Para que os televisores de quaisquer
tamanhos, e de quaisquer marcas e modelos possam receber e processar devidamente
as transmissões de TV por toda a área de grandes países,
ou mesmo de continentes, é indispensável que tanto os sinais
transmitidos quanto os televisores obedeçam a certos padrões
técnicos.
Mas isso absolutamente não
é verdade para os computadores. Agora, tudo o que é preciso
é que a placa de vídeo de um micro seja compatível
com o respectivo monitor. E assim surgiram inúmeros padrões
de vídeo para computadores. Os sinais de vídeo dos computadores
podem ser analógicos, como na TV convencional, ou digitais. Alguns
destes sinais trabalham com taxas de varredura horizontal que ultrapassam
os 100 kHz.
Os monitores dos micros não
usam a técnica de entrelaçamento, mas a varredura progressiva.
Já sabemos que na de entrelaçamento as linhas ímpares
são varridas antes das pares, para formar o campo ímpar.
Só então as linhas pares passam a ser varridas, para formar
o campo par. E cada dois campos, um ímpar outro par, formam um quadro
de imagem.
Já na técnica de varredura
progressiva, todas as linhas de um mesmo quadro são varridas seqüencialmente,
sem discriminação de linhas ímpares ou pares. De modo
que quando o feixe de elétrons termina de varrer a última
linha, o quadro de imagem já está completo.
Bem, OK ! Mas quais são as
vantagens e desvantagens de cada técnica?
Para efeito de comparação,
vamos pensar em duas situações. Na primeira, temos 525 linhas
com 700 pixels por linha, utilizando técnica de entrelaçamento.
Na segunda, temos 480 linhas com 640 pixels por linha, com varredura progressiva.
Numa comparação inicial, as 525 linhas da primeira situação
superam as 480 da segunda. Mas as pessoas geralmente não fazem só
isso, preferindo comparar a quantidade total de pixels. No caso, 525 x
700 = 367.500 contra 480 x 640 = 307.200. Ou cerca de 20% mais pixels para
a primeira situação. O significa imagem 20% mais nítida
no primeiro caso. Certo? Não. Embora os números realmente
sugiram isso, sem que as taxas de varredura sejam determinadas, números
podem estar longe de contar a verdade.
Suponha por exemplo que a taxa de
varredura seja a mesma para as duas situações anteriores.
Nesse caso, a varredura progressiva leva nítida vantagem. Porque,
mesmo com menor quantidade de pixels e de linhas, a velocidade de apresentação
é superior à da técnica de entrelaçamento.
Em outras palavras, o tempo que a segunda situação demora
para traçar 480 linhas é o mesmo que a primeira situação
demora para traçar apenas 262,5 linhas. Ou ainda, enquanto
a primeira situação traça as 525 linhas, a segunda
já terá traçado 960.
A maior quantidade de linhas com
técnica de entrelaçamento é particularmente superior
à menor quantidade de linhas com varredura progressiva, para reproduzir
pequenos detalhes em cenas congeladas, ou com pouco movimento. Ao que se
chama resolução espacial, que é decorrência
direta da maior quantidade de linhas e de pixels, e não depende
do tempo empregado para gerar as imagens. Mas isso só funciona nas
cenas com pouco ou nenhum movimento. Se o movimento da cena já é
algo apreciável, as trajetórias dos objetos em movimento
mudam entre os campos ímpares e pares, inerentes à própria
técnica de entrelaçamento. E esse fenômeno produz imperfeições
de movimento, facilmente perceptíveis como distorção.
A forma típica é a de "escadinhas" aparecendo diagonalmente
na tela.
Já a varredura progressiva
é considerada excelente para reproduzir cenas com movimento, sem
apresentar distorções visíveis. Independentemente
da velocidade de movimento dos objetos. Esta propriedade da varredura progressiva
é chamada resolução temporal. Já a reprodução
de imagens congeladas, ou com pouco movimento, não é tão
eficiente com varredura progressiva. Porque se "pararmos o relógio",
ou fizermos com que ele ?ande muito devagar?, predominam os efeitos da
menor quantidade de linhas e de pixels.
Não continuaria com
isso se entendesse que você, consumidor, futuramente não tivesse
que fazer suas próprias opções. Mas como verá,
ao que tudo indica, terá mesmo que optar. Enquanto a varredura progressiva
oferece sempre a mesma resolução, a técnica de entrelaçamento
oferece resolução que depende do movimento da cena.
