Como sempre acontece no lançamento de uma nova tecnologia, os primeiros modelos de receivers e processadores Dolby Digital e DTS foram anunciados como soluções perfeitas para o som surround de uso doméstico. Nos anúncios das revistas, nos folhetos e nos manuais de instrução, o que se viam eram afirmações do tipo ?o som do cinema em sua casa?. Entusiasmados com essa promessa, milhões de fãs do home theater do mundo inteiro compraram esses receivers e processadores e, sem medo de errar, poderíamos dizer que a maioria deles estava, até há bem pouco tempo, inteiramente satisfeita com a sua aquisição. Essa satisfação perdurou até que os fabricantes de produtos para home-theater começaram a lançar modelos incorporando os novos sistemas de surround 6.1 ¾ o THX Surround EX, o DTS ES e o DTS ES Discrete. Pronto! A semente da insatisfação estava lançada. Da noite para o dia, muitos dos proprietários dos receivers e processadores 5.1 começou a se perguntar se não seria a hora de aposentar o seu equipamento atual e escolher um novo receiver com seis ou mais canais de amplificação e compatível com os esses novos sistemas. Para as pessoas que ainda não possuem um receiver 5.1 a pergunta passou a ser: economizo e compro um modelo deste tipo ou parto logo para outro mais atualizado. Foi para ajudá-lo a tirar suas próprias conclusões que preparamos esta matéria.
5.1, 6.1, 7.1, 8.1
O QUE SIGNIFICAM ESSES NÚMEROS?
Esses números se referem ao número de canais do sistema de surround ou do sistema de amplificação. O primeiro algarismo indica a quantidade de canais frontais e de surround, enquanto que o ? .1? se refere ao canal de efeitos especiais de baixa freqüência (LFE). A notação ?.1? surgiu com o lançamento do primeiro sistema doméstico de surround digital para home-theater em que todos os canais envolvidos passaram a ser totalmente independentes ¾ o Dolby Digital. Antes, no sistema Dolby Pro Logic, o canal central e o canal de surround eram extraídos a partir de informações gravadas de forma codificada nos canais frontais esquerdo e direito. Enquanto o canal central comportava a faixa completa de freqüências audíveis (20 Hz a 20 kHz), a resposta de freqüências do canal de surround era bastante limitada, indo somente dos 100Hz aos 7 kHz. Para quem está estranhando o fato de estarmos falando ?canal? e não ?canais? de surround, convém explicar ainda que, apesar de ser canalizado para duas caixas acústicas, o som do surround era mono ¾ ambas as caixas reproduziam os mesmos sons. Apesar de hoje isso parecer pouco sofisticado, a verdade é que a sensação de surround obtida podia ser muito boa, apesar das limitações apontadas, o que prova que nossos ouvidos podem ser facilmente enganados. Já com o sistema Dolby Digital e, um pouco mais tarde, com o DTS, a situação mudou drasticamente. O som do canal central passou a ser gravado e reproduzido de forma totalmente independente, o mesmo acontecendo com os efeitos de surround, que passaram a ter dois canais separados e com resposta de freqüências de 20 Hz a 20 kHz. A outra novidade foi o já citado canal LFE ¾ um canal independente e totalmente dedicado à reprodução dos sons muito graves, que na maioria dos sistemas de home-theater é reproduzido por um subwoofer ativo (com amplificador embutido). Além do conteúdo gravado exclusivamente para este canal em alguns discos DVD, cobrindo as freqüências de 120Hz para baixo, ele pode receber também as freqüências abaixo de 90Hz ou 80Hz presentes nos canais frontais, central e de surround que não possam ser bem reproduzidas pela caixas acústicas correspondentes (opção ?Small? do controle de gerenciamento de graves do receiver). Tudo isso contribuiu para que as diferenças em qualidade de áudio e sensação de envolvimento em relação ao Dolby Pro Logic fossem muito significativas, a ponto de até justificar o adjetivo ?perfeito? para os novos sistemas 5.1 (afinal de contas, este não o único adjetivo que pode mudar de significado com o decorrer do tempo).
