Frank Sinatra pode ter gostado de fazer as coisas do seu jeito (como disse na canção ?My Way?), mas afinal ele tinha um ótimo trunfo: uma voz única e invejada por metade da população mundial. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito da próxima geração de DVDs. Toshiba e Sony desistiram de trabalhar juntas e decidiram fazer as coisas... cada uma do seu jeito. Em vez de ouvir uma bela canção, o que estamos assistindo é um clássico de James Dean: ?Juventude Transviada? (no original, ?Rebel Without a Cause?). Lembram-se? Ele era um jovem rebelde com passado complicado, que chega a uma nova cidade onde faz amigos e inimigos.
Claro que as duas empresas têm um passado complicado. Ambas enfrentaram sucessos e fracassos. Ambas tentaram a supremacia nas patentes e não conseguiram. Ambas têm amigos e inimigos. As grandes questões são: até que ponto estão comprometidas com seus amigos? E até que ponto seus inimigos estão determinados?
Na verdade, Hollywood está, sim, comprometida... a fazer dinheiro. Muito dinheiro! Quanto mais, melhor. Os estúdios estão vendo a queda nas bilheterias, e agora a novidade da queda na venda de DVDs também. O consumidor está selecionando melhor o que compra. Desmentindo a teoria de que o público do cinema está preferindo ficar em casa e alugar filmes, o mercado de locação caiu 2% no primeiro semestre deste ano.
Será que todo mundo está comprando vídeo pirata? Ou baixando filmes da internet e trocando com os amigos? Para achar a resposta, é bom prestar atenção no que diz o próprio CEO da Blockbuster: a queda nos cinemas tem impacto negativo em toda a indústria. Ele se refere a toda a comunidade financeira, argumentando que a maioria dos filmes atuais simplesmente não merecem ser vistos, comprados, alugados... nem mesmo roubados.
Um formato diferente de disco não irá mudar esse fato. Se o desentendimento entre os fabricantes continuar, vai demorar pelo menos dois anos para que qualquer um deles consiga algum resultado. Todos os estúdios que já se comprometeram a lançar filmes em Blu-Ray ou HD-DVD este ano disseram também que vão esperar sentados, até que o debate seja concluído. Vão continuar lançando títulos no formato atual enquanto as pessoas continuarem comprando players. Vão esperar também que os grupos normativos do MPEG-4 e H.264 irão oferecer em termos de proteção de conteúdo nas mídias atuais.
Claro, os estúdios possuem grandes acervos onde podem fazer dinheiro ? filmes que foram criados, como se sabe, lá atrás, quando os filmes eram realmente bons. Mas não irão lançá-los, em qualquer formato que seja, sem uma sólida tecnologia DRM (Digital Rights Management). Já desenvolveram essa tecnologia, com ajuda do pessoal do software, e ela é suficientemente flexível para funcionar com qualquer mídia ? inclusive IP. É uma tecnologia tão boa que um garoto de 15 anos leva pelo menos um dia para quebrá-la!
Alguns estúdios estão tentando tirar pó de velharias, como faz atualmente a Universal com ?King Kong?. A empresa não admite perder o controle sobre esse tipo de material, e protege seu acervo com precisão militar, desde o momento em que o filme sai do baú até ser entregue ao consumidor, com seu DRM intacto. Se isso funciona, os outros estúdios seguirão o mesmo caminho, sem se importar com Blu-Ray ou qualquer outra tecnologia do gênero.
De fato, muitos dos ?amigos? ? dos dois lados da discussão ? começam a procurar apoios em outros lugares. E opções existem. O chefão da Warner comentou recentemente que a indústria está tentando, de todas as maneiras, evitar que se repita o que aconteceu com as gravadoras de discos. Por isso é que estão à procura de qualquer oportunidade que apareça. Redes de televisão, desenvolvedores de conteúdo e consumidores estão se acostumando ao vídeo-on-demand através de cabo e satélite. Hoje, pouco mais de 11,6 milhões de residências americanas possuem DVRs (digital video recorders), e até 2009 estima-se que esse número chegue a 46,5 milhões.