Mesmo com programas mais parados, como os de jornalismo, a idéia
com a TV é essencialmente a de movimento. Então,
considerando cenas com muito movimento, na técnica de entrelaçamento
a resolução varia entre cerca de metade das linhas, até
sua quantidade máxima. Cálculos feitos apontam para médias
que se situam em torno de 60% da quantidade total de linhas. Mas este não
é um valor realmente médio, pois a resolução
depende mesmo do movimento instantâneo de cada seqüência.
MITO E REALIDADE
Para a maioria das pessoas, HDTV
é apenas a televisão do futuro quase no presente. Widescreen.
Tecnologia muito comentada. Formato novo. Relação de aspecto
16:9. Qualidade excepcional. Tudo certinho. As coisas se encaixam perfeitamente.
Mas será mesmo assim ? Em algumas versões menos atualizadas
de HDTV, como no sistema japonês 1125/50, o sinal ainda era analógico,
combinando luminância com crominância, como num sinal PAL-M
convencional. Mas a HDTV hoje é definida como um padrão digital,
e não analógico.
Naturalmente, num determinado ponto,
a forma digital do sinal tem que ser convertida para a forma analógica,
de modo que a imagem possa ser vista num monitor ou num projetor de vídeo.
A maior vantagem do sinal digital é sua incrível imunidade
a ruídos, particularmente em comparação com sinais
analógicos, além de eliminar várias formas de degradação
de imagem, tão comuns nos sinais analógicos.
Sinais digitais de HDTV são
representados por bits zeros e uns. Em quantidades astronômicas.
O que é um problema. A solução chama-se compressão.
A exemplo da compressão MPEG. No caso, compressão é
apenas uma forma de reduzir os bits a quantidades "gerenciáveis".
Imagine um cenário de nosso cotidiano. Um locutor falando num noticiário
de TV. Como o fundo da imagem permanece praticamente inalterado por todo
o tempo do programa, as informações correspondentes às
imagens desse fundo não precisam ser repetidas a cada quadro. O
que, em termos digitais, significa uma incrível economia de bits.
E algorítmos simples permitem reduzir muitas vezes a quantidade
de bits, e posteriormente recuperar a imagem original sem quaisquer problemas.
Os padrões de TV nos Estados
Unidos são definidos pelo FCC. Que para efeito de HDTV, se baseia
no trabalho que vem sendo desenvolvido pelo ATSC - Advanced Television
Standards Committe. O ASTC apresentou dois padrões de resolução
de HDTV. O primeiro é de 1.920 pixels horizontais por 1.080 verticais,
e o segundo de 1.280 pixels horizontais por 720 verticais. A relação
de aspecto de ambos é 16:9. Ou seja, os dois são "widescreen".
Estes são os dois únicos formatos realmente considerados HDTV.
Além destes, a ATSC também
apresentou outros padrões, com resoluções inferiores,
enquadradas no que se chamou de SDTV (Standard Definition TV). Assim, por
definição, SDTV é algo qualitativamente inferior a
HDTV. Entre os formatos de SDTV estão o de 704 pixels
horizontais por 480 verticais, e o de 640 pixels verticais por 480 verticais.
O primeiro é considerado 16:9, não obstante a matemática
nos mostre que o formato é mesmo mais retangular do que isso. E
640 por 480 é a forma do display VGA de computador, com freqüência
horizontal de 31.500 Hz.
O padrão HDTV 1.920 x 1.080
pode ser apresentado com 24 ou 30 quadros/segundo, com varredura progressiva
(1.920 x 1.080p), ou ainda, com 60 campos por segundo e técnica
de entrelaçamento (1.920 x 1.080i). O p minúsculo após
a informação de resolução denota a técnica
progressiva, e o i minúsculo (para interlaced), a técnica
de entrelaçamento. O padrão HDTV 1.280 x 720 pode ser apresentado
com 24, 30 ou 60 quadros/segundo, sempre com varredura progressiva (1.280
x 720p). Todos os padrões SDTV podem ser apresentados com 24, 30
ou 60 quadros/segundo com varredura progressiva, ou com 60 campos e técnica
de entrelaçamento.
Creio que já dá para
perceber que nem todos esses padrões e variantes estão fadados
ao sucesso. Afinal, ao todo eles são dezoito. Por isso mesmo, poucos
deles estão recebendo suporte efetivo da comunidade técnica
e, principalmente, das emissoras de TV. Por exemplo, nos Estados Unidos,
o formato 1.920 x 1.080i parece ter sido o eleito por duas das maiores
redes de TV, nominalmente, a CBS e a NBC, além de outras, como a
HBO. Outro formato que tem sido namorado por muitas emissoras é
o 704 x 480p. Principalmente por sua compatibilidade visual com o padrão
existente de 525 linhas com técnica de entrelaçamento.