Mas, se já tínhamos sistemas ?perfeitos?, o que foi que aconteceu afinal de contas para que a Dolby e a DTS tivessem a idéia de desenvolver os tais novos sistemas 6.1 ¾ o THX Surround EX, o DTS ES e o DTS ES Discrete? A resposta, como a tudo que se refere ao surround, está nas salas de cinema. Em função do grande porte dessas salas, a obtenção de uma boa sensação de envolvimento para toda a platéia sempre exigiu o uso não de apenas duas caixas de surround como no ambiente doméstico, mas de várias delas. Tanto no sistema Dolby Digital quanto no DTS usados originalmente nos cinemas, essas caixas, colocadas atrás e nos dois lados da platéia, estavam ligadas a apenas dois canais ¾ o surround direito e o surround esquerdo. Com o objetivo de proporcionar efeitos de surround ainda melhores e uma melhor sensação de deslocamento de sons no espaço, os laboratórios da Dolby desenvolveram junto com a THX um novo sistema utilizando um terceiro canal de surround. Esse terceiro canal, chamado de surround central, passou a alimentar somente as caixas de trás da platéia, enquanto que os outros dois canais de surround passaram a ser utilizados somente para as caixas laterais. Lançado nos cinemas em 1999, o novo sistema recebeu o nome de Dolby Surround EX. Naquele mesmo ano, a DTS lançou o seu sistema equivalente ¾ o DTS ES Extended Surround. Assim como já havia acontecido com os sistemas de surround anteriores, a Dolby e a DTS logo desenvolveriam as versões domésticas dos seus sistemas, chamados respectivamente de THX Surround EX e DTS ES. Da mesma forma como nas suas versões para as salas de cinema, o terceiro canal de surround ¾ o central ¾ destina-se a ser reproduzido por uma ou duas caixas colocadas atrás da posição de audição, enquanto que os outros dois canais ¾ o esquerdo e o direito ¾ são reproduzidos cada um por uma caixa colocada de cada lado dessa posição. Nos sistemas THX Surround EX e DTS ES, o canal de surround central ou traseiro não é independente (discreto) como os dois canais de surround laterais. De forma semelhante ao que era feito para gerar o canal central frontal no sistema Dolby Pro Logic, o canal central de surround é obtido a partir de informações codificadas nos dois canais laterais de surround. O que significa dizer que o disco DVD precisa ter essa codificação para permitir que esse canal central seja gerado. Já no sistema DTS ES Discrete, o mais avançado dos três, o canal central de surround é totalmente independente, vindo gravado separadamente no disco DVD.
O fato de já existirem alguns receivers com 7 ou 8 canais de amplificação, chamados por alguns de 7.1 ou 8.1, tem causado, embora até involuntariamente, alguma confusão no mercado, com muitas pessoas imaginando que se tratam de novos sistemas de surround 7.1 ou 8.1. Na verdade, o que esses receivers oferecem são canais de amplificação adicionais, como nos modelos AVR-5800 e AVR-4802 da Denon e no TX-DS989 da Onkyo. Esses canais permitem o uso de duas caixas acústicas para a reprodução do canal central de surround, em lugar de apenas uma. Dessa forma, temos três amplificadores para os canais frontais esquerdo, direito e central, dois para os canais de surround laterais esquerdo e direito e dois para o canal de surround central ou traseiro, Por outro lado, o receiver RX-V1 da Yamaha, com 8 canais de amplificação, faz o seguinte uso desses canais: três para os canais frontais esquerdo, direito e central, dois para os canais frontais de efeitos especiais, dois para os canais de surround laterais e dois para o canal de surround traseiro. Esses dois canais frontais de efeitos especiais não fazem parte de nenhum sistema de surround da Dolby ou da DTS. Eles são gerados através de um programa DSP da própria Yamaha.
VALE A PENA COMPRAR UM RECEIVER OU PROCESSADOR 6.1?
