A
segunda dificuldade é que a audição de caixas em ambientes diferentes falseia
inevitavelmente os resultados, pois as diferenças de acústica entre esses
ambientes podem realçar ou atenuar determinadas características do áudio das
caixas avaliadas. Isso não quer dizer, no entanto, que as comparações que você
fizer nessas condições serão inúteis, mas que deverão ser cuidadosamente
ponderadas. Por outro lado, um determinado modelo ou sistema de caixas também
pode agradá-lo tanto que você não terá dúvida alguma em escolhê-lo como o
seu preferido.
Quando
as audições comparativas tiverem início, o primeiro conselho é não ter
pressa. Nessas comparações, é muito freqüente achar que determinado modelo
é o vencedor e depois mudar completamente de idéia. Motivo: trocar um disco
apenas instrumental por outro contendo vozes, ou um disco de rock por um de música
sinfônica. Agora, se nenhuma das caixas ou sistemas que você ouvir conseguir
se destacar sobre as outras em todos os estilos musicais, procure escolher
aquelas que se saíram melhor na reprodução do seu estilo preferido. Porém,
para chegar a esta ou a outra conclusão com suficiente grau de segurança,
prepare-se para um longo jogo de pingue-pongue entre as caixas que estão sendo
consideradas. Essas comparações deverão ser feitas duas a duas, ou seja, as
caixas ?A? deverão ser comparadas com as caixas ?B?. Quem vencer,
seguirá para a disputa com as caixas ?C? e assim sucessivamente. No caso de
sistemas completos para surround, faça as comparações ouvindo CDs no modo estéreo
e filmes no modo Dolby Digital ou DTS.
Outro
detalhe a ser observado é que as caixas comparadas devem estar posicionadas
mais ou menos de forma semelhante dentro do ambiente de audição. Mudanças
consideráveis de posição poderão fazer com que a acústica do ambiente venha
a favorecer ou prejudicar o desempenho de uma caixa ou sistema. Quando falamos
em posicionamento, estamos nos referindo à distância das caixas de cada
sistema entre si, das paredes laterais e da parede frontal ou traseira. Numa
audição em estéreo, por exemplo, a caixa esquerda ?A? deverá estar ao
lado da caixa esquerda ?B? e a caixa direita ?A? ao lado da caixa
direita ?B?.
Vale
ficar atento também ao nível de volume das caixas comparadas, que deve ser o
mais uniforme possível. Na ausência de diferenças mais flagrantes entre duas
caixas, nossa tendência natural é preferir aquela que estiver tocando mais
alto. Uma diferença de apenas 1dB já é suficiente para favorecer a caixa de
volume mais elevado. Como você irá observar, não basta que o controle de
volume do amplificador ou receiver se mantenha o mesmo. Devido às diferenças
de sensibilidade entre as caixas, a probabilidade de que toquem em volume idêntico
é muito pequena. Assim será necessário reajustar o volume do amplificador ou
receiver a cada troca de sistema. O ideal seria que esse ajuste fosse feito com
o auxílio de um medidor de pressão sonora, bem mais preciso do que os nossos
ouvidos. Como dificilmente este instrumento estará disponível, o ajuste acabará
tendo de ser feito na base do ?orelhômetro? mesmo, o que não é de todo
ruim, desde que feito com cuidado.
Um
dos aspectos mais importantes a serem avaliados nas caixas acústicas é a
capacidade de projetar uma imagem acústica ou palco sonoro com características
de tridimensionalidade. Para isso, nas audições em estéreo, procure ficar
sentado exatamente entre as duas caixas frontais a fim de avaliar o seu
desempenho nessa área. Nos discos com solistas vocais, a voz do cantor(a) deverá
ficar o mais nitidamente possível focalizada no meio dessas duas caixas, como
se estivesse sendo reproduzida por uma caixa central. Nas músicas
instrumentais, você poderá avaliar o desempenho das caixas em termos de
largura, profundidade e altura da imagem sonora, bem como a capacidade de
localizar precisamente o posicionamento de cada instrumento dentro do palco
sonoro.