Podemos até abominar, mas muito desse conteúdo dependerá da capacidade cada vez mais alta dos discos rígidos, hoje tão baratos. O modo inteligente de distribuir conteúdo ? não que inteligência tenha algo a ver com isso ? seria os detentores do conteúdo adotarem uma abordagem mais realista em relação ao problema das cópias, mais ou menos como fez a Sony BMG com seus CDs de música. A nova tecnologia da BMG permite ao consumidor fazer até três cópias de um disco, e embora a empresa admita que a idéia precisa ser aperfeiçoada, ela já causa problemas à pirataria. Com pouco mais, essa pode ser a solução mais eficiente. Quando isso acontecer, a BMG ficará menos dependente de suas dois atuais (e caros) canais de distribuição ? os cinemas e as lojas de disco.
O LADO SOMBRIO DOS DISCOS Talvez na ânsia de receber royalties, Toshiba, Sony e seus parceiros podem não ter notado que as pessoas estão se acostumando à prática do download. Pessoas que quase todas as idades, e não apenas nos EUA, mas no mundo inteiro, sentem-se muito mais confortáveis em conseguir suas músicas e jogar seus videogames pela internet.
Claro, ainda não é a maioria, mas um número crescente de pessoas já assiste a seus filmes via web. Essa onda ? meu vídeo, no meu tempo, do meu jeito ? pode não ter sido percebida pelos engenheiros do Blu-Ray, mas não passou despercebida por Microsoft, Cisco e Intel. Todas as três estão investindo pesado em soluções Wi-Fi e Wimax. Operadoras de telefonia pelo mundo afora já colocam serviços de TV e vídeo em seus planos de negócios. Já faz tempo que a Coréia vem distribuindo IPTV, e com muito sucesso. E a BBC acaba de anunciar que irá oferecer sua programação para download na internet.
Comcast, Time Warner e outros conglomerados do cabo vêem esses serviços como seus maiores concorrentes nos próximos cinco anos. Sabe-se que o vídeo em banda larga não estará disponível antes de 2010, mas lembrem-se, trata-se apenas de uma onda, mas é assim que começam os tsunamis... Viiv é o nome dado pela Intel a sua nova tentativa de esconder chips de computador dentro de aparelhos que as pessoas queiram ter em suas salas. O plano é complexo e inclui conversas com construtores e revendedores de home theater e equipamentos eletrônicos em geral, além de pesquisas diretas junto aos consumidores americanos. Paul Otellini, CEO da Intel, deu a sua equipe ordens expressas para conquistar o mercado residencial com produtos que as pessoas queiram ter. Um dos produtos com o código Viiv parece um conversor de TV a cabo comum, mas tem também algo a ver com o Mac Mini da Apple.
Trabalhando em estreita cooperação com seus parceiros, a Intel pretende oferecer aos consumidores produtos de entretenimento que possam ser plugados facilmente num TV do tipo HD. Alguns terão disco rígido com capacidade de 1Tb (terabyte, equivalente a 1 milhão de megabytes), ou seja, 128 horas de conteúdo em alta definição, o que satisfaz o mais exigente e fanático dos telespectadores.
No ano passado, a Sony mostrou algo semelhante, e recentemente a Hitachi fez o mesmo. Pode apostar que empresas como Seagate, Maxtor e Western Digital seguiram os passos da Intel, buscando fabricantes OEM que forneçam kits para armazenar uma vida inteira de fotos, meses de música e anos da sua novela favorita.
Se um conteúdo protegido por DRM puder ser enviado via banda larga, provavelmente será codificado em MPEG-4 ou H.264. Assumindo que os donos de conteúdo ?permitam? aos consumidores fazer uma cópia (ou duas, se eles forem bem generosos), com uma nova geração de players MPEG-4 bem baratos e discos DVD-R igualmente baratos, será que as pessoas estarão interessadas em Blu-Ray ou HD-DVD?
Não, elas vão querer receber áudio e vídeo ?do seu jeito?. Conseguirão esse conteúdo de uma forma ou de outra. E o cenário recente de pirataria em MP3 for alguma indicação, talvez os estúdios de cinema queiram fornecer o conteúdo da forma mais conveniente ao consumidor, antes que este faça justiça com suas próprias mãos.
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