A decisão sobre se vale a pena ou não comprar um receiver ou processador compatível com o THX Surround EX, o DTS ES ou o DTS ES Discrete irá depender de alguns fatores, como:
· seu nível de satisfação com os sistemas 5.1;
· sua disposição ou não de gastar mais na compra de um receiver 6.1 do que pagaria por um modelo 5.1 e de comprar mais uma ou duas caixas acústicas além das seis de um sistema 5.1;
· a viabilidade da instalação das caixas laterais de surround;
· sua maior ou menor tolerância com a presença dessa caixa ou caixas adicionais na sua sala;
· e, finalmente, do tamanho dessa sala.
Muitas vezes, um sistema 5.1 é tudo que você precisa para ter uma ótima instalação de home-theater. Quando bem instalado e ajustado, um sistema desse tipo permite que se desfrute de uma ótima sensação de ambientação dentro das ações de um filme ou de presença em uma apresentação musical. O realismo dessa sensação também depende muito da qualidade técnica da produção dos efeitos sonoros incluídos nos filmes. Nas grandes produções, do tipo O Resgate do Soldado Ryan, Gladiador e Limite Vertical, para citarmos apenas estes exemplos, o realismo dos efeitos pode ser fantástico, transportando-nos virtualmente para o meio das ações vistas na tela e fora dela. Isso é verdadeiro principalmente quando as condições da sala permitem a colocação das duas caixas de surround nas paredes ao lado da posição de audição ou, quando isso não for possível e elas precisarem ser instaladas na parede de trás, quando esta parede ficar razoavelmente perto da posição de audição. Isto funciona principalmente se o ambiente de home-theater não for muito grande, com até cerca de 30 metros quadrados.
Nos ambientes maiores do que isso, o acréscimo do canal de surround adicional dos sistemas 6.1 ¾ o central ¾ passa a ser possível e desejável. Possível porque haverá condições de se colocar o sofá ou sofás da ?platéia? mais afastados (no mínimo, 1,50m) da parede de trás, onde a caixa (ou caixas) desse canal central estará posicionada (as outras duas caixas de surround deverão ser montadas uma de cada lado da posição de audição). Desejável, porque nessas condições os efeitos positivos do canal extra dos sistemas 6.1 passam a ser bem mais evidentes, criando-se uma sensação de envolvimento que os sistemas 5.1 não conseguem igualar. Você terá sons se originando distintamente da frente, de trás e dos lados da posição de audição.
Como já dissemos, se você já possui um sistema 5.1 e desejar evoluir para um sistema 6.1, além do receiver com processador THX Surround EX, DTS ES ou DTS ES Discrete, precisará comprar uma ou duas caixas a mais para o canal central de surround. O uso de duas caixas em lugar de apenas uma irá depender do receiver, que deverá ter dois canais de amplificação para o canal central de surround, e do tamanho da sua sala. Se ela não for muito grande, uma única caixa já será suficiente. A caixa ou caixas adicionais deverão ser iguais às de surround do sistema já existente ou, se forem menores, deverão pelo menos serem do mesmo fabricante e, melhor ainda, da mesma família dentro da linha de produtos desse fabricante. Por outro lado, se o seu home-theater for inteiramente novo, o ideal será a compra de cinco caixas iguais para os canais frontais esquerdo e direito, surround lateral esquerdo e direito e surround central, mais uma caixa central frontal que seja compatível com as demais. O custo extra dessas caixas, mais suas implicações do ponto de vista estético precisam ser levados em conta na sua análise de custos e benefícios, isso sem falar da necessidade de se esconder a passagem de mais um ou dois cabos adicionais para a conexão entre as caixas e o receiver.
Por último, vale lembrar que os filmes em DVD com a codificação necessária para a geração do novo canal central de surround ainda são relativamente raros, uma situação que deverá mudar no decorrer do tempo. Mais difícil é prever qual será a velocidade e a abrangência dessa mudança. O mais provável é que o novo recurso seja incluído somente nos novos blockbusters de ação, onde sua presença será mais valorizada, podendo ficar de fora dos filmes de outros gêneros.
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