
Atualmente, um japonês, um americano e um europeu tiram o sono de Hélio Costa, o ex-repórter do global Fantástico que conduz o Ministério das Comunicações. Até o fim de fevereiro, quando o órgão do governo, em acordo com dez outras pastas ministeriais, divulgar sua decisão, o Brasil ficará com a dúvida sobre qual dos padrões será usado para transmitir a próxima geração de TV no País.
Desenrolando a história
Desde 1998, a novela sobre o formato a ser escolhido se estende. Todas as tentativas anteriores passaram pelas mãos do CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento) e parecem cumprir uma escadinha. ?Fizemos um ?Relatório Integrador? em 2001, que entrou em consulta pública. Mas havia divergências muito grandes e o documento não andou?, afirma Ricardo Benetton, diretor de TV Digital do CPqD. Em 2002, o órgão preparou outro relatório sobre viabilidade comercial que também não foi levado adiante.
Durante sua gestão frente ao Ministério das Comunicações, o atual deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) pediu que fosse estudada a viabilidade econômica dos três sistemas mais populares no mundo e um nacional. ?O CPqD deveria comparar o então formato nacional com os outros três?, recorda Benetton, acrescentando que o órgão deveria acoplar características nacionais a um sistema já pronto.
E o que isso tem a ver com o indivíduo que vai ligar a TV em casa para assistir a seus programas favoritos? Por não conseguir desenvolver um formato completamente nacional, ferramentas de interação brasileiras serão adicionadas ao formato a ser revelado no fim do mês. Além da interface de interação desenvolvida pela USP, o Brasil contribuiu com melhorias na recepção do sinal e na codificação digital do conteúdo, segundo Benetton.
TV Digital lá fora
Você já conhece a relação atrasada entre tecnologia e países em desenvolvimento, não? Enquanto discutimos qual padrão de TV Digital o País adotará a partir do segundo semestre de 2006, Berlim, na Alemanha, comemora dois anos e meio (!!!) de abandono da TV analógica, feita em agosto de 2003. Na ocasião, cerca de 150 mil das 170 mil casas que dependiam da transmissão analógica compraram set-top boxes (equipamento que permite que aparelhos de TV analógicos recebam sinais digitais) para acompanhar a nova programação, transmitida sob o formato DVB.
Apontada como alternativa de transmissão do futuro, é de se esperar que a TV Digital enterre a TV analógica e seus chiados, fantasmas e programas duplicados. Mas, mesmo que muitos países já tenham datas definidas do abandono, o Brasil parece não ter horizonte para tal.
A transição completa para digital das transmissões nos EUA foi adiada para o final de 2009. Segundo o Senado dos EUA, a data inicial, programada para 2006, não poderia ser cumprida já que apenas 80% dos domicílios americanos estariam preparados para receber o sinal especial ? o documento divulgado pelo consórcio ATSC, responsável pelo formato americano, previa taxa de adesão de 85% para que houvesse a mudança.
Para acompanhar a mudança, o mercado de eletrônicos também começa a se adaptar. A japonesa Panasonic foi a primeira companhia a anunciar, na semana passada, que deixaria de produzir televisões que não suportassem o padrão digital de transmissão. Em um anúncio oficial, a Panasonic anunciou que 30% das TVs vendidas no Japão durante 2005 eram analógicas.
Quando a questão envolve o abandono da TV analógica no Brasil, a dúvida é maior ainda que a referente ao padrão. Fontes dentro do Ministério das Comunicações afirmam que ?seria difícil traçar um panorama? por culpa também dos canais ? seria necessário bastante tempo para que uma estação de TV completasse sua grade apenas com atrações digitais após a inauguração do serviço, prevista para setembro.
O CPqD, por outro lado, afirmou no relatório final entregue ao ministro Hélio Costa que, em uma previsão otimista, 15 anos seria o tempo ideal para a transição completa do sistema de transmissão nacional, chamado tecnicamente de switch off. No cenário mais pessimista, são necessários 30 anos para a mudança completa.
?Considerado o panorama atual, um chute entre as duas datas seria de um bom timing? afirma Benetton, poucos dias antes de Costa reiterar o prazo em um encontro com parlamentares na Câmara de Deputados. Acomode-se na poltrona e aproveite as atrações na TV, já que temos bastante tempo.
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