Se
você nunca houver feito antes esse tipo de avaliação, irá ficar surpreso com
o grau de realismo atingido por algumas caixas. Você irá perceber que os sons
se estenderão lateralmente bem além da posição ocupada pelas duas caixas.
Terão ainda uma profundidade que criará a ilusão de que o áudio vem de um
local atrás das paredes à sua frente. Em outras palavras, as duas caixas deverão
?desaparecer? como as fontes dos sons reproduzidos. O grau de precisão com
que as caixas comparadas atingirem esses efeitos irá determinar qual delas é a
melhor nesse aspecto.
Em
uma avaliação desse tipo, o mais aconselhável é a utilização de discos
contendo música sinfônica, geralmente os mais bem gravados. Nesses discos, a
gravação é feita com microfones cuidadosamente posicionados para obter os
efeitos desejados de largura e profundidade da imagem sonora e de localização
dos instrumentos. Embora esse tipo de cuidado também possa ser encontrado em
algumas gravações de música popular, a maioria é feita de uma forma que
torna impossível esse tipo de avaliação. É comum, por exemplo, que a gravação
da voz do vocalista e de cada instrumento ou grupo de instrumentos seja feita
separadamente e depois mixada com as demais vozes e instrumentos. Além disso,
as gravações de música popular normalmente utilizam compressão de áudio, o
que reduz a sua faixa dinâmica, ou seja, a diferença de intensidade entre os
sons mais baixos e os mais altos.
O
ideal de todo audiófilo é escolher caixas acústicas de acordo com a
fidelidade de timbres, a neutralidade na reprodução de todos os tipos de vozes
e instrumentos. O que esse público busca é criar em suas salas a ilusão de
estar presente em uma apresentação ao vivo. Em outras palavras, o maior
realismo possível. Assim, para avaliar a qualidade de um sistema de caixas acústicas
ou de qualquer produto de áudio, sua referência é sempre a música ao vivo
ou, no caso do home theater, os sons como eles se apresentam na natureza. Embora
teoricamente este seja o critério correto de avaliação, a grande verdade é
que, de tanto ouvir sistemas de áudio de má qualidade ou por pura e simples
desinformação, a maioria das pessoas já está viciada em determinados
exageros. Enquanto algumas gostam mais de uma certa exacerbação dos agudos,
outras são do tipo ?bass-freaks?, que adoram uma boa dose de exagero nos
graves.
Se
você se identifica com um desses tipos de ouvintes, quem sabe não seria a hora
de rever os seus conceitos de qualidade. Através de uma reeducação dos hábitos
de audição, você iria descobrir que um som mais equilibrado ou realista acaba
sendo mais agradável e muito menos cansativo, principalmente em audições
prolongadas, do que outro com exageros em qualquer faixa de freqüência. No
caso específico dos graves, uma reprodução equilibrada não significa graves
anêmicos. Pelo contrário. Mesmo sem qualquer realce artificial, eles podem ser
potentes e impactantes, secos e precisos, desde que as caixas e/ou o subwoofer
tenha(m) a necessária qualidade e o receiver ou processador de surround esteja
bem ajustado. Essa naturalidade ou fidelidade a que estamos nos referindo é
especialmente importante na reprodução dos diálogos dos filmes. Aqui,
qualquer exagero acaba tornando a seqüência pouco natural e comprometendo a
sua inteligibilidade.
Por
último, mas não menos importante, esqueça qualquer tipo de opinião
preconcebida a respeito da marca ou procedência das caixas avaliadas. Sim, é
verdade que determinadas marcas costumam oferecer um nível de qualidade mais
elevado em qualquer faixa de preços. Mas isso não impede que possam ser
igualadas ou até superadas por produtos concorrentes com preços até
inferiores. Por isso, para eliminar a poderosa influência desse fator subjetivo
na avaliação de caixas acústicas, os grupos de audição dos fabricantes e
alguns críticos de áudio costumam até ocultar as caixas avaliadas atrás de
uma cortina, impedindo a sua identificação. Nesse aspecto, você precisará
estabelecer o que é mais importante para você: impressionar os amigos
comprando uma marca de prestígio ou levando para casa o melhor em uma
determinada faixa de preços, não importando a sua marca ou país de procedência.
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