Já a FOX, a ABC, a indústria
da informática, a prestigiadíssima Imaging Science Foundation
e outras entendem que o formato 1.920 x 1.080i apresenta pontos fracos,
e dão preferência ao 1.280 x 720p, bem como a equipamentos
de padrão dual, capazes de gravar relações de aspecto
de 4: 3 e de 16:9. Com sinais digitais de TV, é possível
usar um único canal para transmitir:
um sinal 1.920 x 1.080i, ou
um sinal 1.280 x 720p e simultaneamente um
segundo sinal de 640 x 480, ou
vários sinais simultâneos com
480 linhas, ou
uma grande quantidade de sinais com 480 linhas
e relação de aspecto 4:3
Pensando em resolução,
o padrão 1.920 x 1.080i cai entre o XGA e o SXGA. Mas graças
à técnica de entrelaçamento, a taxa de varredura é
muito inferior (34 kHz). Isso significa que os displays de CRT (tubo de
raios catódicos, como num televisor convencional), que trabalham
com resolução variável e têm capacidade para
suportar ao menos o VESA 1 (35,2 kHz, 56 Hz), já estão prontos
para a HDTV.
A tempo. Trabalhar com resolução
variável significa que o dispositivo está realmente preparado
para processar sinais com várias taxas de varredura. Em alguns deles,
a taxa deve ser comutada manualmente. Em outros, o aparelho possui sensores
eletrônicos de taxa de varredura, e a comutação é
automática. Estes são os chamados multiscan.
Além disso, os displays de
CRT são mais apropriados para varredura progressiva. O que deve
ficar claro com o seguinte exemplo. Suponha que você está
assistindo a um programa com técnica de entrelaçamento. Então,
você interrompe o programa para utilizar um dobrador de linhas. A
função deste é fazer com que o sinal com varredura
de entrelaçamento torne-se próximo do de um com varredura
progressiva. Então, já com o dobrador, você notará
que houve aumento na saída de luz. De fato, na maioria dos displays
o aumento na saída de luz é da ordem de 40%, sem introdução
de distorções de imagem. O que é algo considerável.
A resolução típica
dos displays de gás plasma é 852 x 480. Portanto, mais próxima
de 480 linhas com varredura progressiva do que da HDTV. Logo, os plasmas
são mais propícios para trabalhar com padrões SDTV,
especialmente o 740 x 480. Já encontramos monitores de alta resolução
no mercado. Eles trabalham com taxas de varredura de até 70 kHz
horizontais, e de até 120 Hz verticais. Assim, tanto podem trabalhar
com o padrão 1.920 x 1.080i, quanto com o 1.280 x 720p. Apesar de
sua resolução especificada ser 1.024 x 768 no modo RGB.
Os displays multisync convencionais
não estão capacitados para mostrar imagens com relação
de aspecto de 16:9 completas, a menos que as imagens sejam reduzidas horizontal
e verticalmente, ou que o sinal sofra conversão de varredura. Mas
há exceções, que tendem a aumentar para tornar-se
a regra. Com efeito, em setembro último a Toshiba lançou
displays de retroprojeção de 65" e 71", tipo multiscan, capazes
de lidar com os padrões 1.920 x 1.080i de HDTV e 640 x 480p de SDTV.
A Panasonic já oferece alguns
modelos que trabalham com os padrões SDTV. De um modo geral, a varredura
progressiva é adequada para gás plasma, para displays DLP,
e para alguns que estão por ser lançados, com novas tecnologias.
O futuro da HDTV é efetivamente
promissor. Mas nesta quadra, ainda há muitas indefinições.
A primeira afirmativa é decorrência da imagem deslumbrante
da HDTV, e de sua combinação explosiva com telas "widescreen".
A segunda decorre de várias coisas. Inicialmente, o fato de que
nem todos os padrões serão bem sucedidos. Depois, porque
emissoras diferentes estão privilegiando formatos diferentes. E,
finalmente, porque a troca e "upgrade" de equipamentos das próprias
emissoras leva a investimentos dantescos, tão elevados quanto os
próprios riscos do negócio.
Portanto, podemos dizer que hoje
não há última palavra em HDTV.
(artigo publicado originalmente na revista
HOME THEATER)
* Luiz Fernando Otero Cysne
é engenheiro especializado em acústica e projetos de áudio
e vídeo.
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