Embora os dicionários tratem
como sinônimo, podemos classificar ESCUTAR de forma diferente de OUVIR.
Ouvir é um ato involuntário
que nos acompanha 24 horas por dia, pois nossos ouvidos ouvem tudo que se passa
à nossa volta, inclusive quando estamos dormindo, independente de estarmos ou não
prestando atenção. Eu mesmo, no momento em que escrevia estas linhas, estava
ouvindo música de fundo sem me ater a ela.
Escutar, nos remete à idéia de
maior interesse em algo que estamos ouvindo e que, acabamos dedicando a devida
atenção. Quando estamos ao telefone com alguém, por exemplo, estamos
escutando atentamente ao que nos falam, e nem por isso deixamos de ouvir o ruído
da rua ou a campainha de casa.
O que foi exposto anteriormente,
se aplica a música, principalmente, quando se trata de música reproduzida, uma
vez que, normalmente quando vamos a uma apresentação musical ao vivo, vamos
com o intuito de escutar atentamente, o que nem sempre ocorre com a música
reproduzida, onde muitas vezes ouvimos música ao mesmo tempo que conversamos
com amigos ou lemos um bom livro.
O ato de escutar música
reproduzida, seriamente, requer atenção & dedicação, pois desejamos
perceber toda a riqueza dos detalhes e sentir toda a emoção que ela possa nos
trazer.
Os melômanos, que não
necessariamente são audiófilos, são pessoas que gostam de ouvir música,
independentemente de como ela esteja sendo reproduzida ou apresentada.
Os audiófilos, normalmente, são
também melômanos. Além de apreciarem a boa música, fazem questão de escutar
da melhor forma possível, pois o prazer de ESCUTAR MÚSICA reproduzida em um
equipamento de alto nível é algo que realmente compensa toda a quantia que
tenhamos investido para atingir tal resultado.
A SITUAÇÃO SE COMPLICA QUANDO
COMEÇAMOS A APRENDER A ESCUTAR MÚSICA.
Enquanto
nos contentamos em ouvir música reproduzida, qualquer fonte nos basta, até
mesmo um simples radinho pode parecer suficiente. Mas, a partir
do momento que evoluímos e começamos a aprender a ESCUTAR MÚSICA
reproduzida é que as coisas começam a se complicar.
Quando se trata de audição
despretensiosa, nem sempre percebemos um sintoma denominado de FADIGA AUDITIVA,
pois quando estamos dividindo o ato de ouvir música com outra atividade,
principalmente se esta outra atividade requer muito de nossa atenção, não
chegamos ao ponto de saturação.
Em uma audição
dedicada, quando ?paramos? para ESCUTAR MÚSICA, estamos mais sujeitos a
Fadiga Auditiva, cuja velocidade de saturação é inversamente proporcional a
qualidade dos componentes que utilizamos, ou seja, quanto menor??? a qualidade
de nosso sistema, mais rápido atingiremos a Fadiga Auditiva.
Se você tem um sistema
midi-fi (receiver de custo médio por exemplo) já deve ter passado pela
(desagradável) experiência de, numa tarde de domingo chuvoso, resolver passar
o resto do dia ESCUTANDO MÚSICA, então separa alguns CDs que você não ouve há
muito tempo e começa a escutá-los, mas depois do segundo ou terceiro CD você
já não agüenta mais ouvir nada. A isto chamamos de Fadiga Auditiva.
Alguns melômanos, que não
sabem ESCUTAR MÚSICA, limitando-se a ouvir música, costumam argumentar que o
importante é a música. Sim, tanto esta afirmativa é verdadeira que, de tão
importante que é a música, os audiófilos investem em bons sistemas para
poderem ouvir suas músicas prediletas por horas & horas com muito prazer.
