfatórios são obtidos,
quando se utilizam rebentos com altura inferior
a 20 cm e estes são retirados no período de
chuvas mas, mesmo nessa situação, a sobrevivência
no viveiro é inferior a 25%.
Para contornar parcialmente esse problema,
recomenda-se a separação da brotação da
planta-mãe, durante o período de chuvas,
seccionando-se a raiz a cerca de 5 cm da
brotação, sem retirá-la do solo. Como em um
metro linear de raiz podem ser encontradas dez
ou mais brotações, é aconselhável o
seccionamento também no outro lado, de tal
forma a separar o rebento de outros que surgiram
na mesma raiz. A remoção da muda só
deve ser efetuada 40 a 50 dias após a separação
da planta-mãe. Nessa ocasião, observa-se a
formação de raízes adventícias na base do
caule, o que aumenta sobremaneira as chances
de sobrevivência da muda. Para que as raízes
não sejam danificadas, a muda deve ser removida
do solo com torrão (Fig.12) e transplantada
para sacos de plástico com dimensões de 25
cm de largura e 35 cm de altura e 200 m de
espessura, contendo como substrato a mesma
mistura indicada para os sistemas de formação
de mudas anteriormente descritos. As mudas
devem ser mantidas, logo após o transplantio,
em ambiente protegido com tela de plástico que
permita 70% de interceptação de luz, até que
apresente lançamentos novos, quando então
poderão ser levadas para viveiro com 50% de
interceptação de luz. Após o transplantio, são
requeridos cerca de 5 a 6 meses para que a
muda esteja completamente formada.
A grande vantagem desse método, é que as
plantas assim propagadas apresentam menor
período de juvenilidade, atingindo a fase de
produção 5 a 6 anos após o plantio no local
definitivo. Além disso, mantêm o mesmo padrão
de crescimento de mudas oriundas de sementes
ou de segmentos de raiz primária, com fuste
retilíneo, o que é importante se o objetivo da
plantação for tanto a produção de frutos como a
produção de madeira.
Fig. 12 . Retirada de brotação natural
de raiz com torrão.
Convém ressaltar que a propagação através de
estacas de raízes de plantas adultas também é
muito difícil. Essas estacas emitem com facilidade
brotações aéreas, sem que ocorra desenvolvimento
de raízes, e fenecem logo após o
esgotamento de suas reservas. Nesse sistema,
a porcentagem de mudas formadas é sempre
inferior a 5%, não sendo indicado para a propagação
do bacurizeiro em escala comercial.
Propagação por enxertia
O processo convencional de enxertia do
bacurizeiro envolve primeiramente a formação
do porta-enxerto, que é o próprio bacurizeiro
obtido por sementes ou por qualquer dos
processos anteriormente descritos. A enxertia
por garfagem no topo em fenda cheia, além de
ser um método de fácil execução e com maior
rendimento de mão-de-obra, proporciona maior
porcentagem de enxertos pegos que a
garfagem lateral no alburno. Em ambos os
métodos, a brotação dos enxertos inicia-se 20
dias após a enxertia, podendo, no entanto,
prolongar-se por até 80 dias, ocasião em que a
porcentagem de enxertos brotados atinge valor
em torno de 80% e 42%, para os métodos de
garfagem no topo e garfagem lateral no
alburno, respectivamente.
10 Métodos de Propagação do Bacurizeiro, (Platonia insignis Mart.)
O sucesso da enxertia depende, dentre outros
fatores, da época de retirada das ponteiras. Normalmente,
obtém-se maior porcentagem de enxertos
pegos quando as ponteiras são retiradas antes
da troca total das folhas da matriz que se deseja
propagar. Geralmente, no período compreendido
entre os meses de novembro a maio, as ponteiras
estão em estádio ideal para serem enxertadas, com
folhas maduras, tecidos lenhosos e gemas ainda
em fase de dormência. Quando são utilizadas
ponteiras oriundas de plantas que estejam em fase
de renovação de folhas, a brotação dos enxertos
ocorre antes de sua soldadura com o porta-enxerto
e a quase totalidade dos enxertos morre.