Se você não deseja que
seu sistema sirva somente para música de fundo e/ou se você já se deparou com
o sintoma da Fadiga Auditiva, você está no caminho certo para aprender a
ESCUTAR MÚSICA e, naturalmente, se tornar um audiófilo. É a evolução
natural (ou você vai querer ouvir radinho a vida inteira?)! O próximo passo é
investir em equipamentos de boa qualidade, afinal de contas aparelhos high-end não
são tão inatingíveis assim (ver matéria ?Meu primeiro high-end?, na edição
de Maio de 2001).
O TIPO DE MÚSICA QUE APRECIAMOS É FATOR
PREPONDERANTE PARA DETERMINAR O EQUIPAMENTO ADEQUADO.
Outro fator importante a
ser considerado, é o tipo de música que apreciamos, pois de nada adianta
possuirmos um sofisticado sistema, que não nos traga Fadiga Auditiva, se nele
iremos reproduzir gêneros musicais, que por si só, já causam Fadiga Auditiva.
Explicando: Quanto mais
elaborada é a música, normalmente, mais dedicação ela recebe por parte de
todos os envolvidos no processo de registro, ou seja, músicas mais rudimentares
(como Pop & Rock), por si próprias não apresentam toda uma riqueza sonora,
que consequentemente não exigem um refinamento de gravação. Quando passamos
para música um pouco mais elaborada, como o Jazz & Blues, torna-se necessária
uma maior atenção por parte da equipe responsável pelo seu registro, pois os
detalhes melódicos passam a ter importância. Ao chegarmos à música Erudita
(Clássicos & Óperas) então, é imprescindível todo um cuidado para que
seu registro seja melhor possível.
O que acabei de expor, é
uma regra geral, mas não uma lei absoluta, pois da mesma forma que existem inúmeras
gravações de má qualidade, mesmo em se tratando de obras eruditas, podemos
encontrar algumas boas gravações no gênero pop ou rock.
Quanto mais elaborado for
o gênero musical de sua preferência, mais sofisticado deve ser seu sistema de
áudio.
AS ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS NÃO SÃO INDÍCIO DE
MUSICALIDADE.
Matemáticos de plantão,
costumam se basear em especificações técnicas para afirmarem uma série de
equívocos como verdade absoluta. Desconhecem que a música não é composta só
das freqüências fundamentais???, mas também de harmônicos???, que nos
proporcionam toda uma agradável sensação de escutá-la e, ao contrário,
nunca ouvi ninguém dizer que aprecia escutar um gerador de sinais...
O que desejo afirmar com
isso, é que a musicalidade de um equipamento não pode ser medida, embora a
especificação técnica de um determinado aparelho possa se apresentar em
grandezas fabulosas, não necessariamente este equipamento será melhor ou,
principalmente, mais musical do que outro com especificações mais modestas.
Como exemplo podemos
citar o CD, que quando de sua criação, baseando-se em suas especificações,
foi divulgado como ?som perfeito?. Matematicamente correto, sua resposta de
freqüência, por exemplo, abrange todo nosso espectro auditivo, indo dos 20Hz
aos 20KHz, mas na prática mostrou-se insuficiente, pois apesar de ouvirmos,
teoricamente, só até 20KHz, os harmônicos das freqüências acima se fazem
necessárias para uma audição agradável. Mesmo caso ocorre quando da reprodução
das baixas freqüências, onde todos sabemos que um subwoofer que (realmente)
responda à partir dos 20Hz, apresenta um desempenho melhor do que outro que
responda somente à partir dos 40Hz, mesmo que ambos forneçam potência idêntica
e sendo comparados em um mesmo ambiente que, teoricamente, não tenha dimensões
suficientes para a propagação completa do comprimento de onda nesta freqüência.
Novamente, matemática não
é música!
Sempre levando em conta que o mais importante é a música,
não devemos nos contentar em ouvir música e sim, desenvolver o hábito de
ESCUTAR MÚSICA. Tentando reproduzi-la da melhor forma possível,
poderemos desfrutar do prazer de apreciarmos todos os detalhes & nuances de
uma boa obra musical por longos períodos.
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