O diâmetro das ponteiras deve ser aproximadamente
igual ao diâmetro do porta-enxerto, no
ponto onde será efetuado a enxertia. Normalmente
esse diâmetro varia entre 0,5 cm e 1,0 cm. O
comprimento dos garfos deve se situar entre 10
cm e 15 cm e a porção a ser enxertada deve ser
parte do último lançamento do ramo.
As ponteiras devem ser retiradas de ramos
guias da matriz que se deseja propagar e submetidas
à toalete, eliminando-se todas as folhas,
com exceção das duas situadas na extremidade
apical do garfo, que são cortadas transversalmente,
de tal forma que permaneçam com
comprimento do limbo de apenas 5 cm
(Fig. 13). Na impossibilidade de se efetuar a
enxertia no mesmo dia de retirada dos garfos, é
necessário que os mesmos sejam acondicionados
entre folhas de papel-jornal umedecidos
com água e embalados em sacos de plástico.
Fig. 13. Segmento de ramo de onde será retirada a
ponteira (a) e ponteira submetida à toalete (b).
Durante a operação de enxertia, no caso de
garfagem no topo em fenda cheia, a primeira
etapa consiste na decapitação do porta-enxerto,
com um corte transversal, e deve ser
executada em altura cujo diâmetro seja semelhante
ao diâmetro basal do garfo a ser enxertado.
Em seguida, efetuam-se cortes na parte
basal do garfo, em bisel duplo, em forma de
cunha, inserindo-o, posteriormente, em incisão
vertical de 4 cm a 5 cm aberta na parte central
do ápice do porta enxerto. Após a incisão, o
enxerto é amarrado com fita de plástico e
envolvido com saco de polietileno transparente
(Fig. 14), previamente umedecido com água
em sua parte interna, com o objetivo de evitar
o ressecamento do enxerto. As mudas recémenxertadas
devem permanecer em ambiente
que evite a incidência direta de raios solares.
Fig. 14. Enxerto coberto com câmara
úmida.
Quando as duas primeiras folhas oriundas do
enxerto estiverem completamente desenvolvidas,
retira-se a câmara úmida, permanecendo
as mudas no mesmo local durante 10 dias,
quando então poderão ser levadas para viveiro
com 50% de interceptação de luz, até atingirem
o tamanho adequado para serem plantadas
no local definitivo. Normalmente as mudas
estão aptas para o plantio três a quatro meses
após a brotação do enxerto, ocasião em que
deverão apresentar altura em torno de 40 cm e
12 a 16 folhas completamente expandidas.
Métodos de Propagação do Bacurizeiro, ( Platonia insignis Mart.) 11
Outra alternativa para obtenção de mudas enxertadas
envolve a inserção do garfo diretamente na
raiz primária, muito antes que ocorra a emergência
do epicótilo. A enxertia é efetuada por
garfagem no topo da raiz primária, em fenda
cheia. Para facilitar a operação de enxertia, a
semeadura deve ser efetuada de maneira análoga
ao descrito para o processo de formação de
mudas por regeneração da raiz primária, excetuando-
se o fato de que as sementes devem ser
semeadas em plano ligeiramente superior ao da
superfície superior do saco de plástico. Entre 100
e 120 dias após a semeadura, efetua-se a separação
da raiz primária da semente que a originou,
com um corte transversal. Em seguida abre-se
uma fenda longitudinal de cerca de quatro a
cinco centímetros no topo da raiz e introduz-se o
enxerto, que deve estar com sua porção basal
cortada em forma de bisel. Após a inserção do
enxerto, efetua-se o amarrio com fita de enxertia
e cobre-se o enxerto com saco de plástico
transparente previamente umedecido com água
em sua parte interna. O revestimento com saco
de plástico tem por objetivo evitar ressecamento
do garfo e só deverá ser removido após a
brotação do enxerto. A muda enxertada está em
condição de ser plantada no local definitivo entre
6 e 8 meses após a enxertia (Fig.15).
Fig. 15. Enxerto após o amarrio (a) e
muda enxertada (b). |